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quinta-feira, 2 de junho de 2011

O pássaro azul e a imperatriz da China

Um agradecimento muito especial à minha amiga Falcão de Jade por me ter despertado o interesse pelo Pássaro Azul!

Frank Cadogan Cowper, O Pássaro Azul

A imperatriz da China tinha tudo o que se pode imaginar: palácios de mármore e cobalto, com lagos de porcelana colorida, no meio de parques e jardins cheios de flores esquisitas e animais raros; tinha cofres a abarrotar de jóias de alto preço, e vestidos luxuosos e com a cauda tão comprida que a imperatriz já estava a sentar-se no trono da sala nobre do palácio onde vivia e ainda a cauda do vestido vinha à porta da rua, segura pelas mãos de muitos escravos, criados e aias, que eram às centenas para servir a imperatriz da China.

A imperatriz da China tinha móveis e espelhos, cavalos e carruagens, barcos de passeio e leques de plumas tão grandes, que uma vez abertos a tapavam toda; tinha relógios de complicados mecanismos, que tocavam as horas por música, e caixas de música com mecanismos mais complicados do que relógios.

Mas de tudo quanto possuía, o que a imperatriz da China mais adorava era um pássaro azul, cor do céu, com as asas esguias, do feitio de lanças, as penas da cauda recortadas e curvas, e o bico adunco, em forma de garra, e que tinha a particularidade de falar, o que não deve ser difícil na China, onde a conversa das pessoas é quase como o piar dos pássaros.

O pássaro azul da imperatriz da China vivia numa gaiola dourada, no meio da sala principal do palácio, e havia uma dúzia de criados para tratar dele. E a imperatriz passava a vida a con­versar com o pássaro azul.

— Trli-piu? — perguntava-lhe a imperatriz, o que em chinês quer dizer: "És feliz?"

E o pássaro azul respondia-lhe:

— Pió-pió-pió-piu! — que significa em chinês: "Estou triste, triste, triste!..."

E a imperatriz pensou que o pássaro azul talvez se sentisse apertado dentro da gaiola dourada, ele, que tinha nascido numa das grandes florestas dos confins da China, que também pertenciam à imperatriz. Então, ordenou que viessem à sua presença engenheiros e arquitectos, carpinteiros e vidraceiros, jardineiros e canalizadores, e mandou construir imediatamente uma gaiola tão grande que parecia uma estufa, com lagos artificiais, fontes e relvas, e sobretudo muitos troncos de árvore, para o pássaro azul poder voar à vontade de uns para os outros, como se estivesse num pequeno bosque.

Quando tudo estava pronto, mandou transportar o pássaro azul da gaiola dourada para aquela espécie de estufa, e entrou ela própria lá dentro para perguntar ao pássaro:

— Trli-piu?

Mas o pássaro azul pousou num ramo, deixou-se ficar uns momentos calado, e por fim respondeu:

— Pió-pió-pió-piu!...

E o último piu foi tão prolongado e triste que a imperatriz sentiu um peso no coração e uma grande vontade de chorar. Imediatamente, ordenou que viessem de novo à sua presença todos os engenheiros e arquitectos, carpinteiros e vidraceiros, jardineiros e canalizadores, e mandou construir uma enorme cúpula de vidro, armada sobre fortes varões de ferro, sobre o parque mais bonito que havia em redor do palácio, para soltar aí o pássaro azul.

Quando tudo estava pronto, a própria imperatriz da China pegou no pássaro azul com todas as cautelas, e soltou-o no parque envidraçado. Viu-o voar, voar, voar, cada vez mais alto, até à cúpula de vidro, por onde entrava o sol a jorros, e depois descer quase a pino e desaparecer entre a folhagem. Meteu-se pelas alamedas, arrastando a cauda, e chamou pelo pássaro azul com palavras meigas, que em chinês são ainda mais meigas, mas o pássaro azul não lhe respondeu. Até que o encontrou metido no buraco do tronco de uma árvore, e nem foi preciso perguntar-lhe nada, porque o passarinho repetia, num trinado que nunca mais acabava:

— Pió-pió-pió-piu! Pió-pió-pió, piiiu!...

Parecia que chorava. A imperatriz da China teve uma fúria e perguntou ao pássaro:

— Que queres afinal?

E o pássaro azul saiu do buraco do tronco da árvore, deu uma volta no ar, abriu as asas do feitio de lanças, sacudiu as penas da cauda recortadas e curvas, estendeu a cabeça para o alto, abrindo o bico em forma de garra, e trinou:

— Chrriu-chilriu-chilriu! — o que em chinês significa: "Quero a liberdade!"

A imperatriz da China ficou muito triste, mas depois de pensar um bocado mandou novamente chamar todos os seus engenheiros e arquitectos, carpinteiros e vidraceiros, jardineiros e canalizadores, e deu-lhes ordem para desfazerem o mais depressa possível a enorme cúpula de vidro, que cobria o parque.

E quando tudo estava acabado, a imperatriz da China voltou devagarinho para o palácio, e subiu até à janela mais alta da torre mais alta. Olhou para as copas das árvores do parque e viu o pássaro azul, de asas bem abertas, brilhando à luz do Sol como esmalte, as penas da cauda pendidas, o bico aberto apontando para o céu, voar, voar, voar sem descanso, cada vez mais alto, na direcção do infinito, tão azul como ele. E cantava alegremente, com toda a força dos seus pulmões, para a imperatriz da China ouvir:

— Trrriu-tchilriu-tiu-trliu-trliu-trliu! — o que em chinês quer dizer: "Sou feliz, feliz, feliz!"

E, enxugando uma lágrima de saudade ao lenço de rendas caras, a imperatriz da China sentiu-se feliz também.

Ricardo Alberty, O príncipe de ouro e outras histórias, Lisboa, Editorial Verbo, 1989

domingo, 15 de maio de 2011

Lucid


Joker's Daughter - "Lucid" (2009)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Encantamento


Broadcast - Valerie (And Her Week Of Wonders)

sábado, 8 de janeiro de 2011

A serpente branca



Há muitos e muitos anos, vivia um rei muito celebrado pela sua sabedoria. Nada lhe era oculto. Era como se o conhecimento das coisas mais secretas lhe chegasse pelo ar. Mas tinha um estranho costume. Quando a refeição do meio-dia acabava, a mesa era tirada e não havia mais ninguém presente, um criado de confiança trazia-lhe um prato a mais. Esse prato era coberto. Nem mesmo o criado sabia o que havia ali dentro. Nem ele nem mais ninguém, porque o rei só tirava a tampa e comia, depois que ficava sozinho.

Um dia, o criado não agüentou mais de curiosidade. Secretamente levou o prato para o seu quarto, trancou a porta com cuidado e, quando levantou a tampa, viu que lá dentro havia uma serpente branca.

