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sábado, 28 de julho de 2012

O Nesnás



Entre os monstros d' A Tentação figura o Nesnás, que "tem só um olho, uma face, uma mão, uma perna, meio corpo e meio coração." Um comentador, Jeari-Claude Margolin, afirma que foi Flaubert quem o imaginou, mas o primeiro volume d' As Mil e Uma Noites de Lane (1839) atribui-o ao comércio dos homens com os demónios. O Nesnás - é assim que Lane escreve a palavra - é "metade do ser humano; tem meia cabeça, meio corpo, um braço e uma perna; brinca com grande agilidade" e habita nas solidões do Hadramaute e do Iémen. É capaz de uma linguagem articulada; alguns têm a cara no peito, como os Blemies, e a cauda parecida com a da ovelha; a sua carne é suave e muito procurada. Uma variedade de Nesnás com asas de morcego abunda na ilha de Raij (talvez Bornéu), nos confins da China; "mas", acrescenta o incrédulo narrador, "Alá sabe de tudo".

Jorge Luís Borges, O Livro dos Seres Imaginários 

sábado, 7 de abril de 2012

O Ictiocentauro


Os ictiocentauros têm o torso, braços e cabeça humanos, cauda de delfim e pernas dianteiras de cavalo. Costumam ser representados no cortejo de divindades marinhas, ao lado de nereidas, tritões e hipocampos.
Dois deuses marinhos menores chamados Bitos ("abismos") e Afros ("espuma") eram representados como ictiocentauros. Filhos de Poseidon e de Anfitrite, carregaram Afrodite para a costa quando ela nasceu da espuma do mar, criada pela queda n'água do sêmen de Urano quando foi castrado pelo filho Cronos.

in Fantastipedia

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Vampiro


Os vampiros, assim como os zombies, fazem parte do folclore e das mitologias antigas, desde os Akhkharu da Suméria e de Lilu, da demonologia da antiga Babilónia. Um dos Akhkharu, Lilitu, apareceu mais tarde na mitologia judaica como Lilith. O jiang shi chinês, o deus egípcio Sekhmet e a Lamia grega também apresentam comportamentos vampíricos.

Lilitu

A maior parte do corpus narrativo relativo aos vampiros provém do folclore da Europa de Leste (especificamente o Eslavo). Nestas histórias, os vampiros são normalmente os corpos reanimados de suicidas, criminosos, feiticeiros maléficos ou ainda vítimas de mortes violentas. Acreditava-se que matavam as suas vítimas sugando-lhes o sangue, ou estrangulando-as ou ainda sentando-se em cima delas e sufocando-as.

Crenças

Causas ou sinais de vampirismo:

- nascer com a cabeça coberta com a membrana do saco amniótico
- nascer com cauda
- quando se foi concebido em determinados dias
- morte não natural
- excomungação
- rituais fúnebres inadequados
- ter cabelo ruivo
- morte de gado numa dada área
- um corpo exumado que tenha cabelo e/ou unhas a crescer, ou sangue na boca e uma tez rosada
- um terceiro mamilo
- nascer prematuramente
- ser o sétimo filho, se todos os outros são do mesmo sexo
- nascer ilegítimo
- ser o bebé de uma mulher que evitou comer sal enquanto grávida
- um estado de decomposição anormal três anos após a morte
- morrer sozinho
- um gato que salta sobre uma sepultura
- comer carne de uma ovelha morta por um lobo
- ser amaldiçoado

Maneiras de matar ou evitar um vampiro:

- colocar um crucifixo no caixão
- colocar blocos debaixo do queixo do cadáver
- pregar as roupas do cadáver às paredes do caixão
- colocar serradura no caixão ou outros pequenos objectos no caixão (contá-los seria uma distração para o vampiro até à madrugada!)
- trespassar o cadáver com estacas ou espinhos
- enterrá-lo com foices acima do pescoço (auto-decapitação)
- queimá-lo
- enterrá-lo de cabeça para baixo
- aspergir água benta sobre o cadáver
- exorcismo
- cortar os tendões do cadáver pelos joelhos
- pintar cruzes nas portas com alcatrão
- colocar lâminas debaixo das almofadas
- esfregar tudo e todos com alho


