Mostrar mensagens com a etiqueta Mouras Encantadas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mouras Encantadas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A casa da moura Zaida


As antas que se espalham pelo território português têm constituído ao longo do tempo morada de seres fantásticos, mouras e diabos quase sempre. (...)

Em Avis, no Alentejo, há pois uma anta chamada Casa da Moura. A esta anta ligou a tradição popular uma lenda que fala de uma moura adormecida juntamente com os seus tesouros, a bela Zaida, e que foi desencantada por um homem de coragem - que coragem era necessária para vencer o touro guardião do seu encantamento!



(...) dizia a velha história: "No dia em que alguém conseguir fugir ao touro e atravessar o ribeiro sem ser alcançado, o touro correrá ao longo da margem para passar ao outro lado, no sítio onde o rio acabe". Riram-se-lhe os olhos. Encharcado mas contente consigo, gritou à fera que corria cegamente: - Corre, corre rio abaixo! Procura o fim que chegarás ao mar! Adeus, boa viagem!

Voltou-se então para a anta, eufórico por ter conseguido afastar o obstáculo que se lhe entrepunha à riqueza. Aproximou-se e tocou na pedra. Um ruído vindo das profundezas e acompanhado de violentos estremeções fez ruir as pedras, que desabaram estrepitosamente. No meio da rocha do fundo abriu-se um alçapão e viram-se alguns degraus.

O rapaz iniciou então a descida. (...) Por fim atingiu o último degrau e chegou a um túnel, tão estreito que foi obrigado a continuar de rastos, mas no fim do qual o seu esforço foi recompensado.

Uma enorme gruta, abobadada até deixar de se ver, brilhava iluminada por riquezas fabulosas, umas incrustadas na própria rocha, outras amontoadas aqui e além. No centro, deitada entre coxins, estava a moura, a senhora daquela casa. Dormia placidamente um sono de centenas de anos. Sobre a sua cabeça pairavam no espaço, desapoiadas, as letras do seu nome: Zaida. O rapaz, estarrecido, leu-o em voz alta e, inesperadamente, a moura ergueu-se, perguntando:
- Quem me chama?

Esvaído de espanto, o rapaz não conseguia articular resposta e, engolindo em seco, acenou com a cabeça, indicando ter sido ele quem a nominara.
- Como soubeste o meu nome?
Sempre silenciosamente, o rapaz apontou para as letras escritas no ar.
- E o meu guarda? Como entraste aqui?
Respondeu ele, recuperada que fora a calma:
- Anda a procurar-me rio abaixo, senhora.
- Então, meu amigo, olha em volta. Escolhe o que quiseres e puderes carregar, que tudo é teu!



Ante a quantidade e variedade das riquezas, o rapaz sentia-se incapaz de escolher.
- Anda, é tudo teu!
- Tudo meu, tudo meu?!
- Ora diz-me: entre tudo isto, o que preferes?
- Estou doido, senhora, doido! Não sei, não sei... olhe, senhora moura, basta-me a senhora! Não quero mais nada…

Acabadas que foram de proferir estas palavras tudo ruiu como se não tivesse passado de um sonho. A moura e o rapaz viram-se, subitamente, frente à anta intacta. Ao lado de ambos, sob o chapéu da anta, estavam duas arcas, uma de ébano, outra de marfim, cheias de maravilhosas jóias rebrilhando fantásticas ao sol. Do lado de fora esperava-os uma mula branca, também ela rica de jaezes.

O rapaz colocou as arcas nos alforges da mula e sentou a moura em cima do animal, depois de lhe beijar a mão. Desceram o monte, ela a cavalo na besta, ele segurando-lhe as rédeas.

Estava um dia maravilhoso de sol e nunca mais ninguém os viu.

Ficou a anta, a Casa da Moura, e ficou a lenda para eu vo-la contar.


Fernanda Frazão, Lendas de Portugal

sábado, 25 de junho de 2011

À procura das mouras encantadas...


As moiras ou mouras encantadas são espíritos, seres fantásticos com poderes sobrenaturais do folclore popular português. São seres obrigados por oculta força sobrenatural a viverem em certo estado de sítio como que entorpecidos ou adormecidos, enquanto determinada circunstância lhes não quebrar o encanto. 

Segundo antigos relatos populares, são as almas de donzelas que foram deixadas a guardar os tesouros que os mouros encantados esconderam antes de partirem para a mourama. As lendas descrevem as mouras encantadas como jovens donzelas de grande beleza ou encantadoras princesas e perigosamente sedutoras. Aparecem frequentemente cantando e penteando os seus longos cabelos, louros como o ouro ou negros como a noite, com um pente de ouro, e prometem tesouros a quem as libertar do encanto.


Podem assumir diversas formas e existe um grande número de lendas, e versões da mesma lenda, como resultado de séculos de tradição oral. Surgem como guardiãs dos locais de passagem para o interior da terra, os locais "limite", onde se acreditava que o sobrenatural podia manifestar-se. Aparecem junto de nascentes, fontes, pontes, rios, poços, cavernas, antigas construções, velhos castelos ou tesouros escondidos.