Depois de ver a cobra, não agüentou ficar sem provar. Cortou um pedaço bem pequeno e pô-lo na boca. Assim que o pedacinho da serpente tocou a sua língua, o criado começou a ouvir sussurros suaves e estranhos do lado de fora da janela. Quando se debruçou para ver o que era, descobriu que as vozes que murmuravam eram de pardais conversando, que contavam uns aos outros tudo o que tinham visto pelos bosques e campos. Provar a serpente tinha-lhe dado o poder de entender a linguagem das aves e dos animais.

Ora aconteceu que justamente naquele dia desapareceu o melhor anel da rainha. Como o criado de confiança tinha toda a liberdade para ir onde bem entendesse no palácio, suspeitaram que o tivesse roubado. O rei mandou chamá-lo e disse-lhe que, a não ser que ele desse o nome do ladrão até o dia seguinte, seria considerado culpado e decapitado. Não adiantou jurar inocência. O rei mandou-o embora sem uma palavra de consolo.

Com medo e sentindo-se desgraçado, o criado foi até ao quintal e ficou a pensar, a ver se encontrava uma maneira para sair daquela situação. Alguns patos estavam calmamente sentados à beira de um riacho, à vontade, alisando-se com o bico e conversando. O criado parou e escutou. Cada um dizia aos outros o que tinha acontecido em todos os lugares por onde tinha nadado naquela manhã, e toda a comida deliciosa que tinha comido. Mas um deles disse, queixoso:

— Estou com um peso no estômago... Estava a comer tão depressa que engoli um anel que estava no chão debaixo da janela da rainha...

O criado rapidamente agarrou o pato pelo pescoço, levou-o direto para a cozinha e disse ao cozinheiro:

— Olha só este pato gordo... e se o assasses?

— Pois é... — disse o cozinheiro, pesando o pato com a mão. — Já que ele se esforçou para ganhar tanto peso, é tempo agora de ir para o forno.

Cortou o pescoço do pato e depois, quando estava a limpar a ave para a assar, encontrou o anel da rainha no estômago. Com isso, não foi difícil o criado convencer o rei de sua inocência. Querendo reparar a injustiça que tinha feito, o rei perguntou-lhe se havia alguma coisa que ele desejasse, e ofereceu-lhe o cargo que ele quisesse na corte.

O criado recusou todas as honras e disse que só queria um cavalo e um pouco de dinheiro, porque desejava ver o mundo e viajar um bocado. O rei logo lhe deu o que queria, e ele partiu.

Um dia, passando por um lago, notou que três peixes estavam presos nuns caniços e estavam a ficar sem água. Dizem que os peixes são mudos, mas ele ouviu muito bem como eles gemiam, diante da morte horrível que os esperava. Como era um bom homem, desceu do cavalo e pôs os três cativos novamente na água. Eles puseram as cabecinhas de fora, abanando-se de alegria, e disseram:

— Vamos lembrar-nos disto e recompensá-lo por nos ter salvo.

Ele continuou o seu caminho e, pouco depois, ouviu uma voz que vinha da areia a seus pés. Prestou atenção e ouviu a queixa do rei das formigas:

— Se os humanos conseguissem manter os seus animais desajeitados bem longe de nós, seria óptimo! Este cavalo estúpido com cascos imensos e pesados está a esmagar o meu povo, sem piedade...

Ao ouvir aquilo, o criado saiu por um caminho lateral, e o rei das formigas gritou:

— Vamos lembrar-nos disso e recompensá-lo...

O caminho levava a uma floresta. Lá, ele viu um casal de corvos empurrando os filhotes para fora do ninho:

— Fora, seus marmanjões! — gritavam. — Não podemos mais encher as vossas barrigas. Já estão bem crescidos para arranjarem a vossa própria comida.

Os pobres filhotes batiam as asas desajeitados e não conseguiam levantar-se do chão.

— Ainda somos filhotes indefesos... — gritavam. — Como é que podemos arranjar comida se ainda nem sabemos voar? Vocês vão fazer-nos morrer de fome!

Ouvindo isso, o bom jovem apeou, matou o cavalo com a espada e deu a sua carne para alimentar os filhotes de corvo. Eles vieram saltitando, comeram até se fartar, e disseram:

— Vamos lembrar-nos disso e recompensá-lo.

Daí para a frente, seguiu a pé. Depois de muito caminhar, chegou a uma grande cidade. As ruas estavam cheias de barulho e movimento. Um homem a cavalo anunciava que a filha do rei estava procurando marido, mas que quem quisesse pedir a sua mão, precisava primeiro cumprir uma tarefa muito difícil e, se falhasse, perderia a vida. Muitos já tinham tentado, mas arriscaram a vida à toa. Quando o jovem viu a filha do rei, ficou tão estonteado com a sua beleza que se esqueceu do perigo, foi até o rei e apresentou-se como pretendente.

Foi levado diretamente à beira do mar. Lá, diante de seus olhos, atiraram à água um anel de ouro. Depois, o rei disse-lhe que ele tinha de ir buscar o anel ao fundo do mar. E acrescentou:

— Se saíres da água sem ele, serás atirado de volta, tantas vezes quantas necessário, até morreres nas ondas.

Os cortesãos ficaram com pena do jovem e lamentaram a sua sorte, tão bonito. Depois, deixaram-no sozinho na praia.

Ele ficou um pouco ali parado, pensando no que ia fazer. De repente, viu três peixes nadando em sua direção — justamente os três cujas vidas ele tinha salvo. O do meio tinha uma concha na boca. Depositou-a na praia, junto aos pés do rapaz. Quando pegou na concha e a abriu, viu que lá dentro estava o anel de ouro.

Todo contente, levou o anel até ao rei, esperando receber a recompensa prometida. Mas a princesa era muito orgulhosa e, quando viu que ele era inferior a ela em nascimento, desprezou-o e disse que ele ia tinha de cumprir uma segunda tarefa. Desceu até ao jardim e espalhou dez sacos cheios de farelo no meio da relva.

— Terás que recolher tudo até amanhã, antes do sol nascer — disse ela —, sem faltar um único grãozinho.

O rapaz sentou-se no jardim e começou a pensar numa maneira de cumprir a tarefa, mas não lhe ocorria nada. E lá ficou ele, tristíssimo, esperando que o levassem para a morte quando o dia nascesse. Mas quando os primeiros raios do sol chegaram ao jardim, ele viu que os dez sacos estavam de pé, cheios até à borda, sem faltar um grãozinho. O rei das formigas tinha vindo durante a noite, com milhares e milhares de formigas, e os bichinhos agradecidos tinham juntado todos os grãos de farelo dentro dos sacos outra vez.