Dracula, de Tod Browning, 1931 - protagonizado por Bela Lugosi

sábado, 7 de maio de 2011

Seres Lendários e Maravilhosos



"... os Faunos, os Acéfalos, com os olhos nos ombros e dois buracos no peito à maneira de nariz e de boca; os Andróginos, com uma única mama e os dois órgãos genitais; os Artabantes da Etiópia que caminham inclinados como ovelhas, os Astómacos cuja boca é apenas um furinho e que se alimenta com uma palhinha; os Ástomos, sem nenhuma boca, que se alimentam unicamente de cheiros;












os Bicéfalos; os Blémias sem cabeça e com os olhos e boca no peito; os Centauros, os Unicórnios, as Quimeras, animais triformes com cabeça de leão, a parte superior de dragão e a do meio de cabra;












os Ciclopes; os Cinocéfalos com cabeça de cão; mulheres com dentes de javali, cabelo até aos pés e cauda de vaca; os Grifos com corpo de águia à frente e de leão atrás; os Ponços com as pernas hirtas sem joelho, cascos de cavalo e o falo no peito; outros seres com o lábio inferior tão grande que quando dormem cobrem a cabeça com ele; a Leucrococa com corpo de burro, a traseira de cervo, o peito e as coxas de leão, patas de cavalo, um corno bifurcado, uma boca rasgada até às orelhas de onde sai uma voz quase humana e, em lugar de dentes, um único osso;


a Manticora, com três fiadas de dentes, corpo de leão, cauda de escorpião, olhos azuis, pele cor-de-sangue e silvo de serpente; os Panócios com orelhas tão grandes que chegam aos joelhos; os Fitos, com pescoço longuíssimo, pés muito compridos e braços semelhantes a serrotes; os Pigmeus sempre em luta com os grous, com três palmos de altura que, vivem no máximo, sete anos, se casam e têm filhos aos seis meses;


os Sátiros com o nariz adunco, com os cornos e a parte inferior de cabra; serpentes com uma crista na cabeça que caminham com pernas e têm sempre a garganta aberta donde esguicha veneno; ratos tão grandes como galgos, caçados por mastins, porque os gatos não conseguem apanhá-los; homens que caminham com as mãos e homens que caminham sobre os joelhos e têm oito dedos em cada pé; homens com dois olhos à frente e dois atrás; homens com testículos tão grandes que chegam aos joelhos; Esquiápodes com uma única perna com que deslizam a toda a velocidade e que erguem quando descansam, para estar à sombra do seu enormíssimo e unico pé."

História da Beleza, Umberto Eco, Difel

domingo, 6 de março de 2011

A Anfisbena


Brunetto Latini diz no seu Li Livres dou Trésor : "A Anfisbena é uma serpente com duas cabeças, uma no seu lugar e outra na cauda; pode morder com as duas, corre com ligeireza e os seus olhos brilham como candeias."

No século XVII, Sir Thomas Browne observou que não existe nenhum animal sem parte de baixo ou de cima, frente e cauda, esquerda e direita, e negou que a Anfisbena pudesse existir, porque ambas as extremidades são anteriores. Anfisbena em grego quer dizer "que segue em duas direcções".

Nas Antilhas e em certas regiões da América, o nome aplica-se a um réptil que vulgarmente se conhece por "dupla marcha", por "serpente de duas cabeças" e "mãe das formigas". Diz-se que as formigas a mantêm e também se diz que, se a cortarem em pedaços, estes se juntam.

Jorge Luis Borges, O Livro dos Seres Imaginários

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

As Ninfas

Hilas e as Ninfas, de William Waterhouse
(...) os antigos dividiram-nas em Ninfas das águas e da terra. Destas últimas, algumas presidiam aos bosques. As Hamadríadas moravam invisivelmente nas árvores e morriam com elas; de outras pensou-se que eram imortais ou que viviam milhares de anos. As que habitavam no mar chamavam-se Oceânides ou Nereides; as dos rios eram Náiades. (...) Eram donzelas graves e formosas; vê-las poderia provocar a loucura e, se estavam nuas, a morte.(...)
Os antigos ofereciam-lhes mel, azeite e leite. Eram divindades menores e não se ergueram templos em sua honra.
Jorge Luis Borges, O Livro dos Seres Imaginários, teorema

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Unicórnio

The Unicorns, Gustave Moreau, 1885

O Unicórnio representa complexos conceitos simbólicos e místicos. Os cristãos vêem nesta criatura de um branco radiante, a quintessência de um Cristo invencível que presta honra à castidade de uma alma pura -  Virgem Maria (a Donzela). Numa perspectiva mais pagã, o unicórnio simboliza a consciência espiritual, a elegância, a magia e a sublimação sexual.