Julga-se que a lenda das mouras terá a sua origem em tempos pré-romanos. As mouras encantadas apresentam várias características presentes na Banshee das lendas irlandesas. Também na mitologia basca, os Mairu (mouros) são os gigantes que construíram dólmens e os cromeleques e na Sardenha podemos encontrar os domus das Janas (casas das fadas). Na Península Ibérica, as lendas de mouras encantadas encontram-se também na mitologia galega e asturiana. Na tradição oral portuguesa, as Janas são uma outra variante de donzelas encantadas.


Especula-se que o termo moura (moira) possa derivar da palavra grega "moira" (μοίρα), que literalmente significa "destino", e das Moiras, divindades originárias da mitologia grega. Outra corrente indica que a origem poderá vir das palavras celtas "mori", que significa mar, ou "mori-morwen", que designa sereia, provavelmente relacionando as mouras com as ondinas ou as ninfas, os espíritos sub-humanos que habitavam nos rios e nos cursos de água.

As variantes da lenda

A Princesa Moura é uma muçulmana encantada que habita um castelo e se apaixona por um cavaleiro cristão do tempo da Reconquista. A Lenda da Moura Salúquia é uma outra variante: em vez de um cristão, o amor da Princesa Moura é um mouro. Muitas destas lendas tentam explicar a origem de uma cidade e evocam personagens históricas, outras lendas apresentam um carácter religioso como acontece na lenda de Oureana.


No contexto histórico, os lugares, as pessoas e acontecimentos situam-se num mundo real, e existe uma localização temporal bem definida. No entanto, é possível que factos reais se tenham simplesmente fundido com antigas narrativas lendárias.

A Moura-fiandeira transporta pedras sobre a cabeça e fia com uma roca à cintura. A tradição popular atribui a estas mouras a construção de castros, citânias, e outros monumentos megalíticos. As moedas antigas encontradas nas citânias e castros eram chamadas de "medalha das mouras". A Pedra Formosa encontrada na Citânia de Briteiros terá sido, segundo narrativas populares, levada à cabeça para este local por uma moura que fiava uma roca.


Quem se sentasse numa Pedra-Moura ficaria encantado, ou se alguma pedra encantada fosse levada para casa, os animais poderiam morrer. As "Pedras-moura" guardavam riquezas encantadas. Existem várias lendas em que a moura, em vez de ser uma pedra, vive dentro de uma pedra. Na tradição popular diz-se que no penedo «entra-se para dentro» e «sai-se de dentro», dizer possivelmente relacionado com as lendas das mouras. A moura é também descrita a viajar para a mourama, sentada numa pedra que pode flutuar no ar ou na água. Dentro de grutas e debaixo das pedras, muitas lendas falam que existem palácios com tesouros.

A Moura-serpente é uma moura encantada que pode tomar a forma de uma serpente. Algumas destas mouras serpentes, ou mouras-cobra, podem ter asas e podem aparecer como meio mulher meio animal, como na lenda da serpente de Noudar ou do Monte d'Assaia. A Moura-Mãe toma a forma de uma jovem encantada que está grávida, e a narrativa centra-se na busca de uma parteira que ajude no nascimento e na recompensa que lhe é dada. A Moura-Velha é uma mulher idosa; as lendas em que aparecem mouras com figura de velha não são frequentes no nosso país.

Elementos habituais da lenda

O ouro das Mouras pode aparecer em variadas formas: figos, pedras, carvões, saias, meadas, animais e instrumentos de trabalho. Existem diferentes meios de se obter o ouro: pode ser oferecido pela moura como recompensa, roubado, ou achado. Frequentemente está dentro de um vaso, escondido dentro de panelas enterradas ou outros recipientes. Habitualmente, é no dia de São João que se acredita que as mouras aparecem com os seus tesouros, quando se pode quebrar o seu encantamento.


Algumas lendas têm este dia em que a moura encantada espalha os figos num penedo, ao luar. Noutras variantes, a moura espalha os figos ou a meada de ouro ao sol em cima do penedo. Estas lendas estão possivelmente relacionadas com a tradição popular de, nalgumas regiões, apanhar-se o figo lampo no dia de São João, um figo branco que se levava de presente. Este dia marca a data do solstício de Verão, sendo a sua referência talvez a reminiscência de algum culto solar pagão.

Uma fonte é um dos locais que as mouras aparecem frequentemente, muitas vezes como serpentes. Muitas vezes eram atribuídas virtudes mágicas às suas águas, como na Fonte da Moura Encantada. Também é do costume popular dizer de quem casou em terra alheia, "bebeu da fonte" e ficou enamorado, numa alusão às lendas em que os jovens se apaixonam e ficam encantados pelas mouras.


O encantamento da moura pode ser causado pelo pai ou algum outro mouro (ou génio) que a deixou a guardar os tesouros, geralmente uma figura masculina. São geralmente os mouros que têm o poder de encantar as mouras. Nas lendas, a moura pode aparecer sozinha, acompanhada de outras mouras encantadas, ou de um mouro, podendo este ser um pai, a pessoa amada, ou um irmão.

