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domingo, 20 de outubro de 2013

As três maçãzinhas de ouro

Havia três irmãos; o mais novo tinha três maçãzinhas de ouro, e os outros para ver se lhas tiravam mataram-no e enterraram-no num monte. Depois nasceu na sepultura uma cana. Certo dia, passou por lá um pastor, que cortou um pedaço da cana para fazer uma flauta. O pastor começou a tocar, mas a gaita em vez de tocar, dizia: Toca, toca, oh pastor, Os meus irmãos me mataram, Por três maçãzinhas de ouro, E ao cabo não as levaram.

O pastor quando ouviu isto, chamou um carvoeiro, e deu-lhe a flauta. O carvoeiro começou também a tocar, mas a flauta dizia: Toca, toca, oh carvoeiro, Os meus irmãos me mataram… Assim foi a flauta andando, de indivíduo para indivíduo, até que chegou às mãos do pai e mãe do morto. A flauta dizia ainda: Toca, toca, oh meu pai… Toca, toca, oh minha mãe, Os meus irmãos me mataram Por três maçãzinhas de ouro E ao cabo não as levaram. 

Chamaram o pastor, que disse onde tinha cortado a cana. Foram lá e encontraram o cadáver com as três maçãzinhas de ouro. 


Conto tradicional português

sábado, 15 de dezembro de 2012

O compadre da morte

   

     Um lavrador pobre tinha tantos filhos que não sabia a quem convidar para padrinho dos recém-nascidos. Quase todos na aldeia eram compadres dele. Nascendo-lhe mais um filho, ficou atrapalhado para saber quem levasse a criança ao baptismo. Estava a pensar no caso quando passou por ele um homem muito alto, magro, vestido de branco, que parou e o cumprimentou amavelmente. O lavrador perguntou se ele aceitava ser o padrinho do seu filho mais novo. — Sabes quem sou eu? — Não senhor! Mas parece-me ser homem honrado e bom! — Sou a Morte e aceito ser o teu compadre. Acompanhou o lavrador à igreja, ficando seu compadre. 

   Quando voltaram a casa, a Morte disse: — Escuta. Não tenho dinheiro nem fazenda para o meu afilhado, mas posso fazer o meu compadre tornar-se um homem rico. — Como será isso, meu compadre? — Presta atenção! Diz a todos que sé medico e vai atender os doentes. Quando lá chegares me verás. Se eu estiver no lado da cabeça do enfermo, dá-lhe o que quiseres e ele curar-se-á, mas se eu estiver aos pés da cama, o homem está perdido. — Pois é caso entendido, meu compadre. 

   Começou o lavrador, que era desempenado e afoito, a dizer-se curandeiro e a visitar doentes por toda a vizinhança. Quando via a Morte perto da cabeceira do doente, punha-o sadio em poucos dias. Quando via a Morte aos pés do enfermo, receitava umas águas simples, cobrava o dinheiro e ia-se embora, desenganando a todos. Ganhou fama e proveitos crescidos, ficando rico e conhecido em toda a parte. 

   Já muito velho, o curandeiro foi chamado por um homem muito poderoso e rico. Apesar de relutar, dizendo-se cansado e não mais podendo aceitar consultas, foi obrigado a pôr-se numa carruagem e ir. Lá chegando, logo que olhou para o quarto do ricaço, avistou o compadre Morte, bem sentado aos pés da cama. A família do enfermo prometia os castelos de Espanha se o chefe recobrasse a saúde. O curandeiro imaginou um plano de burlar o pacto com a Morte e ganhar mais aquela fortuna. Mandou voltar o leito, de maneira a ficar os pés onde estava a cabeça e esta onde estavam os pés. A Morte, assim que voltearam a cama, foi-se embora, sem dizer uma só palavra. O curandeiro recebeu uma gorda quantia e voltou para casa satisfeito. 