Quatrocentos anos antes da era cristã, o grego Ctésias, que era médico de Artaxerxes Mnémon, diz que nos reinos do Indostão há asnos selvagens muito velozes; de pelagem branca, cabeça purpúrea, olhos azuis, dotados de um agudo corno na frente, que na base é branco, na ponta é vermelho e no meio é inteiramente negro.

O orientalista Schrader, por volta de 1892, pensou que o Unicórnio podia ter sido sugerido aos Gregos por certos baixos-relevos persas, que representam os touros de perfil, com um único corno.

Na Idade Média, os bestiários ensinam que o Unicórnio pode ser aprisionado por uma criança; no Physiologus Graecus lê-se: "Como o apanham. Põem-lhe à frente uma virgem e ele salta para o regaço da virgem e a virgem recebe-o com amor e leva-o ao palácio dos reis." Muitas famosas tapeçarias ilustram este triunfo.

Esta tapeçaria, intitulada 'Sight', é uma de um grupo flamengo de seis, de finais do século XV,chamado 'La Dame à la Licorne'. A donzela segura num espelho junto ao animal amansado.

Nesta tapeçaria (c. 1500), a virgem está no seu jardim fechado, com o unicórnio a seus pés. Na legenda está escrito um lamento - a jovem está infeliz com o seu isolamento e anseia ser libertada da sua solidão.

Um cavalinho branco com patas traseiras de antílope, barba de chibo e um comprido e retorcido corno à frente, é a representação habitual deste animal fantástico.

Leonardo da Vinci diz que a captura do Unicórnio é devida à sua sensualidade, que o faz esquecer a sua força e encostar-se no regaço da donzela, e assim é apanhado pelos caçadores.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O Cérbero

Cérbero, Ilustração de Gustave Doré para a Divina Comédia de Dante

Se o Inferno é uma casa, a casa de Hades, é natural que um cão a guarde e também é natural que imaginem com esse cão é atroz. A Teogonia de Hesíodo atribui-lhe cinquenta cabeças; para maior comodidade das artes plásticas, este número foi rejeitado e as três cabeças do Cérbero são do domínio público. Virgílio menciona as suas três gargantas; Ovídio fala do seu triplo latido; Buder compara as três coroas da tiara do Papa, que é o porteiro do Céu, com as três cabeças do cão, que é o porteiro dos Infernos. Dante dá-lhe características humanas que agravam o seu temperamento infernal: pêlo ensebado e negro, mãos com unhas que desfazem, por entre a chuva, as almas dos réprobos. Morde, ladra e mostra os dentes.

Trazer o Cérbero à luz do dia foi o último trabalho de Hércules. Um escritor inglês do século XVIII, Zachary Grey, interpreta assim a aventura:

"Este Cão de Três Cabeças anuncia o passado, o presente e o futuro que, como quem diz, devoram todas as coisas. Que fosse vencido por Hércules prova que as Acções heróicas são vitoriosas sobre o Tempo e subsistem na Memória da Posteridade."

Segundo os textos mais antigos, o Cérbero saúda com o rabo (que é uma serpente) os que entram no Inferno e devora os que daí procuram sair. Uma tradição posterior fá-lo morder os que chegam; para o acalmar, era costume pôr no ataúde um bolo de mel.

Na mitologia escandinav, um cão ensanguentado, Garmn, guarda a casa dos mortos e lutará com os deuses, quando os lobos infernais devorarem a Lua e o Sol. Alguns atribuem-lhe quatro olhos e quatro olhos possuem também os cães de Yama, o deus bramânico da morte.

O bramanismo e o budismo oferecem infernos de cães que, à semelhança do Cérbero dantesco, são os carrascos das almas.

Jorge Luís Borges, O Livro dos Seres Imaginários

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Macaco da Tinta

Este animal abunda nas regiões do Norte e tem quatro ou cinco polegadas de comprimento; está dotado de um instinto curioso; os olhos são como cornalinas e o pêlo é negro-azeviche, sedoso e flexível, suave como uma almofada. É muito afeiçoado à tinta-da-china e quando as pessoas escrevem, senta-se com uma mão sobre a outra e as pernas cruzadas, à espera que acabem e bebe a tinta que sobra. Depois volta a sentar-se de cócoras, e fica tranquilo.