Para se realizar o desencantamento da moura, pode ser solicitado segredo, um beijo, um bolo ou pão sem sal, leite, o pronunciamento de algumas palavras, ou a realização de alguma tarefa, como não olhar para algo velado e aguentar a curiosidade. Falhar é não desencantar a Moura e "dobrar o encanto", não obter o tesouro desejado ou perder a moura amada.


Nas lendas em que é solicitado o pão, levanta-se a hipótese de estarem relacionadas com a antiga tradição de se oferecer alimento aos defuntos. Do mesmo modo, o leite pode estar relacionado com as oferendas que se faziam às águas das fontes e às cobras. A população mais antiga contava também que as cobras gostavam muito de leite. Uma das lendas das mouras de Formigais faz referencia à preferência das mouras por leite. Quando desencantada, a moura pode tornar-se humana e casar com o seu salvador ou desaparecer.

A mourama é um local mágico onde moram os mouros encantados. Nas lendas com um contexto histórico, é o local onde os mouros muçulmanos vivem. O tempo da mouraria representa um tempo incerto no passado, a mesma referencia intemporal do "Era uma vez" ou o "Há muito muito tempo", com que começam os contos de fadas. As mouras eram associadas a vários fenómenos naturais ou elementos da natureza. Acreditava-se que o eco era a voz das mouras. Algumas lendas contam que há locais onde ainda é possível ouvir uma moura a chorar.


Os monumentos funerários são frequentemente associados às mouras. Em algumas regiões, as antas são chamadas popularmente de mouras ou Casa da Moura, e antigamente acreditava-se que as mouras viviam nestas construções. A Pedra da Moura, a Antas de Pala da Moura, e a Anta da Arquinha da Moura são exemplo dos monumentos associados às lendas. 

Outro tipo de sepultura associada às mouras são as sepulturas cavadas na rocha, como é o caso de Cama da Moura, Cova da Moura e Masseira. Segundo a narrativa popular, a sepultura chamada Masseira era o lugar onde a "moura amassava o pão".

Fonte: Portugal Místico
Ilustrações retiradas de Lendas de Portugal, de Fernanda Frazão

(dedico este post à minha amiga arKana, que partilha comigo o fascínio pelas lendas das moiras encantadas!)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Uma lenda para a noite de S.João: A moura de Algoso


Algoso é uma pequena aldeia perdida nas serranias transmontanas. Diz uma lenda que ainda hoje por lá corre que, no tempo dos Mouros, existia nos arredores um bruxo famoso, conhecedor de mezinhas milagrosas e sabedor do passado e do futuro. Vivia num casebre um pouco afastado da povoação, mas nem a pobreza da sua casa, nem o afastamento da mesmo obstavam a que ali acorressem quantos acreditavam nas suas capacidades mágicas ou videntes.

Na verdade, ricos e pobres, de longe ou de perto, todos ali acudiam em busca de cura para os seus males, pedindo filtros de amor ou indagando sobre o que lhes reservaria o futuro. Em certos dias era uma autêntica romaria. E com tudo isto o bruxo criou fama e proveito de homem rico, apesar de continuar a viver no pobre casebre tentando fazer-se passar por miserável. 

Entretanto, os cristãos iam avançando na reconquista do território ainda sobre a dependência dos Mouros e estavam a aproximar-se rapidamente de Algoso. Sabendo disto o bruxo, que não podia prever o seu próprio futuro, calculou que a ocupação cristã não viesse a ser muito demorada e decidiu esconder os seus tesouros, disposto a recuperá-los mais tarde, quando pudesse recuperar o seu oficio.


Assim pensando, escolheu o que poderia carregar consigo, e o restante, as jóias e o ouro, meteu-o num cofre de marfim chapeado a cobre. Feito isto, e como precisava de encontrar um bom esconderijo para a sua fortuna, partiu com o cofre debaixo do braço em demanda do melhor local.

Depois de muito procurar, achou que o melhor sitio era debaixo da fonte de S. João, debaixo das raízes de um enorme e belo chorão que derramava a sua sombra as águas. Pegou numa enxadinha e cavou um buraco apropriado ao tamanho do cofre. Meteu-o lá dentro, tapou-o com terra e disfarçou a obra com folhagem e gravetos.

Terminado o trabalho, levantou-se e olhou em volta. Espantado, viu uma mourinha que, descuidada, descia uma vereda da serra cantando uma velha canção. Convencido que a moura o vira esconder o cofre e estava agora  disfarçando o caso, o bruxo encaminhou-se para ela, olhou-a com uma estranha fixidez, fez uns sinais misteriosos e, recitando certa oração antiga, lançou sobre a menina um encantamento, de tal modo que ela desapareceu no mesmo instante. 

Casquinhando, esfregou as mãos, pegou nos seus haveres e desandou rapidamente para a floresta, donde nunca mais voltou. A lenda da moura de Algoso foi passando de boca em ouvido, de geração em geração.
A fonte de S. João de resto, continuava ali, lembrando a todos a desdita da mourinha encantada pelo bruxo e desafiando a coragem de quem sonhasse desencantá-la. 