A filha do rei veio em pessoa até ao jardim e ficou espantadíssima ao ver que a tarefa tinha sido cumprida. Mas o seu coração ainda se recusava a render-se. Por isso, ela disse:

— Ele cumpriu as duas tarefas. Mas não será meu marido enquanto não me trouxer um fruto da árvore da vida.

O rapaz nem sabia onde ficava a árvore da vida. Partiu procurando, resolvido a andar até onde as pernas o levassem, mas sem qualquer esperança de a encontrar.

Uma noite, depois de procurar por três reinos, chegou a uma floresta. Sentou-se debaixo de uma árvore e estava quase a dormir quando ouviu um barulho nos galhos e uma fruta de ouro caiu nas suas mãos. Ao mesmo tempo, três corvos desceram a voar da árvore, pousaram nos seus joelhos e disseram:

— Nós somos os filhotes de corvo que não deixaste morrer de fome. Quando crescemos e ouvimos dizer que estavas à procura da fruta de ouro, voámos por cima do mar até ao fim do mundo, onde cresce a árvore da vida, e encontrámos a fruta.

Muito contente, o rapaz voltou para casa. Deu a fruta de ouro à princesa e, depois disso, ela não tinha mais desculpa. Dividiram o fruto da vida e comeram-na juntos. O coração dela encheu-se de amor por ele, e os dois viveram felizes para sempre.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Rumpelstiltskin



Havia uma vez um moleiro pobre que tinha uma filha muito bela. Um dia aconteceu de ter que ir falar com o rei e, para parecer mais importante, disse:
- Tenho uma filha que pode fiar a palha e convertê-la em ouro.
- Essa é uma habilidade que me impressiona – disse o rei ao moleiro – se tua filha é tão hábil como dizes, trá-la amanhã ao meu palácio e vamos ver isso.

Quando trouxeram a moça, o rei levou-a para um quarto cheio de palha, deu-lhe uma roca e uma bobina e disse:
- Trabalha e se, amanhã pela manhã, não tiveres convertido toda essa palha em ouro, morrerás.

Então ele mesmo fechou a porta à chave e deixou-a só. A filha do moleiro sentou-se sem poder fazer nada para salvar a sua vida. Não tinha a menor ideia de como fiar a palha e convertê-la em ouro, e assustava-se cada vez mais, até que por fim começou a chorar.

Porém, de repente a porta abriu-se e entrou um homenzinho:
- Boa tarde, menina moleira, por que choras tanto?
- Ai de mim – disse a rapariga – tenho que fiar esta palha e convertê-la em ouro, porém não sei como fazê-lo.
- O que me dás – disse o homenzinho – se fizer isso por ti?
- O meu colar - disse ela.

O homenzinho pegou no colar, sentou-se à roca e "whirr, whirr, whirr", três voltas e a bobina estava cheia.
Pôs outra e "whirr, whirr, whirr", três voltas e a segunda estava cheia também. E continuou assim até ao amanhecer, quando toda a palha estava fiada e todas as bobinas cheias de ouro.

Ao despertar o dia, o rei já estava ali, e quando viu o ouro ficou atónito e encantado, porém o seu coração tornou-se ainda mais cobiçoso. Levou a filha do moleiro a outra sala, muito maior e cheia de palha e ordenou-lhe que fiasse a noite inteira, se apreciava a vida.
A moça, que não sabia o que fazer, começou a chorar quando a porta se abriu de novo. O homenzinho apareceu e disse:
- Que me darás se eu converter essa palha em ouro? - perguntou ele.
- O anel que tenho no meu dedo – disse ela.

O homenzinho apanhou o anel e começou outra vez a girar a roca, e pela manhã, havia transformado toda a palha em ouro. O rei ficou felicíssimo quando viu aquilo. Porém como não tinha ouro suficiente, levou a filha do moleiro a outra sala cheia de palha, muito maior que a anterior, e disse:
- Tens que fiar isso durante esta noite, se conseguires, serás minha esposa.
- “Apesar de ser a filha de um moleiro, “ pensou, “ não poderei encontrar esposa mais rica no mundo.”

Quando a rapariga ficou só, o homenzinho apareceu pela terceira vez, e disse:
- Que me darás se fiar a palha desta vez?
- Não tenho mais nada para te dar – respondeu ela.
- Então promete-me, que se te tornares rainha, me darás o teu primeiro filho.
- “Quem sabe se isso alguma vez acontecerá...“ pensou a filha do moleiro. E não sabendo como sair daquela situação, prometeu ao homenzinho o que ele queria e uma vez mais a palha foi convertida em ouro.


Quando o rei chegou pela manhã, e encontrou todo o ouro que havia desejado, casou-se com ela e a preciosa filha do moleiro tornou-se rainha.
Um ano depois, trouxe ao mundo um belo menino, e em nenhum momento se lembrou do homenzinho. Porém, de repente, ele apareceu no seu quarto e disse-lhe:
- Dá-me o que prometeste.

A rainha ficou horrorizada e ofereceu-lhe todas as riquezas do reino para deixar o seu filho. Porém o homenzinho disse:
- Não, algo vivo vale para mim mais que todos os tesouros do mundo.
A rainha começou a lamentar-se e chorar tanto que o homenzinho se compadeceu dela:
- Dou-te três dias - disse – se descobrires meu nome, então ficarás com o teu filho.

Então a rainha passou toda a noite pensando em todos os nomes que tinha ouvido, e mandou um mensageiro a todos os cantos do reino para perguntar por todos os nomes que havia. Quando o homenzinho chegou no dia seguinte, ela começou: Gaspar, Melquior, Baltazar... Disse um atrás do outro, todos os nomes que sabia, porém a cada um o homenzinho dizia:
- Esse não é meu nome.

No segundo dia havia perguntado aos vizinhos seus nomes, e ela repetiu os mais curiosos e pouco comuns:
- Seria o teu nome Pata de Cordeiro ou Laço Largo?
Porém ele disse:
- Esse não é meu nome.

Ao terceiro dia o mensageiro voltou e disse:
- Não encontrei nenhum nome. Porém, quando subia uma grande montanha no final de um bosque, onde a raposa e a lebre se desejam boas noites, ali vi um homenzinho muito ridículo saltando.. Deu um cabriola e gritou:
“Hoje trago o pão, amanhã trarei cerveja, no outro terei o filho da jovem rainha. Já estou contente que nada aconteça, que Rumpelstiltskin me chamo.”