Wang-Ta-Hai (1791)

in Jorge Luís Borges, O Livro dos Seres Imaginários


Balinese Monkey Chant - excerto de Baraka, 1992

domingo, 17 de outubro de 2010

A Quimera

A Quimera, de Gustave Moreau, 1862

Está escrito na Ilíada que a Quimera era de linhagem divina e que na frente era um leão, no meio uma cabra e atrás uma serpente; deitava fogo pela boca e foi morta pelo formoso Belerofonte, filho de Glauco, como os deuses pressagiaram.

A Teogonia de Hesíodo descreve-a com três cabeças. Na metade do lombo está a cabeça de cabra, numa extremidade a de serpente, na outra a de leão.

Plutarco sugeriu que Quimera era o nome de um capitão com vocação de pirata, que tinha mandado pintar no seu barco um leão, uma cabra e uma cobra.

Demasiado heterogénea, a imaginação das pessoas resistia a formar um único animal. Com o tempo, a Quimera passou a significar o impossível, a ilusão, o sonho.


domingo, 10 de outubro de 2010

O Asno de Três Patas


"Do Asno de Três Patas diz-que está no meio do oceano e que três é o número dos seus cascos e seis o dos seus olhos e nove o das suas bocas e dois o das suas orelhas e um o do seu corno. A sua pelagem é branca, o seu alimento é espiritual e todo ele é justo. E dois dos seis olhos estão no lugar dos olhos e dois na ponta da cabeça e dois na cerviz; com a penetração dos seis olhos domina e destrói.

Das nove bocas três estão na cabeça e três na cerviz e três dentro das ilhargas... cada casco, posto no chão, cobre o espaço de uma manada de mil ovelhas, e sob o esporão podem manobrar até mil ginetes. Quanto às orelhas, são capazes de abarcar Mazandaran (província do norte da Pérsia). O corno parece de oiro e oco e cresceram-lhe mil ramificações. Com esse corno vencerá e dissipará todas as corrupções dos malvados."

Do âmbar se sabe que é esterco do Asno de Três Patas. Na mitologia do masdeísmo, este monstro benéfico é um dos auxiliares de Ahura Mazdâ (Ormuzde), princípio da Vida, da Luz e da Verdade.

Jorge Luís Borges, O Livro dos Seres Imaginários, Teorema

sábado, 9 de outubro de 2010

Ochus Bochus

Under skin, de Jon MacNair

sábado, 2 de outubro de 2010

Abtu e Anet


Segundo a mitologia dos Egípcios, Abtu e Anet são dois peixes idênticos e sagrados que nadam diante da nave de Ré, o deus Sol, para o prevenir de qualquer perigo. Durante o dia, a nave viaja pelo céu, de nascente para poente; durante a noite, sob a terra, em direcção contrária.

Jorge Luís Borges, O Livro dos Seres Imaginários

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Bao A Qu


Para contemplar a paisagem mais maravilhosa do mundo, é preciso chegar ao último piso da Torre da Vitória, em Chitor. Existe aí um terraço circular que permite dominar todo o horizonte. Uma escada de caracol conduz ao terraço, mas só se atrevem a subir os que não acreditam na fábula, que diz assim:

Na escada da Torre da Vitória, vive desde o princípio do tempo o A Bao A Qu, sensível aos valores das almas humanas. Vive em estado letárgico, no primeiro degrau, e apenas goza de vida consciente quando alguém sobe a escada. A vibração da pessoa que se aproxima infunde-lhe vida e uma luz interior insinua-se nele. Ao mesmo tempo, o seu corpo e a sua pele quase translúcida começam a mover-se.

Quando alguém sobe a escada, o A Bao A Qu coloca-se quase nos calcanhares do visitante e sobe agarrado na borda dos degraus curvos e gastos pelos pés de gerações de peregrinos. Em cada degrau intensifica-se a cor, a sua forma aperfeiçoa-se e a luz que irradia é cada vez mais brilhante.

Um testemunho da sua sensibilidade é o facto de que só obtém a sua forma perfeita no último degrau, quando o que sobe é um ser evoluído espiritualmente. Se assim não for, o A Bao A Qu fica como paralisado antes de chegar, o seu corpo incompleto, a sua cor indefinida e a luz vacilante. O A Bao A Qu sofre quando não se consegue formar totalmente e a sua queixa é um rumor apenas perceptível, semelhante ao roçar da seda.

Mas quando o homem ou a mulher que o revivem estão cheios de pureza, o A Bao A Qu pode chegar ao último degrau já completamente formado e irradiando uma viva luz azul. O seu regresso à vida é muito breve, pois ao descer o peregrino, o A Bao A Qu roda e cai até ao degrau inicial, onde já apagado e semelhante a uma lâmina de contornos vagos espera pelo próximo visitante.