Uma noite, muito próxima da de S. João, uma rapaz de Algoso que se apaixonara pela história sonhou que via a moura na fonte. Mal acordou, decidiu que, desse lá por onde desse, havia de tentar ver na madrugada de S. João se a lenda era verdadeira. Além disso, como corria se alguém visse a moura nas suas horas felizes lhe podia fazer três pedidos, os quais seriam atendidos, o rapaz achou que, apesar do medo, era talvez vantajoso fazer aquela tentativa. 

Na véspera de S. João, encaminhou-se para a fonte ainda antes de anoitecer por completo. Procurou um local para se esconder, um local de onde visse sem ser visto, e preparou-se para esperar pela meia noite sem fazer ruído algum. O velho chorão da fonte, já centenário, continuava lançando sobre a água os seus ramos lacrimejantes. Do outro lado, havia agora um belíssimo roseiral, donde provinha um perfume intenso quando todas as rosas abriam. 

Chegou a meia noite. De repente o rapaz ouviu uma restolhada vinda das bandas do roseiral. Era uma enorme serpente que, rastejando, se dirigia para a fonte. Aí chegada, mergulhou três vezes. Qual não foi o espanto do moço quando viu aparecer sobre as águas uma menina: a moura da fonte e... mais bela do que tradição contava! 


A moura saltou com leveza da rocha para o solo e, sentando-se na borda da fonte, começou a cantar uma suave canção que o marulhar da água acompanhava, enquanto ela ia passando um pente pelos seus cabelos loiros. Subitamente, uma corça apareceu vinda da floresta e, sem mostrar qualquer receio, aproximou-se da moura, que a afagou com ternura. A corça, num gesto de agradecimento, lambeu-lhe as babuchas de damasco azul.

Era realmente um espectáculo de beleza que o rapaz jamais esperava encontrar, E, acocorado no seu canto, esqueceu os três pedidos que queria fazer, esqueceu tudo, esqueceu-se até de si mesmo, até que, bruscamente, a moura parou de se pentear, debruçou-se no tanque e desatou num pranto irreprimível. Chorava, talvez, a dor da sua solidão sem fim. 

Condoído, o rapaz fez um movimento para a consolar, esquecido do que não fosse aquela ânsia de ternura que dele se apoderara. Ao erguer-se, porém, fez estalar sob o corpo os ramos da sebe em que se escondera. A corça embrenhou-se rapidamente no mato e a moura desapareceu subitamente, evolando-se numa névoa sobre a águas da fonte de S. João de Algoso.


in Lendas Portuguesas de Fernanda Frazão

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A moira encantada

John William Waterhouse

Por manhã de San’João,
Que inda a aurora mal raiava,
E as ervas e as flores
Fino orvalho rociava,
Levantou-se o irmão mais velho
Do leito aonde velava:
Eram três todos pastores,
Cada um seu gado guardava.
Levantou-se o irmão mais velho,
Dos outros se recatava;
Foi direito à Fonte Santa,
Por ver que sorte deitava
Na manhã de San’João
Manhã de benta alvorada.

Banhando na fonte pura
Uma donzela se estava,
Seus cabelos de oiro fino
Com seu pente penteava.
Cada vez que corre o pente
Aljôfares desatava;
O seio tem descoberto,
Seio que de alvo cegava;
Cobre-lhe água o mais de corpo,
O mais que se imaginava.
Tem uma chave na mão,
Chave de oiro que brilhava.

- «Que buscais, pastor,
Que buscais nesta alvorada?»
- «Eu me vim à Fonte Santa
A ver que sorte deitava
Que a pobre vida que levo
A tenho amaldiçoada».

- «És diligente pastor,
E bom fado te fadava,
Que chegaste à Fonte Santa
Quando eu nela me banhava».
Passam dias, passam meses,
Um ano inteiro passava,
E ninguém na Fonte Santa
Não vê a Moira encantada,
Senão só nesta manhã,
Manhã de benta alvorada.

- «Sejas tu moira ou crosta,
Ou sejas demónio ou fada:
Tira-me da pobre vida
Que trago almadiçoada.»

- «Escolhe por tuas mãos
Escolhe o que mais te agrada,
Ou ser rico – ou se feliz,
Ter poder e nomeada».
- «A riqueza dá ventura,
Dá poder e nomeada:
Quero ser rico, donzela,
Que o mais depois o comprava».

Com sua chave de oiro fino
Na viva rocha tocava,
Abrira-se uma caverna,
O pastor por ela entrava.
‘Té às entradas da terra
A sua vista penetrava;
Quanta riqueza há no mundo,
Toda a riqueza ali estava.
De fina prata os rochedos,
A areia de oiro brilhava,
Os seixos puros diamantes
Que os olhos lhe cegava.
Tomou quanto pôde e quis,
Milhões e milhões tomava.
Nem mais não viu a donzela
Que na fonte se banhava,
Nem mais viu nada no mundo
Do que o oiro que levava.
Não tornou mais à cabana.
Dos irmãos não se lembrava,
Foi-se direito à cidade,
Terra e haveres comprava.

