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terça-feira, 6 de maio de 2014

Lenda de Almaceda



Conta-se que nos terrenos onde hoje se situa a freguesia de Almaceda vivia, em tempos, D. Rodrigo, fidalgo rico e aventureiro, com sua irmã, D. Madalena. Os seus aborrecidos dias só eram animados pelos matinais passeios a cavalo. Quando o tédio apertava, pisgava-se para a corte. 
Num desses passeios matinais, no início da primavera, D. Rodrigo, acompanhado por D. Madalena, estacou repentinamente o seu cavalo, olhando fixamente um ponto. D. Madalena parou também e indagou, curiosa: 
- Que estás a ver? 
D. Rodrigo, com o seu sorriso malandro. 
- Ou estou a sonhar..., ou junto àquele arbusto está uma caveira! 
- Que ideia! Respondeu a irmã, meio amedrontada. 
D. Rodrigo aproveitou, para incutir mais medo. 
- Anda, vamos ver de mais perto! Vamos cumprimentá-la. 
- Devias ter mais respeito pelos mortos. 
D. Rodrigo rindo: 
- Mais respeito? Parámos para a cumprimentar e ainda pedes mais respeito? 
- Não gosto dessas brincadeiras. 
- Que medrosa, nem pareces minha irmã! Anda, é só uma caveira. 
- Como veio aqui parar? disse D. Madalena. 
D. Rodrigo, cada vez mais divertido com o receio da irmã, alvitra: 
- Devia estar aborrecida no cemitério e veio dar um passeio, tal como nós. 
- Cala-te, não suporto mais essa brincadeira. Vamos embora! 
- Havemos de ir, mas não sem antes nos despedirmos da caveira. 
- Não, vamo-nos! 
D. Rodrigo, aproveita para irritar ainda mais a irmã. 
- Antes de partirmos, vou convidá-la para o jantar. 
Cada vez mais amedrontada e com lágrimas nos olhos: 
- Que heresia, Rodrigo! 
Dito isto, partiu velozmente, deixando o irmão rindo às gargalhadas. 
Subitamente, D. Rodrigo ouve uma voz: 
- Cavaleiro, não te desapontarei. Se queres jantar comigo, esta noite lá estarei. 
D. Rodrigo, não vendo ninguém, estancou o sorriso, arrependendo-se da sua brincadeira ao mesmo tempo que se apoderava dele um certo temor. Esporeou o cavalo e partiu em direção ao mosteiro, a fim de contar aos frades o sucedido. Estes não o levaram muito a sério, deram-lhe uma cruz para o proteger do demónio e lá foi para o seu solar. 
Ao ouvir o cavalo, D. Madalena foi ao seu encontro. 
- Já estava preocupada. Demoraste tanto e eu aqui cheia de medo e de fome. 
- Não te preocupes, já trouxe uma cruz que me deram os frades e tudo correrá bem. 
-Mas... 



- Deixa, se vier alguém para jantar connosco, recebê-lo-emos bem. Já mandei preparar a mesa 
e avisei o José para não se alarmar com a estranha visita. 
- Mas tu ... achas que vem alguém jantar connosco? 
D. Rodrigo acenou afirmativamente, aumentando o medo da irmã. 
- Vai para o teu quarto, eu fico sozinho para receber a visita. 
- Não te deixo sozinho! 
Dito isto, ouvem-se pancadas fortes na porta de entrada. 
- A nossa visita chegou.... 
- Benze-te Rodrigo, para que Deus te proteja. 
Uma voz cavernosa ecoa na casa. 
- Diz ao teu amo que o convidado chegou. 
Tentando disfarçar o seu medo, o fidalgo disse: 
- Entre, estava à sua espera e está tudo preparado para o jantar.
D. Madalena quase desfaleceu, numa cadeira. 
- Queira sentar-se ... 
- Não vim para jantar, mas só para te levar comigo. 
Pálido, D. Rodrigo balbuciou: 
- Não compreendo ... 
D. Madalena, em pranto: 
- Meu Deus, protegei-nos. 
- Quero que venhas comigo à minha morada. 
- Onde mora? 
- Perto da igreja. Vem, és meu convidado, pois gostaria de falar contigo. 
A irmã tenta impedi-lo: 
- Não vás, pode ser uma alma perdida. 
- Por acaso, tens medo? Tu o aventureiro? 
D. Rodrigo, coloca a capa e saem para o frio da noite. Avançam silenciosamente. Só se ouvem as aves noturnas e os seus passos. Este silêncio levou D. Rodrigo a refletir sobre a sua vida mundana, prometendo emendar-se. 
Chegados ao portal da igreja, o fidalgo estancou e o vulto sem rosto: 
- Entra comigo na igreja, está mesma na hora. 
Ouvem-se as doze badaladas. 
- Para onde vamos? 
O vulto deu uma sonora gargalhada, empurrando o fidalgo para o interior da igreja. 
- Vem conhecer o meu palácio. Eis a lousa onde moro. Vá, desce. 
- Para quê? 
-Tens medo? 
D. Rodrigo aceita o desafio. 
- Se mora na igreja não é uma alma penada. 
- Aí é que tu e todos os outros se enganam. Pensavam que fui bom em vida, mas Deus conhecia 
os meus erros e... condenou-me. 
- Condenou-te!? 
- Sim! Agora que troçaste de mim, quero que vejas os meus aposentos. 