Podeis imaginar o contentamento da rainha quando escutou o nome. E quando logo em seguida chegou o homenzinho e perguntou:
- Bem, jovem rainha, qual é meu nome?
A rainha primeiro disse:
- Chamas-te Conrado?
- Não.
- Chamas-te Harry?
- Não.
- Quem sabe se o teu nome é... Rumpelstiltskin?
- Contou-te o demónio! Contou-te o demónio! - Gritou o homenzinho e, na sua raiva, bateu o pé direito na terra tão forte que entrou toda a perna e quando tirou com raiva a perna com as duas mãos, partiu-se em dois.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

História de Vanina e Guidobaldo


Ford Madox Brown

"(...) Certa noite, terminada a ceia, o veneziano e o dinamarquês ficaram a conversar na varanda. Do outro lado do canal via-se um belo palácio com finas colunas esculpidas.

- Quem mora ali? - perguntou o cavaleiro.
- Agora ali só mora Jacob Orso com os seus criados, mas antes também ali morou Vanina, a rapariga mais bela de Veneza. Era orfã e Orso era o seu tutor. Quando era criança o tutor promteu-a em casamento a um seu parente, de seu nome Arrigo. Mas quando Vanina chegou aos 18 anos não quis casar com ele porque o achava velho, feio e maçador.Então Orso fechou-a em casa e nunca mais a deixou sair senão em sua companhia, ao Domingo, para ir à missa. Durante a semana Vanina prisioneira suspirava e bordava no interior do palácio, sempre rodeada e espiada pelas suas aias. Mas à noite Orso e as criadas adormeciam. Então Vanina abria a janela do seu quarto, debruçava-se sobre a varanda e penteava os seus cabelos, que eram loiros e tão compridos que passavam além da balaustrada e flutuavam, leves e brilhantes, enquanto as águas os reflectiam. E eram tão perfumados que de longe se sentia na brisa o seu aroma. E os rapazes de Veneza vinham de noite ver Vanina pentear seus cabelos. Mas nenhum ousava aproximar-se dela, pois o tutor fizera correr por toda a cidade que mandaria apunhalar quem ousasse namorá-la.

E Vanina, jovem e bela e sem amor, suspirava naquele palácio.

Mas um dia chegou a Veneza um homem que não temia Jacob Orso.Chamava-se Guidobaldo e era capitão de um navio. O seu cabelo preto era azulado como a asa de um corvo e a sua pele queimada pelo sol e pelo sal. Nunca no Rialto passeara tão belo navegador.

Ora certa noite, Guidobaldo Passou de Gôndola pelo canal. Sentiu no ar um maravilhoso perfume, levantou a cabeça e viu Vanina pentear os cabelos. Aproximou o seu barco da varanda e disse:

- Para cabelos tão belos e perfumados seria preciso um pente de oiro.

Vanina sorriu e atirou-lhe o seu pente de marfim.

Na noite seguinte à mesma hora o jovem capitão voltou a deslizar de gôndola ao longo do canal.

Vanina sacudiu os cabelos e disse-lhe:

- Hoje não me posso pentear pois não tenho pente.

- Tens este que eu te trago e que mesmo sendo de oiro brilha menos que o teu cabelo.

Então Vanina atirou-lhe um cesto atado por uma fita onde Guidobaldo depôs a sua oferta.

E dai em diante a rapariga mais bela de Veneza passou a ter um namorado.

Quando esta notícia se espalhou ela cidade os amigos do capitão preveniram-no de que estava a arriscar a sua vida, pois Orso não lhe perdoaria. Mas ele era forte e destemido, sacudiu os ombros e riu.

Ao fim do mês foi bater à porta do tutor.

- Que queres tu? - perguntou o velho.

- Quero a mão de Vanina.

- Vanina está noiva de Arrigo e não há-de casar com mais ninguém. Sai depressa de Veneza. Tens um dia para saires da cidade. Se amanhã ao pôr-do-sol ainda não tiveres partido mandarei sete homens com sete punhais para te matar.

Guidobaldo ouviu, sorriu, fez uma reverência e saiu.

Mas nessa noite a sua gôndola parou junto da varanda da casa de Orso. De cima atiraram um cesto preso por uma fita e dentro dele o jovem capitão depôs uma escada de seda. O cesto foi puxado para a varanda e a escada, depois de desenrolada, foi atada à balaustrada de mármore cor-de-rosa. Então, ágil e leve, Vanina desceu com os cabelos soltos flutuando na brisa. Guidobaldo cobriu-a com a sua capa escura e a gôndola afastou-se e desapareceu no nevoeiro de Outubro.

Na manhã seguinte as aias descobriram a ausência de Vanina e correram a prevenir o tutor. Jacob Orso chamou Arrigo e com ele e os seus esbirros dirigiram-se para o cais.

Mas quando ali chegaram o navio de Guidobaldo já tinha desaparecido.

Um velho marinheiro que ali se encontrava contou o sucedido.

- O capitão e a tua pupila chegaram aqui a meio da noite. Mandaram chamar um padre que os casou além, naquela capela. Mal terminou o casamento embarcaram e ao primeiro nascer do dia o navio levantou a âncora, içou as velas e navegou ao largo.

Jacob Orso olhou para a distância. O navio já não se avistava pois a brisa soprava da terra.

O tutor e Arrigo queixaram-se à senhoria de Veneza e ao doge. Depois mandaram quatro navios à procura dos fugitivos. Mas o mar é grande, há muitos portos, muitas baías, muitas cidades marítimas, muitas ilhas. E Vanina e Guidobaldo nunca mais foram descobertos".

in O Cavaleiro da Dinamarca de Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O conto do Vento

Um conto de Hans Christian Andersen

O que nos conta o vento

Edmund Dulac

O vento é tão alegre como uma criança. Já o viram correr, pelos campos, movendo o trigo, como as ondas do mar? É isto a dança do vento; mas ele não só dança, também canta. Vão ouvir como ele canta.
- Zum!... Zu!... Zê, ss... Ss... Ss!... - está ele a dizer.

Se não houvesse uns senhores muito graves, que usam chapéus que rodam pelas ruas, a vida na cidade seria para mim um grande aborrecimento. Todas as distrações fugiram das cidades. Há cem anos não havia nada de que eu mais gostasse do que soprar pelas ruas abaixo. Mas, então, as ruas eram uma exposição de quadros divertidos, mais que lugares de comércio.

Todas as casas tinham sa ua vitrina ou tabuleta. Havia a vitrina do alfaiate, cheia de figurinos de várias cores, querendo mostrar que o alfaiate era capaz de transformar o homem mais esfarrapado num elegante senhor.
O barbeiro tinha por cima da porta um grande pau com uma navalha de madeira pendurada; peixes, chapéus, queijos, bolas, enfim, todas as coisas que se vendiam na cidade, eram representadas nas tabuletas; e quando eu as fazia oscilar e as punha a bater umas contra as outras, produziam um barulho ensurdecedor.