Já o sol vem arraiando
Um silvo a donzela dava,
Nas pedras da Fonte Santa
Uma cobra se enroscava.

John Strudwick

Ali dizem estar a moira,
Aquela moira encantada
Que só na manhã bendita
Se mostra pela alvorada:
Vê-la, foi vista por muitos,
Por ninguém desencantada.

Já o sol dá na choupana,
E os dois irmãos acordava,
Saíram com seus rebanhos
Que cada um deles guardava.
Passam horas, passam dias,
Viram que o outro irmão não tornava.
Dizia o irmão segundo
Ao mais novo, que chorava:
- «Fortuna achou nosso irmão
Que à choupana não voltava!».
Ele triste respondia:
- «Pobre de quem não voltava».

Passam meses, passa um ano,
Outra vez que alvorejava
A manhã de San’João
Que ervas e flores regava.
Levantou-se o irmão segundo
Apenas a alva alvejava.
Finge o mais novo que dorme
Mas não dormia, velava:
Contenta da sua sorte,
Mais sorte não cobiçava;
Por manhã de San’João.
Sua sorte não deitava.

Foi-se o outro à Fonte Santa,
A mesma donzela aí estava
Que o seu corpo delicado
Nas puras águas banhava
Mas os seus cabelos de oiro
Agora negros mostrava.
Uma coroa real
Sua cabeça coroava;
Ceptro que tinha na mão
De majestade cegava.
- «Bem-vindo sejas, pastor,
Bem-vindo nesta alvorada,
Que vieste à Fonte Santa
A ver a moira encantada:
A sorte de teu irmão
Em ti será melhorada:
Como ele podes ser rico,
Ou ter mando e nomeada,
Ou podes ser venturoso
Se a ventura mais te agrada».
- «Só uma sorte no mundo,
Uma sorte eu invejava,
Que é senhor e ter mando,
Tudo o mais por isso eu dava».

Sorriu de um triste sorriso
A donzela que o escutava:
Com o seu ceptro de oiro fino
Na viva rocha tocava,
Logo um soberbo castelo
Da rocha se alevantava
E um pendão de nobres armas
Nas ameias tremulava:
De escudeiros e vassalos
A torre se povoava,
Grande pompa de cortejo
À porta da torre estava.
- «Aí tens grandeza e mando,
Tudo o que mais cobiçava
O teu coração, pastor,
Que mais nada desejava».

Entrou na torre o pastor,
Entrou na torre fadada,
Não disse adeus à donzela,
Não se lembrou de mais nada.
Era grande, era senhor,
Aos seus vassalos mandava.
Nem voltou mais à choupana
Nem dos irmãos se lembrava.

Lá vinha o sol arraiando,
Um silvo a donzela dava,
Nas pedras da Fonte Santa
Uma cobra se enroscava:
Era a moira – a pobre moira
Cada vez mais encantada.

Já o sol dá na choupana,
O irmão móis moço espertava,
Leva o seu rebanho ao pasto
Que agora ele só guardava.
Passam dias, passam meses,
Viu que o irmão não voltava;
Triste, dizia consigo
- «Pobre do que não tornava!».

Passam meses, passa um ano,
Outra vez que alvorejava
A manhã de San’João
Que ervas e flores rociava.
Com saudades dos irmãos
O mais moço despertava:
- «Foi por tal manhã como esta
Que um e outro se ausentava.
Esta querida choupana
Que nosso pai fabricava,
Onde ao leite de seu peito
A nossa mãe (§) nos criava,
Nenhum mais cá tornava
Ambos seu fado os levava!
Que sorte seria aquela
Que o coração lhes mudava?
Vou-me eu à Fonte Santa
Vou também nesta alvorada».

John Strudwick

À fonte se foi direito
Inda a alva não alvejava,
Deu co’a formosa donzela
Que na fonte se banhava.
Tão bela como os mais anos
E ainda mais bela estava.
Nem de pedras preciosas,
Nem de pérolas se toucava,
Nem ceptro, nem chave de oiro
Na sua mão não brilhava;
Tinha uma c’roa de rosas
Alva, que de alva cegava;
As suas claras madeixas
Pelos ombros debruçava;
Com um sorriso de amor
Os alvos dentes mostrava;
No puro azul de seus olhos
Um céu aberto mostrava.

- «A que vens aqui, pastor,
A que vens nesta alvorada?
Que queres da Fonte Santa
Da sua moira encantada?».

- «Novas quero, buscar novas
De dois irmãos que eu amava,
Que há um ano e dois que se foram,
Que deles não sei mais nada.»

- «Um é rico, à sua porta
Se mede o oiro à rasada;
O outro tem poder e mando,
É senhor de capa e espada».

- «Dize-me tu, ó donzela,
Por esta benta alvorada,
E San’João te dê ventura,
Que sejas desencantada,
Dize-me se são felizes
Co’a sorte que lhes foi dada».