- Não, não me posso enterrar vivo, é contra os preceitos de Deus. 
O vulto praguejou e disse: 
- O que te vale é essa cruz ao peito, senão obrigava-te. 
- Deus me valha! 
O vulto acalmou-se e confessou: 
- Tal como tu, fui aventureiro e leviano, desrespeitando as coisas sagradas. Quando vires um corpo sem vida, reza, pois a sua alma pode precisar das tuas orações. Que a tua alma ceda à caridade e compaixão para com os mortos. Que a tua alma ceda à verdade. As orações da tua irmã te salvaram. Vai, que a tua alma ceda ao orgulho, acolhendo o amor ao próximo. A voz calou-se e D. Rodrigo, meio desorientado, correu para sua casa, mas ouvindo repetidamente a expressão: 
- Que a tua alma ceda\ Que a tua alma ceda\ 
Ao vê-lo a irmã, que tinha rezado continuamente, abraça-o, chorando. 
- Graças a Deus voltaste! 
A partir de então, era habitual ouvir D. Rodrigo dizer, sem razão aparente: Que a tua alma ceda\ Que a tua alma ceda\ . O povo da região, ao ouvir isto, começou a tratá-lo por Almaceda. 

Passado algum tempo, D. Rodrigo restabeleceu-se, organizou a vida e distribuiu terras pelos pobres que pediam junto ao seu solar. Terão sido estas pessoas vindas de outras terras que começaram a identificar o local onde se fixaram como a Terra do Almaceda, que os vindouros passaram a denominar Almaceda em homenagem ao fidalgo que os tinha ajudado. 

(Adaptado de Marques, Gentil, Lendas de Portugal, Círculo de Leitores, Lisboa, 1997)

domingo, 24 de março de 2013

A Dama Branca



A Weisse Frau (Dama Branca) era um espectro que durante muitos anos apareceu em castelos reais alemães, sobretudo nos de Karlsruhe, Berlim, Bayreuth, Darmstadt e Neuhaus, na Boémia. Vestida de branco, era inofensiva, limitando-se a inclinar a cabeça quando se encontrava com alguém. Corriam, no entanto, rumores entre os Hohenzollerns, a família real da Prússia, de que ela era vista antes da ocorrência de catástrofes e mortes na família. Em Dezembro de l628, a Dama Branca apareceu no palácio real de Berlim e disse: -Vinde, julgai os rápidos e os mortos ! Eu aguardo o meu julgamento.» 

Uma lenda identificou-a com o espírito de uma mulher do século XV, Bertha, ou Perchta, von Rosenberg, de Neuhaus, que de noite visitava os quartos de bebés reais para embalar as crianças enquanto as amas dormiam. Quando certa vez uma ama, aterrorizada, a viu, ela disse: -Eu não sou, como tu, uma estranha entre estas paredes. Eu sou da família, e esta criança descende dos filhos dos meus filhos. 

Os Hohenzollerns explicavam a Dama Branca como sendo o fantasma da condessa Agnes de Orlamünde, emparedada viva por ter envenenado os próprios filhos. Era por vezes descrita vestida de preto e branco, as cores da Prússia. A sua aparição foi documentada pela primeira vez em 1486 no Palácio de Bayreuth, e diz-se que foi vista pela última vez em 1879. 