   Anos depois, a Morte veio visitá-lo e disse-lhe: — Meu compadre, de hoje a um ano virei buscá-lo porque deve ter chegado o dia de sua viagem… O Curandeiro ficou espavorido com o anúncio. Para enganar a Morte mais uma vez, quando se aproximou o dia fatal, pintou os cabelos de preto, pôs umas barbas retintas, convidou uns amigos e começou a beber e a rir, como se fosse outra pessoa. Chegou a Morte e, não o vendo, perguntou pelo seu compadre. Todos os convidados responderam que o dono da casa não estava e nem sabiam quando ele voltaria. — Ora, ora — monologou a Morte, desapontada — como não posso perder meu tempo nem a minha viagem, vou levar esse barbadão bebedor… E levou com ela o seu compadre.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A mulher teimosa


Havia em tempos uma mulher tão teimosa, que por birra, meteu-se a uma ribeira, que levava muita água, e não dava passagem. Caiu na ribeira, e morreu afogada. No dia seguinte andou o marido em procura do cadáver da mulher; em vez, porém, de seguir o leito da ribeira, acompanhando o curso da água, ele procurou o cadáver pela ribeira acima. — Procura mal o cadáver, — disse um compadre — pois é natural encontrá-lo lá em baixo. — Não, compadre, a minha mulher era muito teimosa e mesmo depois de morta é capaz de caminhar contra a maré. 

Conto Tradicional Português

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O sócio do diabo



Era uma vez um lavrador muito pobre que não conseguia medrar no seu trabalho. Tanto mais se esforçava menos rendia a tarefa ao pobre homem. Vai um dia, desesperado, gritou: — Apareça quem me ajude mesmo que seja o próprio Diabo! — Aqui estou eu! respondeu o Demo. Ajustaram logo o contrato. 

O lavrador ganhou um belo terreno e o Diabo disse-lhe: — Planta o que quiseres que bem dará. Nascendo em baixo é meu e saindo em cima é teu… O homem plantou milho, trigo e centeio que nasceram como um louvar a Deus. Quando a plantação estava no pé de ser ceifada, veio o Diabo cobrar a parte. — Pode levar o que é seu… Foi ver o Diabo o que era dele e só encontrou raízes sem valor. Ficou furioso e desmanchou o pacto, propondo outro: ‘ — Vamos às avessas. O que sair por cima é meu e sendo de baixo é teu. 

O homem aceitou. Vendeu o milho, o trigo e o centeio por bom dinheiro e plantou batatas, cenouras e nabos que era um nunca acabar. No tempo da colheita voltou o diabo pela sua parte. — Leve o que está por cima que é o trato… O Diabo desta vez ficou desesperado com o logro. Desmanchou o negócio e propôs outro: — Faço-te rico como um conde e, no fim de vinte anos, ganho a tua alma. Está feito? — Está feito, com uma condição; escrevemos tudo num papel que fica no meu poder e que lhe darei ao fim dos vinte anos. Se passar um minuto depois da meia noite e você não tiver o contrato na mão, estarei livre. — Só aceito se o papel ficar na minha mão no fim do prazo! — Está feito o negócio…. 

Ficou o homem rico da noite para o dia, tratando-se do bom e do melhor, fazendo caridades. No fim dos vinte anos, dia por dia, foi falar com o padre da paróquia e  pediu-lhe uma escudela cheia de água benta. Dentro da escudela meteu o papel e esperou o Diabo. Quando este chegou, o homem disse: — O papel está ali, dentro daquela escudela, bem à vista. É só tirar. O Diabo meteu a mão para agarrar o papel e largou um uivo como se tivesse metido a pata nas brasas. Foi outra vez e gritou com a dor. Por mais que procurasse retirar o contrato, a água benta não deixava. Depois de muito esforço, o relógio bateu as doze badaladas. O homem, então, benzeu-se: — Vai-te para as areias gordas, que eu de ti estou livre! O Diabo estourou como um petardo e foi para o Inferno. O homem continuou rico e feliz, morrendo quando Deus o permitiu. 

Conto tradicional português