- «A sua sorte neste mundo
A ninguém não é deitada,
De escolher cada um por si
A liberdade lhe é dada:
Feliz o que bem escolhe,
Infeliz quem mal se fada!
Pastor, tu que és tão discreto,
A ti que sorte te agrada,
Ser rico, ou ser venturoso,
Ter poder e nomeada?».

- «Felizes são meus irmãos
Com a sorte que lhes foi dada?».
- «Um é rico, à sua porta
Se mede o oiro à rasada;
O outro tem poder e mando
É senhor de capa e espada».
- «Quer-lhe alguém bem neste mundo?».
- «Seu poder, sua riqueza
De todos é invejada».
- «Adeus formosa donzela,
Adeus moirinha encantada!
Que eu me vou ao meu rebanho,
Que já a manhã é nada».

- Pastor, toma esta capela
Que por ti foi bem ganha.
Do puro orvalho do céu
Nesta manhã foi banhada,
De frescas rosas tecida,
Por San’João abençoada.
Terás por ela a ventura,
A ventura bem fadada,
Que a moira da Fonte Santa
Há mil anos encantada
Tua será de alma e corpo,
Por ti foi desencantada».

Ventura todos a querem
Por todos é desejada:
Não a tem quem a procura,
A quem não a busca é dada.


Almeida Garrett

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Sete Ais



Conta a lenda que quando Sintra ainda pertencia aos mouros, um dos primeiros cavaleiros cristãos a subir a serra de Xentra (como os mouros chamavam a Sintra) foi D. Mendo de Paiva. No meio da confusão da debandada de uns e chegada de outros, encontrou-se junto a uma pequena porta secreta por onde fugiram vários mouros da fortaleza. Entre eles viu uma moura muito bonita, acompanhada pela velha aia.

Ao dar com os olhos no cristão, a moura suspirou por se sentir descoberta, e a velha, que ainda não reparara no cavaleiro, apressou-se a pedir-lhe que não suspirasse. Porém, reparando no olhar da ama, fixo num ponto determinado, seguiu-o e viu finalmente o inimigo, que sorridente lhe disse:

- Acaba o que ias dizendo!

Mas a velha, de sobrolho carregado, respondeu-lhe:

- O que tenho para dizer não serve para ouvires, cáfir! Os cristãos já têm tudo quanto queriam: os nossos bens, as nossas terras, o castelo. Vai-te! Vai-te e deixa-nos em paz, conforme o combinado.

- Vai-te tu, velha! A rapariga é minha prisioneira!

A moura, ao ouvir tal coisa, suspirou novamente, de medo e comoção. A velha, ao ouvir aquele novo ai, achou que era melhor confessar o seu segredo ao cristão:

- Não digas mais nada, cristão! Não digas mais nada, que a minha ama carrega desde o berço uma terrível maldição!...

- Como assim velha?!- perguntou o cavaleiro, ao mesmo tempo que a moura dava o terceiro suspiro.

- Ah, cavaleiro! À nascença a minha ama foi amaldiçoada por uma feiticeira que odiava a sua mãe por lhe ter roubado o homem que amava. Fadou-a a morrer no dia em que desse sete ais... e como vês, já deu três!

D. Mendo deu uma alegre gargalhada, e a jovem outro ai.

- Não acredito nessas coisas, velha! Olha, a partir de agora ambas ficarão à minha guarda. Eu quero para mim a tua bela ama!

A moura suspirou de novo e a velha, numa aflição sem limites, gritou:

- Ouviste, cavaleiro, ouviste?! É o quinto ai! Que Alá lhe possa valer!

- Não tenhas medo! Espera aqui um pouco... Voltarei para vos levar a um sítio sossegado!

O cristão afastou-se rapidamente e, assim que desapareceu dentro das muralhas, um grupo de mouros que ouvira a conversa surgiu subitamente para roubar as duas mulheres. Com um golpe de adaga cortaram a cabeça à velha, que nem teve tempo de dar um ai. A jovem é que, ao ver a sua velha aia morrer daquele modo inesperado e cruel, soltou um novo e dolorido ai. Era o sexto, e o sétimo foi a última coisa que disse, no momento em que viu a adaga voltear para lhe cair sobre o pescoço.

Quando pouco depois D. Mendo voltou com uma escolta, ficou tristemente espantado: afinal cumprira-se a maldição!

D. Mendo jurou vingança e a partir desse dia tornou-se o cristão mais desapiedado que os mouros jamais encontraram no seu caminho.

E, em memória da moura que desejara e uma maldição matara, chamou àquele recanto de Sintra Seteais.

Ainda hoje, nos belos jardins de Seteais há um sítio onde se alguém disser um "ai" ouvirá um eco que o repetirá seis vezes, ouvindo-se assim sete ais em honra da moura que um dia lá morreu.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A Moura Cassima



Esta lenda passa-se na véspera da reconquista de Loulé aos Mouros pelo Mestre D. Paio Peres Correia. Loulé estava sob domínio dos mouros e seu governador tinha três belas filhas que muito amava e que se prezava de educar dentro das mais rigorosas tradições da sua terra: Zara, Lídia e Cassima, que era a mais nova. Este governador era um conhecedor dos segredos da magia.