A morte de Frederico I, o primeiro rei da Prússia, em 1713 foi precipitada pela sua crença na Dama Branca. A sua segunda mulher, que sofria de uma loucura ligeira, costumava vestir-se de musselina branca. Certa tarde, escapou-se das suas aias e atravessou uma porta de vidro antes de entrar nos aposentos de Frederico. O rei acordou da sua sesta e ficou tão aterrorizado ao ver a aparição vestida de branco com sangue a escorrer pelo vestido que adoeceu. Morreu pouco depois, convencido de que a Weisse Frau o tinha amaldiçoado.

fonte


sábado, 11 de agosto de 2012

Lenda dos Sete Ais

Imogen Cunningham c. 1910-12

Destacado para ocupar o castelo de Sintra, D. Mendo de Paiva surpreendeu a princesa moura Anasir, que fugia com a sua aia Zuleima. A jovem assustada gritou um "Ai!" e quando D. Mendo mostrou intenção de não a deixar sair, outro "Ai!" lhe saiu da garganta.

Zuleima, sem lhe explicar a razão, pediu-lhe para nunca mais soltar nenhum grito do género, mas ao ver aproximar-se o exército cristão a jovem soltou o terceiro "Ai!".

D. Mendo decidiu esconder a princesa e a sua aia numa casa que tinha na região e querendo levar a jovem no seu cavalo, ameaçou-a de a separar da sua aia se ela não acedesse e Anasir deixou escapar o quarto "Ai!".

Pouco depois de se instalar na casa, a princesa moura apaixonou-se por D. Mendo de Paiva, retribuindo o amor do cavaleiro cristão que em segredo a mantinha longe de todos.

Um dia, a casa começou a ser rondada por mouros e Zuleima receava que fosse o antigo noivo de Anasir, Aben-Abed, que apesar de na fuga se ter esquecido da sua noiva, voltava agora para castigar a sua traição.

Zuleima contou a D. Mendo que uma feiticeira lhe tinha dito que a princesa morreria ao pronunciar o sétimo "Ai!".

Entretanto, Anasir curiosa pela preocupação da aia em relação aos seus "Ais", exprimiu o quinto e o sexto consecutivamente, desesperando a sua aia que continuou a não lhe revelar o segredo.

D. Mendo partiu para uma batalha e passados sete dias foi Aben-Abed que surpreendeu Anasir, que soltou o sétimo "Ai!", ao mesmo tempo que o punhal do mouro a feria no peito. Enlouquecido pela dor, D. Mendo de Paiva tornou-se no mais feroz caçador de mouros do seu tempo.

Fonte: Secreto Palácio de Sintra

domingo, 29 de julho de 2012

Lenda do Túmulo dos Dois Irmãos

APC

O Túmulo dos Dois Irmãos, localizado em Sintra, é um dos mais misteriosos monumentos medievais desta vila. 

"É conhecida esta sepultura pela denominação de Sepultura de Dois Irmãos, nome que já tinha no século XV, como consta de um instrumento daquela época.
Dizem os naturais que, o que dera origem a esta denominação fora a tradição que entre eles corre antiga de pais e filhos que passo a descrever como a ouvi a um velho de noventa anos todo inebriado da sua veracidade:
Dois irmãos traziam amores por uma donzela que por aqueles sítios habitava, ignorando ambos os amores um do outro. Acontecendo por uma triste fatalidade encontrarem-se os dois irmãos, em uma noite tenebrosa, debaixo do balcão do objecto que tão enfeitiçados os trazia, um deles, persuadido que o outro lhe disputava os favores da sua dama, corre cego e inconsiderado sobre ele, e o estende morto a seus pés, vítima de um frenético ciúme. Porém, qual é a sua desesperação, quando pela voz moribunda daquele que julga seu rival, reconhece ter sido assassino do seu próprio irmão, que muito amava e lhe expira nos braços!
Cheio de desespero, volta contra o peito o ferro fratricida, e a cai morto sobre o cadáver ensanguentado do irmão, preferindo uma morte pronta, a uma vida inconsolável, cheia de remorsos."

Lenda do Túmulo dos Dois Irmãos, Visconde de Jerumenha, Cintra Pinturesca - 1839

Fonte: Secreto Palácio de Sintra

Em 1830, por ordem de D. Miguel, o túmulo foi aberto e constatou-se a existência de um único esqueleto...