Só é possível vê-lo bem quando chega a meio da escada, onde o prolongamento do seu corpo, que uma espécie de bracinhos ajudam a subir, se definem com clareza. Há quem diga que olha com todo o corpo e que ao tacto recorda a pele de pêssego. No decorrer dos séculos, o A Bao A Qu chegou uma só vez à perfeição.

O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luís Borges

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Naga



A Naga é uma entidade omnipresente nas mitologias hindu e budista, fazendo parte, ainda hoje, das tradições culturais contemporâneas  em países como a Índia, Nepal, Bali ou Sri-Lanka. Trata-se de uma serpente semi-divina, com forma humana. Intimamente associada à água e aos rios, é um símbolo poderoso da vida, mas também está relacionada com a morte devido ao seu veneno.

Segundo a lenda, elas surgiram a partir de cabelos e pêlos do corpo de Brahma durante o seu trabalho de criação do mundo. Possuem um corpo meio humano e meio serpente e são consideradas as protetoras de fontes, poços e rios, trazendo a chuva. 

São adoradas como símbolos de fertilidade, especialmente na Índia meridional. Algumas das nagas mais conhecidas são: Ananta (símbolo da eternidade) e Manasa (deusa de fertilidade). O mito das nagas também aparece noutras regiões da Ásia: para os marinheiros malaios, elas são enormes dragões marinhos. Em Java e na Tailândia, a Naga é uma serpente mítica infernal que possui imensas riquezas.

Segundo uma lenda budista, uma Naga compassiva, ao ver Buda sendo castigado pelo vento e pela chuva enquanto meditava, enroscou-se sete vezes à sua volta e colocou sobre ele as suas sete cabeças, como um telhado. Buda converteu-a depois à sua fé.

Outra lenda, recolhida na Índia, em princípios do século V, conta:

"O rei Asoka chegou a um lago, perto do qual havia uma torre. Pensou destruí-la para edificar outra mais alta. Um brâmane fê-lo penetrar na torre e, uma vez lá dentro, disse-lhe:
- A minha forma humana é ilusória; sou realmente um Naga, um dragão. Os meus pecados fazem com que eu tenha este corpo espantoso, mas observo a lei que Buda estabeleceu e espero redimir-me. Podes destruir este santuário, se acreditas ser capaz de erguer outro melhor.
Mostrou-lhe os vasos do culto. O rei olhou-os com inquietação, porque eram muito diferentes dos que os homens fabricam, e desisitiu do seu propósito."

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Fénix



Em efígies monumentais, em pirâmides de pedra e em múmias, os Egípcios procuraram a eternidade; é razoável que no seu país tenha surgido o mito de um pássaro imortal e periódico, embora a elaboração posterior seja obra dos Gregos e dos Romanos. Na mitologia de Heliópolis, a Fénix é o senhor dos jubiléus ou de largos ciclos de tempo; Heródoto, numa famosa passagem (II, 73) refere com repetida incredulidade uma primeira forma de lenda:

"Outra ave sagrada há ali que só se viu em pintura, cujo nome é o de Fénix. Com efeito, são raras as vezes que se deixa ver e tão de longe em longe que, segundo os habitantes de Heliópolis, só chega ao Egipto de quinhentos em quinhentos anos, ou seja, quando morre o seu pai. Se pelo seu tamanho e conformação é tal como a descrevem, a sua massa e aspecto são muito parecidos com os da águia e as suas penas são em parte douradas e em parte cor de carmesim. São tantos os prodígios que dela nos contam que, embora para mim pouco dignos de fé, não deixarei de os referir. Para trasladar o cadáver de seu pai da Arábia até ao Templo do Sol, executa a seguinte manobra: forma antes de mais um ovo sólido de mirra, tão grande quanto a sua força para o levar, experimentando o seu peso depois de estar formado o ovo para saber se o aguenta; em seguida, começa a esvaziá-lo para abrir um espaço onde possa enfiar o cadáver do pai, que ajusta com uma outra porçaõ de mirra e fecha com ela a concavidade até que o peso do ovo cheio com o cadáver iguale o que tinha quando estava sólido; fecha depois a abertura, carrega o ovo e leva-o para o Templo do Sol no Egipto. Eis aqui,seja como for, o que dizem daquele pássaro."
Uns quinhentos anos depois, Tácito e Plínio retomaram a prodigiosa história; o primeiro observou correctamente que toda a antiguidade é obscura, mas que uma tradição fixou o prazo de vida da Fénix em mil quatrocentos e sessenta e um anos (Anais, VI, 28). O segundo também investigou a cronologia da Fénix; registou (X, 2) que, de acordo com Manílio, aquela vive um ano platónico, ou ano magno. Um ano platónico é o tempo que exigem o Sol, a Lua e os cinco planetas para voltarem à sua posição inicial; por sua vez, Tácito no Diálogo dos Oradores, fá-la abarcar doze mil novecentos e noventa e quatro anos comuns. Os antigos acreditaram que, cumprido esse enorme ciclo astronómico, a história universal se repetiria em todos os seus pormenores por se repetirem os influxos dos planetas; a Fénix viria a ser um espelho ou uma imagem do universo. Para maior analogia, os estóicos ensinaram que o universo morre no fogo e renasce do fogo e que o processo não terá fim como não teve princípio.