Quando D. Peres se encontrava no exterior da muralhas da cidade pronto para conquistar a cidade, o governador levou as suas filhas até uma fonte onde as encantou, com o objectivo de as preservar de um possível cativeiro. Os mouros, nessa noite, fugiram para Tânger mas na esperança de voltarem em breve para retomar a cidade.

Mas o velho governador não conseguia viver feliz ao pensar na pouca sorte das suas pobres filhas. Até que num certo dia apareceu em Tânger um "carregamento" de escravos vindos de Portugal onde se encontrava um homem de Loulé, um carpinteiro, que o governador não hesitou em comprar.


Já no palacete, o mouro perguntou ao carpinteiro se ele não gostaria de voltar para perto da sua família. Este, sem perder um segundo, disse que sim. Logo o mouro pegou num alguidar cheio de água dizendo ao louletano para ele se colocar de costas para o alguidar e saltar para o outro lado, prevenindo-o que se caísse dentro da água iria afogar-se no oceano. Deu-lhe três pães e explicou-lhe que em cada um deles estava escrito o nome de cada uma das suas filhas. Na véspera de São João, à meia-noite, iria até à fonte onde elas estavam encantadas e atirá-los-ia lá para dentro, um a um, dizendo alto o nome de cada uma delas: Zara, Lídia e Cassima. Depois voltaria para casa e esqueceria o assunto.

 O carpinteiro saltou e como num passe de mágica chegou a sua casa abraçando a sua mulher. Logo de seguida, foi até um canto da casa e escondeu os três pães dentro de um baú. Passaram-se muitas semanas, pois que o tempo de S. João ainda estava longe. Um dia, a mulher do carpinteiro descobriu os pães e ficou desconfiada por eles estarem escondidos, então pegou numa faca a fim de ver se havia alguma coisa lá dentro. Ao espetar a faca, de imediato, ouviu um grito e as suas mãos encheram-se de sangue vindo do interior do pão. Cheia de medo, escondeu o pão entre os outros, fechou a arca e saiu dali à pressa.


Na véspera de S. João, o carpinteiro estava indiferente à animação pois só pensava em cumprir a promessa por ele feita ao ex-governador e, logo que pôde, pegou nos pães e foi até à fonte. Chegando a altura certa,  atirou o primeiro pão para a fonte e gritou por Zara, a mais velha das irmãs. Uma figura feminina subiu no espaço e desapareceu diante dos seus olhos. Logo de seguida atirou o segundo e gritou por Lídia. Voltou a aparecer-lhe outra bela rapariga que desapareceu no ar diante dele. Por fim atirou o terceiro e gritou pela filha mais nova do ex-governador mas nada aconteceu. Voltou a gritar por Cassima e uma jovem moura apareceu-lhe agarrada à borda da fonte dizendo-lhe, entre gemidos,  que não podia sair dali  por causa da curiosidade da sua esposa.

O carpinteiro implorou perdão em nome da sua pobre mulher e Cassima, dizendo  que a perdoava ofereceu-lhe um belo cinto feito de ouro e pedras preciosas instruindo-o para cingir a mulher com ele quando desse à luz o seu filho. Depois, entre gemidos, deixou-se escorregar até ao fundo da fonte...


No caminho, o carpinteiro, para ver melhor a beleza do cinto, colocou-o em redor de um tronco de um grande carvalho, mas de imediato a arvore cai upor terra, cortada cerce pelo cinto fantástico. Benzendo-se e rezando, o carpinteiro compreendeu tudo: Cassima dera-lhe o cinto apenas para se vingar! Sua mulher ficaria cortada ao meio, como o carvalho gigantesco!...

Correu para casa, abraçou a mulher e nessa noite não conseguiu pregar olho com medo que a moura ali aparecesse, mas isso nunca aconteceu. Tal como a moura Cassima lhe dissera, não mais poderia sair da fonte. Apenas por vezes, segundo se diz - principalmente nas vésperas de S. João - ela consegue agarrar-se à beira da fonte e chorar tristemente o seu encantamento aos que se aventuram por até lá....

domingo, 29 de agosto de 2010

A Moura do Arco do Repouso



O castelo de Faro foi conquistado na ofensiva cristã de Afonso III e de Paio Peres Correia, em 23 de Fevereiro de 1249. O exército real e os homens da Ordem de Santiago tinham cercado as muralhas e os navios do rei tinham cortado, no mar, todas as possibilidades de socorro. Assim, ao fim de algum tempo, os mouros renderam-se.

Diz a lenda que parte das forças que atacaram o Castelo de Faro fora colocada no largo actualmente chamado de São Francisco, e estas forças eram comandadas por um brioso cavaleiro, robusto e formoso rapaz. Este oficial pôde ver, em certa ocasião, a formosa e gentil filha do governador mouro e dela ficou enamorado. Por algum tempo namoraram por intermédio de um escravo da moura que ia e vinha com recados.

Certo dia o guerreiro conseguiu convencer a bela moura a encontrarem-se pela noite, na porta do nascente, hoje conhecida por da Senhora do Repouso. O costumeiro intermediário abriria a dita porta, à hora combinada, esgueirando-se o cavaleiro para dentro, para o seu encontro amoroso.