Que momentos tão alegres e divertidos passei eu numa noite em que me meti pelos mostradores! Tinha jurado que me havia de divertir. O vento calou-se, dando em seguida um grito que estremeceu a casa.
- Oh! Como me lembro bem! - continuou ele a gritar pela varanda. - Era num dia em que os sapateiros se mudavam do antigo estabelecimento para o novo, levando consigo todas as tabuletas. Naqueles tempos, que já vão bem longe, os sapateiros eram ricos e poderosos e valia a pena ver a procissão que eles formavam. Havia um palhaço que abria a marcha, uma figura grotesca com a cara negra e uma roupa feita de retalhos. Todos riam. Hoje já não se divertem desta maneira. Atrás do palhaço ia a música, seguida dos homens que levavam os estandartes, e a grande bandeira de seda do grêmio dos sapateiros, enfeitada com uma grande bota preta. Subiu a um andaime, no qual tinha que fixar uma tabuleta, o sapateiro que presidia a associação e começou a discursar; mas o palhaço, que subiu atrás dele, fazia rir às gargalhadas o público, com os seus trejeitos.

Eu quis também tomar parte na brincadeira e comecei a bater com as tabuletas umas nas outras e o orador desceu dizendo:
"Não é possível fazer-me ouvir por causa do vento, mas vamos fixar a tabuleta."
Mas eu havia resolvido - continuou o vento - que a tabuleta não se fixasse. Soprei até que o avental do sapateiro lhe tapasse os olhos; fiz cair a escada e levei-lhe o chapéu e a cabeleira. Por fim cansaram-se de lutar comigo e foram-se todos para a sua nova casa para celebrarem o banquete.
O vento deu um salto e prosseguiu:
- Eu estava naquele dia disposto a fazer mal. Tenho conseguido divertir-me com os sapateiros, andava pelas ruas tentando novas proezas. Comecei a tirar os tectos das casas velhas, mas ainda sentia vontade de fazer pior. Continuei a fazer cirandar tudo com muita habilidade. Quando a gente da cidade despertou, no dia seguinte, encontrou a tabuleta do Instituto Histórico num salão de bilhares e o Instituto tinha lá, em troca, a tabuleta arrancada de um asilo para crianças... Um peleiro tinha pintado na tabuleta uma raposa. Mudei a tabuleta para o outro lado da rua, para a casa de um conselheiro avarento, que pretendia passar por excelente pessoa.

Toda a população se riu, sobretudo quando viu a tabuleta que eu tinha posto na casa de um juiz: era um pau com uma navalha de madeira. A mulher do juiz tinha o apelido de "A Navalha", por sua má língua. Mas a partida mais original - continuou o vento com voz baixa - foi a que preguei a uma rica mulher que inventava grandes histórias contra os seus vizinhos. Pus na casa dela um letreiro que havia num solar abandonado e que dizia: "Aqui precisa-se de estrume."

Foram dias alegres - suspirou o vento - mas que já não voltam. Depois do que eu fiz nunca mais usaram aquelas tabuletas; por minha causa muitos se envergonharam do seu comportamento e muitos homens nem queriam ouvir falar de mim e nas minhas travessuras. O vento acabou de falar na varanda e, dando um grito muito agudo, foi-se embora.

domingo, 26 de setembro de 2010

Os sete corvos



Era uma vez um homem que tinha sete filhos e vivia suspirando por uma menina. Afinal, um dia, a mulher anunciou-lhe que estava, mais uma vez, de esperanças. No tempo certo, quando ela deu à luz, nasceu uma menina. Foi imensa a alegria deles. Mas, ao mesmo tempo, ficaram muito preocupados, pois a recém-nascida era pequena e fraquinha, e precisava ser baptizada com urgência.

Então o pai mandou um dos filhos ir bem depressa até a fonte e trazer água para o baptismo. O menino foi a  correr e, atrás dele, os seis irmãos. Ao lá chegar, cada um queria encher o cântaro primeiro; na disputa, o cântaro caiu na água e desapareceu. Os meninos ficaram sem saber o que fazer. Em casa, como eles estavam a demorar, o pai disse, impaciente:

- Na certa, ficaram a brincar e  esqueceram-se da vida!
E, cada vez mais angustiado, exclamou com raiva:
- Queria que todos eles se transformassem em corvos!

Nem bem acabou de falar, ouviu um bater de asas por cima de sua cabeça e, quando olhou, viu sete corvos pretos como carvão passando por cima da casa. Os pais fizeram de tudo para anular a maldição, mas nada conseguiram; ficaram tristíssimos com a perda dos sete filhos. Mas, de alguma forma, consolaram-se com a filhinha, que logo ficou mais forte e foi crescendo, cada dia mais bonita. Passaram-se anos.

A menina nunca soube que tinha irmãos, pois os pais jamais falaram deles. Um dia, porém, escutou acidentalmente algumas pessoas:
- A menina é muito bonita, mas foi por culpa dela que os irmãos se desgraçaram…
Com grande aflição, ela procurou os pais e perguntou- lhes se tinha irmãos, e onde eles estavam. Os pais não puderam mais guardar segredo. Disseram que havia sido uma predestinação do céu, mas que o seu baptismo fora a inocente causa. A partir desse momento, não se passou um dia sem que a menina se culpasse pela perda dos irmãos, pensando no que fazer para salvá-los.

Não tinha mais paz nem sossego. Um dia, fugiu de casa, decidida a encontrar os irmão onde quer que eles estivessem, no vasto mundo, custasse o que custasse. Levou consigo apenas um anel dos seus pais como lembrança, um pão grande para quando tivesse fome, um cantil de água para matar a sede e um banquinho para quando quisesse descansar.

Foi andando, andando, afastando-se cada vez mais, e assim chegou ao fim do mundo. Então, foi falar com o sol. Mas ele era assustador, quente demais e comia crianças. A menina fugiu e foi falar com a lua. Ela era horrorosa, mais fria que o gelo, e também comia crianças. Quando viu a menina, disse com um sorriso mau:
- Hum, hum… que cheirinho bom de carne humana!

A menina afastou-se a correr e foi falar com as estrelas. Encontrou–as sentadas, cada uma na sua cadeirinha. Todas elas foram bondosas e amáveis com ela. A Estrela d’Alva ficou em pé e deu-lhe um ossinho de frango, dizendo:
- Sem este ossinho, não poderás abrir a Montanha de Cristal, e é na Montanha de Cristal que estão os teus irmãos.

A menina pegou no ossinho, embrulhou-o num pedaço de pano, e de novo se pôs a andar. Andou, andou e afinal chegou à Montanha de Cristal. O portão estava fechado; quando desembrulhou o paninho para pegar no osso, ele estava vazio! Tinha perdido o presente da Estrela… E agora, o que fazer? Queria salvar os irmãos, mas já não tinha a chave da Montanha de Cristal.