Os anos simplificaram o mecanismo da gestação da Fénix. Heródoto menciona um ovo e Plínio um gusano, mas Claudiano, em finais do século IV, já evocava um pássaro imortal que renasce das cinzas, um herdeiro de si mesmo e uma testemunha das idades.

Poucos mitos serão tão difundidos como o da Fénix. Aos autores já referidos convém ainda acrescentar: Ovídio (Metamorfoses, XV), Dante (O Inferno, XXIV), Shakespeare (Henrique VIII, V, 4), Pellicer (El Fénix y su historia natural), Quevedo (Parnaso español, VI), Milton (Samson Agonistes, in fine). Mencionaremos ainda o poema latino De Ave Phoenice, atribuído a Lactâncio, e uma imitação anglo-saxónica do século VIII desse mesmo poema. Tertuliano, Santo Ambrósio e Cirilo de Jerusalém indicaram a Fénix como prova da ressurreição do corpo. Plínio zomba dos terapeutas que prescrevem remédios extraídos do ninho e das cinzas da Fénix.

in O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luís Borges

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Grifo


"Monstros alados" é como Heródoto chama aos Grifos ao referir a sua guerra contínua com os Arimaspos; quase tão impreciso é Plínio que fala das orelhas compridas e do bico curvo destes "pássaros fabulosos" (X, 70). Talvez a descrição mais pormenorizada seja a do problemático Sir John Mandeville, no capítulo oitenta e cinco das suas famosas Viagens.
"Desta terra (Turquia) os homens partirão para a terra de Bactriana, onde há homens malvados e astutos, e nessa terra há árvores que dão lã, como se fossem ovelhas, de que fazem tecidos. Nessa terra há ypotains (hipopótamos) que por vezes vivem na terra, por vezes na água, e são metade homem e metade cavalo, e só se alimentam de homens quando os apanham. Nessa terra há muitos Grifos, mais do que noutros lugares, e alguns dizem que têm o corpo dianteiro de águia e o traseiro de leão, e isso é verdade, porque assim são feitos, mas o Grifo tem o corpo maior que oito leões e é mais robusto que cem águias. Porque sem dúvida levará em voo para o seu ninho um cavalo com o ginete ou dois bois juntos quando andam a lavrar, porque têm grandes unhas nos pés, do tamanho do corpo dos bois e com elas fazem copos para beber e com as costelas arcos para atirar."
Em Madagáscar, outro famoso viajante, Marco Polo, ouviu falar do roque e a princípio entendeu que se referiam ao ucello grifone, ao pássaro Grifo (Viagens, III, 36).
Na Idade Média, a simbologia do Grifo é contraditória. Um bestiário italiano diz que significa o demónio; em geral, é emblema de Cristo e assim o explica Isidoro de Sevilha nas suas Etymiologiae. "Cristo é leão porque reina e tem a força; é águia porque, depois da ressurreição, sobe ao céu."

No canto vinte e nove d' O Purgatório, Dante sonha com um carro triunfal puxado por um Grifo; a parte de águia é dourada, a de leão é branca, misturada com vermelho, por querer significar, segundo os comentadores, a natureza humana de Cristo. (Branco misturado com vermelho dá a cor da carne)

Outros comentadores entendem que Dante queria simbolizar o Papa, que é sacerdote e rei. Escreve Didron, na sua Iconografia Cristã: "O Papa, como pontífice ou águia, eleva-se até ao trono de Deus para receber as suas ordens, e como leão ou rei anda pela terra com força e com vigor."

Jorge Luís Borges, O Livro dos Seres Imaginários