Antes de a noite cair, porém o cavaleiro dirigiu-se a alguns amigos e disse-lhes do encontro com a sua amada pedindo-lhes que se não voltasse depois de algum tempo, quando tomassem o castelo, que poupassem a filha do governador. Trataram os amigos de o demover daquela empresa, mas, ante a firmeza da sua decisão, prometeram cumprir as suas ordens.

À hora marcada, entrou o oficial no castelo e aí em doce colóquio se entreteve com a dama dos seus encantos. À hora de sair, encaminharam-se ambos até à porta do castelo, levando consigo um irmão da rapariga, criança de oito anos.

Quando se aproximaram da porta, disse-lhes o escravo que aí ficara de guarda que do lado de fora estava muita gente, pois que mais de uma vez lhe chegava aos ouvidos vozes abafadas e um ou outro tinir de espadas. A moura estremeceu.

- Nada temas, que respondo pelos que estão de fora - disse o cristão, enquanto lhe dava um beijo de despedida. O escravo destrancou a porta e, no momento em que a entreabria para que o cavaleiro saísse, os batentes foram impelidos de fora com fúria. Apareceu, então, um grupo de cristãos, que numa gritaria de estontear, clamavam pelo guerreiro que já não esperavam voltar a ver. Este recuou uns passos e tomou nos braços a sua amada, intentando protegê-la, enquanto clamava: - Para trás, para trás! Estou aqui!



No castelo soara já o alarme e de todos os lados surgiam defensores armados até aos dentes. Vendo-se em perigo iminente, o cavaleiro enamorado avançou para fora com a moura ao colo e o irmãozinho ao lado. Porém, ao transpor a porta, notou que tinha nos braços não uma formosa jovem, mas apenas uns farrapos, que se desfaziam à mais pequena e leve aragem. Olhou para o lado e não viu a criança. Então teve a sensação estranha de lhe ter acontecido qualquer coisa de profundo e incompreensível e desmaiou desamparado.

Acordou horas depois, já na sua tenda do arraial, tendo ao lado um amigo e companheiro de armas. O amigo explicou-lhe que o tinham encontrado caído à porta do castelo quando tentaram entrar por o julgarem morto numa cilada. O governador, porém, acudira bem armado e rechaçara o pequeno grupo cristão. Nesse momento, D. Paio Peres e D. João Aboim acudiram com os seus exércitos e forçaram os mouros a entrar no castelo.

Depois de ouvir tudo isto, o cavaleiro dirigiu-se à porta do castelo. Ao entrar pelo Arco da Senhora do Repouso viu ao lado esquerdo a cabeça de uma criança que assomava por um buraco. Reconhecendo nela o mourinho da sua amada, perguntou: -O que fazes aí, menino?

- Estamos aqui encantados: eu e a minha irmã.
- Porquê? Quem vos encantou?
- O nosso pai. Soube por uma espia que levavas nos braços a minha irmã acompanhada por mim e, invocando Allah, encantou-nos aqui no momento em que transpunhas a porta. Por atraiçoarmos a santa causa do nosso Allah aqui ficaremos encantados.
- Por muito tempo?
- Enquanto o mundo for mundo - respondeu a criança com um ar misterioso, enquanto se ia diluindo nos ares.

O guerreiro chorou. Ainda quis perguntar pela moça, mas o mourinho tinha desaparecido sem deixar rasto. Diz-se que nunca mais riu. Terminado o cerco, pediu ao rei dispensa do exército e recolheu-se a um convento, onde professou.


in Lendas Portuguesas, de Fernanda Frazão, Amigos do Livro Editores

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Lenda da Cova Encantada

foto retirada daqui

Na serra de Sintra existe uma rocha com um corte, perto do Castelo dos Mouros. Diz a tradição que o corte marca a entrada para uma cova que tem comunicação com o castelo. É conhecida por Cova da Moura ou Cova Encantada.

No tempo em que os Mouros dominavam Sintra, um cavaleiro nobre cristão foi feito prisioneiro. Zaida, a filha do alcaide, apaixonou-se por ele. Um dia, o resgate foi pago e o cavaleiro libertado. Apaixonado também por Zaida, o cavaleiro pediu-lhe para fugirem. Zaida recusou, mas pediu-lhe para nunca mais a esquecer. O nobre cavaleiro voltou para a sua família. Tentou esquecer Zaida nos campos de batalha mas não conseguiu. Decidiu atacar de novo o castelo de Sintra. Durante esse combate, o nobre cavaleiro tombou ferido. Zaida arrastou-o através de uma passagem secreta até uma sala escondida numas grutas. Enquanto enchia uma bilha de água para levar ao seu amado, foi atingida por uma seta e caiu ferida. O cavaleiro cristão juntou-se ao corpo da sua amada. Mais tarde, os dois foram encontrados já sem vida.

Diz a lenda que, em certas noites de luar, aparece junto à cova uma formosa donzela vestida de branco a encher uma bilha de água, desaparecendo de seguida após um doloroso gemido.