Sem pensar muito, meteu o dedo indicador dentro do buraco da fechadura e girou-o, mas o portão continuou fechado. Então, pegou uma faca na sua trouxinha, cortou  um pedaço do dedo mindinho e meteu o pedaço do dedo na fechadura: felizmente, o portão abriu-se.

Assim que ela entrou, um anãozinho veio a seu encontro:
- O que  procuras, minha menina?
- Procuro os meus irmãos, os sete corvos.
- Os senhores corvos não estão em casa e vão  demorar-se bastante. Mas, se quiseres esperar, entra e fica à vontade.

Assim dizendo, o anãozinho foi para dentro e voltou com a comida dos corvos em sete pratinhos, e a bebida em sete copinhos. A menina comeu um bocadinho de cada prato e bebeu um golinho de cada copo, mas deixou cair o anel que trouxera dentro do último copinho. Nesse momento, ouviu-se um zunido e um bater de asas no ar.

- São os senhores corvos que chegam – explicou o anãozinho. Eles entraram, quiseram logo comer e beber e dirigiram-se para os seus pratos e copos. Então um disse ao outro:
- Alguém comeu no meu prato! Alguém bebeu no meu copo! E foi boca humana!
E quando o sétimo corvo acabou de beber a última gota de seu copo, o anel rolou até o seu bico. Ele reconheceu o anel dos seus pais e exclamou:
- Queira Deus que a nossa irmãzinha esteja aqui! Então, estaremos salvos!

Ao ouvir esse pedido, a menina, que estava atrás da porta, saiu e foi ao encontro deles. Imediatamente, os corvos recuperaram a sua forma humana. Abraçaram-se e  beijaram-se na maior alegria e, muito felizes, voltaram todos para casa.

sábado, 25 de setembro de 2010

O sapateiro pobre



Era uma vez um sapateiro que tinha ficado tão pobre, mesmo sem culpa nenhuma, que a única coisa que lhe restara era um pedaço de couro que dava para fazer um único par de sapatos. De noite, ele cortou o molde dos sapatos, planeando começar a trabalhar neles no dia seguinte. Depois, de consciência tranquila, foi calmamente para a cama, entregou-se a Deus, e adormeceu.

De manhã, rezou as suas orações e ia  sentar-se para começar a trabalhar quando viu que os sapatos estavam prontinhos em cima da banca. Ficou tão espantado que nem sabia o que pensar. Pegou nos sapatos e olhou de perto. Não havia um único ponto irregular e estava perfeito como se tivesse sido feito por um mestre-artesão.

Melhor ainda: logo chegou um cliente que gostou tanto dos sapatos que pagou por eles mais do que seria o preço normal. Com o dinheiro, o sapateiro comprou um pedaço de couro que dava para fazer dois pares de sapatos. Novamente, ele deixou os moldes cortados de noite, antes de ir deitar-se, pretendendo trabalhar neles com mais ânimo no dia seguinte. Mas nem precisou porque quando se levantou os sapatos já estavam prontos. E também logo chegaram compradores, que lhe pagaram o suficiente para que ele comprasse couro para quatro pares novos.

Na manhã seguinte, ele encontrou os quatro pares prontos. E assim continuou: os sapatos que ele deixava cortados de noite estavam terminados de manhã. Em pouco tempo ele conseguiu  manter-se decentemente e, daí a mais um pouco, estava rico.

Numa noite, pouco antes do Natal, depois que o sapateiro tinha cortado o couro e eles estavam a preparar-se para ir dormir, ele disse para a mulher:

— E se ficássemos acordados hoje para ver quem é que nos ajuda?

A mulher gostou da ideia e deixou a lâmpada acesa. Os dois esconderam-se num canto, atrás de umas roupas, e ficaram à espera. À meia-noite, dois homenzinhos nus e com ar muito esperto entraram,  inclinaram-se diante da banca de trabalho, pegaram nas peças que estavam cortadas e começaram a furar, costurar e martelar com tanta rapidez e agilidade com dedinhos pequenos que o sapateiro nem acreditava, de tão espantado. Trabalharam sem um momento de descanso, até que os sapatos estavam prontos, em cima da banca. Então foram-se embora. Na manhã seguinte, a mulher disse:

— Esses homenzinhos  fizeram-nos ficar ricos. Devíamos mostrar-lhes como estamos gratos. Eles devem ter frio, coitados, correndo de um lado para outro sem nada para vestir. Sabes que mais ? Vou fazer umas camisas e calças para eles, coletes, e casacos… E tu podias fazer uns pares de sapatos.

— Óptima ideia -  disse o sapateiro.

Naquela noite, quando aprontaram tudo, deixaram os presentes em cima da banca de trabalho, em vez dos moldes de couro cortado. Depois esconderam-se para ver o que os homenzinhos iam fazer. À meia-noite, lá chegaram eles a correr, prontos para trabalhar. De início, ficaram meio intrigados ao ver aquelas roupinhas, em vez do couro cortado. Mas deram pulos de alegria. Ligeiros como o relâmpago, vestiram as roupinhas lindas, ajeitaram-se e cantaram:

— Estamos lindos, tão elegantes. sem mais trabalho, como era antes…

Pularam e dançaram, saltaram por cima das cadeiras e dos bancos, e finalmente saíram pela porta afora, sem parar de dançar. Depois disso, nunca mais voltaram, mas o sapateiro continuou a prosperar até ao fim dos seus dias, porque tudo em que ele punha as mãos prosperava.

domingo, 19 de setembro de 2010

Cinderela e a aveleira



Há muito tempo, a esposa de um rico comerciante adoeceu gravemente e, sentindo o seu fim  aproximar-se, chamou a sua única filha e disse-lhe:
- Querida filha, continua piedosa e boa menina que Deus te protegerá sempre. Lá do céu olharei por ti, e estarei sempre a teu lado. Mal acabou de dizer isto, fechou os olhos e morreu.

A jovem ia todos os dias visitar o túmulo da mãe. Veio o inverno, e a neve cobriu o túmulo com o seu alvo manto. Chegou a primavera, e o sol derreteu a neve. Foi então que o viúvo resolveu  casar-se outra vez. A nova esposa trouxe as suas duas filhas, ambas bonitas, mas só exteriormente. As duas tinham a alma feia e cruel. A partir desse momento, dias difíceis começaram para a pobre enteada.

- Esta imbecil não vai ficar no quarto connosco! - protestaram as moças.
- O lugar dela é na cozinha! Se quiser comer pão, que trabalhe!
Tiraram-lhe o vestido bonito que usava, obrigaram-na a vestir outro, velho e desbotado, e a calçar tamancos.
- Vejam só como está toda enfeitada, a orgulhosa princesinha de antes! -disseram a rir, levando-a para a cozinha.


A partir de então, ela foi obrigada a trabalhar, da manhã à noite. Tinha de  levantar-se de madrugada, para ir buscar água e acender o fogo. Só ela cozinhava e lavava para todos. Como se tudo isso não bastasse, as irmãs humilhavam-na. Espalhavam lentilhas e feijões nas cinzas do fogão e obrigavam-na a apanhá-los um a um. À noite, exausta de tanto trabalhar, a jovem não tinha onde dormir e era obrigada a deitar-se nas cinzas do fogão. E, como andasse sempre suja e cheia de cinza, chamavam-na de Cinderela.

Uma vez, o pai resolveu ir a uma feira. Antes de sair, perguntou às enteadas o que desejavam que ele trouxesse.
- Vestidos bonitos- disse uma.
- Pérolas e pedras preciosas - disse a outra.
- E tu, Cinderela, o que queres? - perguntou o pai.
- No caminho de volta, pai, quebre o primeiro ramo que bater no seu chapéu e traga-o para mim.

O pai partiu para a feira, comprou vestidos bonitos para uma das enteadas, pérolas e pedras preciosas para a outra e, de volta a casa, quando cavalgava por um bosque, um ramo de aveleira bateu no seu chapéu. Quebrou o ramo e levou-o. Ao chegar a casa, deu às enteadas o que haviam pedido e à Cinderela o ramo de aveleira. Ela agradeceu, levou o ramo para o túmulo da mãe, plantou-o ali, e chorou tanto que suas lágrimas regaram o ramo. Este cresceu e tornou-se numa linda aveleira.



Três vezes, todos os dias, a menina ia chorar e rezar debaixo dela. Sempre que a via chegar, um passarinho branco voava para a árvore. Um dia, o rei mandou anunciar uma festa, que duraria três dias. Todas as jovens bonitas do reino seriam convidadas, pois o filho dele queria escolher entre elas aquela que seria a sua futura esposa. Quando souberam que também deveriam comparecer, as duas filhas da madrasta ficaram contentíssimas.

- Cinderela! - gritaram. - Vem pentear o nosso cabelo, escovar os nossos sapatos e  ajudar-nos a vestir, pois vamos a um baile no castelo do rei!
Cinderela obedeceu chorando, porque ela também queria ir ao baile. Perguntou à madrasta se poderia ir e esta respondeu:
- Tu, Cinderela! Suja e cheia de pó, queres ir à festa? Como vais dançar, se não tens roupa nem sapatos?
Mas a Cinderela insistiu tanto, que no fim ela disse:
- Está bem. Despejei nas cinzas do fogão um tacho cheio de lentilhas. Se conseguires apanhá-las todas em duas horas, poderás ir.

A jovem saiu pela porta dos fundos, correu para o quintal e chamou:
- Mansas pombinhas e rolinhas!
Passarinhos do céu inteiro!
Venham ajudar-me a apanhar lentilhas!
As boas vão para o tacho!
As más para o vosso papo!

Logo entraram pela janela da cozinha duas pombas brancas; a seguir, vieram as rolinhas e, por último, todos os passarinhos do céu chegaram numa revoada e pousaram nas cinzas. As pombas baixavam a cabecinha e pic, pic, pic, apanhavam os grãos bons e deixavam cair no tacho. As outras avezinhas faziam o mesmo. Não levou nem uma hora, o tacho ficou cheio e as aves todas voaram para fora.

Cheia de alegria, a menina pegou o tacho e levou-o à madrasta, certa de que agora poderia ir à festa. Porém a madrasta disse:
- Não, Cinderela. Não tens roupa e não sabes dançar. Só irias ser alvo da chacota de todos.
Como a menina começou a chorar, ela propôs:
- Se conseguires encher dois tachos de lentilhas apnhadas das cinzas numa hora, poderás ir connosco.
Enquanto isso, pensou consigo mesma: “Ela não vai conseguir…”

Assim que a madrasta acabou de espalhar os grãos nas cinzas, Cinderela correu para o quintal e chamou:
- Mansas pombinhas e rolinhas!
Passarinhos do céu inteiro!
Venham ajudar-me  a apanhar lentilhas!
As boas vão para o tacho!
As más para o vosso papo!

E entraram pela janela da cozinha duas pombas brancas; a seguir vieram as rolinhas e, por último, todos os passarinhos do céu chegaram numa revoada e pousaram nas cinzas. As pombas abaixavam a cabecinha e pic, pic, pic, apanhavam os grãos bons e deixavam cair no tacho. Os outros pássaros faziam o mesmo. Não passou nem meia hora, e os dois tachos ficaram cheios. As aves saíram voando pela janela.

Então, a menina levou os dois tachos para a madrasta, certa de que, desta vez, poderia ir à festa.
Porém, a madrasta disse:
- Não adianta, Cinderela! Não vais ao baile! Não tens vestido, não sabes dançar e só nos farias passar vergonhas! - E, dando-lhe as costas, partiu com as suas orgulhosas filhas.

Quando ficou sozinha, Cinderela foi ao túmulo da mãe e debaixo da aveleira, disse:
-Balança e agita-te,
árvore adorada,
cobre-me toda
de ouro e prata!

Então o pássaro branco atirou-lhe um vestido de ouro e prata e sapatos de seda bordada de prata. Cinderela vestiu-se e foi para a festa. Estava tão linda, no seu vestido dourado, que nem as irmãs, nem a madrasta a reconheceram. Pensaram que fosse uma princesa estrangeira; para elas, Cinderela só poderia estar em casa, apanhando lentilhas das cinzas.

Assim que a viu, o príncipe veio a seu encontro e, pegando-lhe a mão, levou-a para dançar. Só dançou com ela, sem largar a sua mão por um instante. Quando alguém a convidava para dançar, ele dizia:
- Ela é a minha dama. Dançaram até altas horas da noite até que Cinderela quis voltar para casa.
- Eu acompanho-a - disse o príncipe. Na verdade, ele queria saber a que família ela pertencia. Mas Cinderela conseguiu escapar, correu para casa e escondeu-se no pombal.

O príncipe esperou o pai dela chegar e contou-lhe que a jovem desconhecida tinha saltado para dentro do pombal. “Deve ser a Cinderela…”, pensou o pai. E mandou vir um machado para arrombar a porta do pombal. Mas não havia ninguém lá dentro. Quando entraram em casa, encontraram Cinderela com as suas roupas sujas, dormindo nas cinzas, à luz mortiça de uma lamparina.

A verdade é que, assim que entrou no pombal, a menina saiu pelo lado de trás e correu para a aveleira. Ali, rapidamente tirou o seu belo vestido e deixou-o sobre o túmulo. Veio o passarinho, apanhou o vestido e levou-o. Ela vestiu novamente o seu vestido velho e sujo, correu para casa e  deitou-se nas cinzas da cozinha.

No dia seguinte, o segundo dia da festa, quando os pais e as irmãs partiram para o castelo, Cinderela foi até a aveleira e disse:
- Balança e  agita-te,
árvore adorada,
cobre-me toda
de ouro e prata!

E o pássaro atirou-lhe um vestido ainda mais bonito que o da véspera. Quando ela entrou no salão assim vestida, todos ficaram pasmados com sua beleza. O príncipe, que a esperava, tomou-lhe a mão e só dançou com ela. Quando alguém convidava a jovem para dançar, ele dizia:
- Ela é a minha dama.



Já era noite avançada quando Cinderela quis ir-se embora. O príncipe seguiu-a, para ver em que casa entraria. A jovem seguiu o seu caminho e, inesperadamente, entrou no quintal atrás da casa. Ágil como um esquilo, subiu pela ramagem de uma frondosa pereira carregada de frutos que havia ali. O príncipe não conseguiu descobri-la e, quando viu o pai dela chegar, disse:
- A moça desconhecida escondeu-se naquela pereira. “Deve ser a Cinderela”, pensou o pai. Mandou buscar um machado e derrubou a pereira. Mas não encontraram ninguém na ramagem.

Como na véspera, Cinderela já estava na cozinha dormindo nas cinzas, pois havia escorregado pelo outro lado da pereira, correra para a aveleira, e devolvera o lindo vestido ao pássaro. Depois, vestiu o feio vestidinho de sempre, e correu para casa.

No terceiro dia, assim que os pais e as irmãs saíram para a festa, Cinderela foi até o túmulo da mãe e pediu à aveleira:
- Balança  e  agita-te,
árvore adorada,
cobre-me toda
de ouro e prata!

E o pássaro atirou-lhe o vestido mais sumptuoso e brilhante jamais visto, acompanhado de um par de sapatinhos de puro ouro. Ela estava tão linda, tão linda, que, quando chegou ao castelo, todos emudeceram de assombro. O príncipe só dançou com ela e, como das outras vezes, dizia a todos que vinham pedir-lhe para dançar:
- Ela é a minha dama.

Já era noite alta, quando Cinderela quis voltar para casa. O príncipe tentou segui-la, mas ela escapuliu tão depressa, que ele não pôde alcançá-la. Dessa vez, porém, o príncipe usou um estratagema: untou com pez um degrau da escada e, quando a moça passou, o sapato do pé esquerdo ficou agarrado. Ela deixou-o ali e continuou a correr.

O príncipe pegou o sapatinho: era pequenino, gracioso e todo de ouro. No outro dia, de manhã, ele procurou o pai e disse:
- Só me casarei com a dona do pé que couber neste sapato.



As irmãs de Cinderela ficaram felizes e esperançosas quando souberam disso, pois tinham pés delicados e bonitos. Quando o príncipe chegou à casa delas, a mais velha foi para o quarto acompanhada da mãe e experimentou o sapato. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia meter dentro dele o dedo grande do pé. Então, a mãe deu-lhe uma faca, dizendo:
- Corta o dedo. Quando  fores rainha, andarás muito pouco a pé.

Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele recebeu-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo. Quando passavam pelo túmulo da mãe de Cinderela, que ficava no caminho, duas pombas pousaram na aveleira e cantaram:
- Olha para trás! Olha para trás!
Há sangue no sapato,
que é pequeno demais!
Não é a noiva certa
que vai sentada atrás!

O príncipe virou-se, olhou para o pé da moça e logo viu o sangue escorrendo do sapato. Fez o cavalo voltar e levou-a para a casa dela. Ao lá chegar, ordenou à outra filha da madrasta que calçasse o sapato. Ela foi para o quarto e calçou-o. Os dedos do pé entraram facilmente, mas o calcanhar era grande demais e ficou de fora. Então, a mãe deu-lhe uma faca dizendo:
- Corta um pedaço do calcanhar. Quando fores rainha, andarás muito pouco a pé.

Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele aceitou-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo.Quando passavam pela aveleira, duas pombinhas pousaram num dos ramos e cantaram:
- Olhe para trás! Olha para trás!
Há sangue no sapato,
que é pequeno demais!
Não é a noiva certa
que vai sentada atrás!

O príncipe olhou para o pé da moça, viu o sangue escorrendo e a meia branca, vermelha de sangue. Então virou seu cavalo, levou a falsa noiva de volta para casa e disse ao pai:
- Esta também não é a verdadeira noiva. Não têm outra filha?
- Não!- respondeu o pai - A não ser a pequena Cinderela, filha de minha falecida esposa. Mas é impossível que seja ela a noiva que procura.

O príncipe ordenou que fossem buscá-la.
- Oh, não! Ela está sempre muito suja! Seria uma afronta trazê-la à vossa presença! - protestou a madrasta.
Porém o príncipe insistiu, exigindo que ela fosse chamada. Depois de lavar o rosto e as mãos ela veio, curvou-se diante do príncipe e pegou o sapato de ouro que ele lhe estendeu. Sentou-se num banquinho, tirou do pé o pesado tamanco e calçou o sapato, que lhe serviu como uma luva. Quando ela se levantou, o príncipe viu o seu rosto e reconheceu logo a linda jovem com quem havia dançado.
- É esta a noiva verdadeira! — exclamou, feliz.

A madrasta e as filhas ficaram brancas de raiva. O príncipe ergueu Cinderela, colocou-a na garupa do seu cavalo e partiram. Quando passaram pela aveleira, as duas pombinhas brancas cantaram:
- Olha pare trás! Olha pare trás!
Não há sangue no sapato,
que serviu bem demais!
Esta é a noiva certa.
Podes ir em paz!

E, quando acabaram de cantar, elas voaram e foram pousar, uma no ombro direito de Cinderela, outra no esquerdo; ali ficaram. Quando o casamento de Cinderela com o príncipe se realizou, as falsas irmãs foram à festa. A mais velha ficou à direita do altar, e a mais nova, à esquerda. Subitamente, sem que ninguém pudesse impedir, a pomba pousada no ombro direito da noiva voou para cima da irmã mais velha e furou-lhe os olhos. A pomba do ombro esquerdo fez o mesmo com a mais nova, e ambas ficaram cegas para o resto das suas vidas.

sábado, 18 de setembro de 2010

História de Encantar


My Brightest Diamond - Inside a Boy