Para quem quiser conhecer melhor este mistério, poderá ler dois artigos muito interessantes sobre o mesmo aqui e aqui.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Lenda da Donzela Adormecida

Enoki Toshiyuki

Havia frio naquela noite de Inverno, no lugar de Cavez. Matilde ouvia o vento uivar lá fora e arrepiava-se, mais de medo que de frio. Nos lamentos sibilantes da tempestade em fúria, ela escutava sons como vozes humanas. Estremecia de terror. Tapava os ouvidos e encolhia-se na cadeira, deixando o bordado por continuar.
Arnaldo, o noivo de Matilde, ria-se da puerilidade da sua bem-amada:
— Querida, deixai de ser criança! De que tendes medo quando o vento sopra?
Ela estava pálida.
— Não sei! Parece-me escutar vozes do Além...
Ele riu.
— E que vos dizem essas vozes?
A jovem encolheu os ombros.
— Não as entendo. Falam todas ao mesmo tempo!
O riso tornou-se geral. O pai e a mãe de Matilde abanavam a cabeça, descontentes. Alguém insinuou, irónico:
— Cuidado, Matilde! Talvez sejam as almas do Purgatório!
A rapariga levou as mãos ao rosto. O medo tornava-a branca como cera. Então, Arnaldo deixou de rir. Chamou-a com ternura:
— Matilde, olhai para mim! Julgais-me insensato?
Ela murmurou:
— Não.
— Então, se vos digo que o vento sopra porque a tempestade é soberana nestes meses de Inverno, por que estais assim tão medrosa?
Ela murmurou, com um suspiro:
— Já sei que não vou dormir esta noite!
— E porquê? Receais que eu chegue a casa muito molhado da chuva e possa adoecer?
— Isso também me aflige. Mas...
— Mas o quê?
— Mas não é só isso. Eu oiço vozes quando o vento sopra!
Sorrindo para disfarçar a apreensão que a filha lhe causava, a mãe de Matilde aconselhou:
— Pois bem, minha filha. Tenta orar pelas almas do Purgatório quando essa obsessão te domina, e verás que tudo correrá bem!
Matilde agradeceu. O conselho da mãe ia ao encontro dos seus pensamentos. Pegou no bastidor para continuar o bordado. Porém, o vento voltou a uivar lá fora. Era um grito de alerta, que ficava repercutindo.
Matilde deixou cair o bordado. Olhou o noivo, gritando:
— Não, Arnaldo! Não saireis daqui!
Arnaldo pegou-lhe nas mãos, assustado.
— Que tendes, Matilde? Bem vedes que não poderei ficar aqui toda a noite!
Ela olhava-o aterrorizada.
— Mas não é isso! É a guerra! Prometei-me que não ireis para a guerra!
Os que assistiam a esta cena entreolharam-se. Sem dúvida, Matilde estava doente!
Tentando acalmá-la, Arnaldo provocou uma explicação:
— Querida! Porque falais em guerras, se a única que existe, lá fora, é a tempestade?
Matilde abanou a cabeça. Tinha os olhos rasos de lágrimas.
— Não, não é só a tempestade! Eu ouvi! Ouvi distintamente!
— E o que ouvistes?
— Que vós… vós ireis para a guerra... contra os Castelhanos... e... e vos perdereis...
— Eu?
Matilde chorava.
— Sim, vós! O nosso rei ganhará a batalha que vos perderá!
Arnaldo franziu as sobrancelhas, apreensivo.
— Querida! Algo vos preocupa e põe nervosa! Abri-vos comigo. Contai-me o que vos aflige, e juro que não me rirei de vós.
Matilde, olhos fixos no mosaico do chão, respirou fundo. Tinha olheiras roxas a circundar-lhe os olhos. A voz tremia-lhe:
— No vento, quando sopra forte, há vozes distantes que me falam. Umas têm frases de desespero, outras de consolação. Oiço chorar e rir. Hoje, porém, falaram-me de vós. Disseram-me que não vos deixasse partir para a guerra com Castela, porque vos perderíeis na batalha que o rei Afonso IV ganharia!
Arnaldo, sem se alterar, tomou as mãos geladas de Matilde.
— Querida! Porque acreditais nessas vozes, se não estamos agora em guerra?
Ela não respondeu. Sentia-se bem ao ouvir a voz do noivo a falar-lhe com ternura. O vento amainara. A tempestade seguia novos rumos. Então, o pai de Matilde lembrou, olhando Arnaldo:
— Creio que será prudente aproveitardes esta aberta para regressardes a casa. Matilde precisa descansar.
Ela agarrou fortemente as mãos do noivo.
— Não! Não me deixeis! Ninguém mais me compreende!
A mãe da jovem aproximou-se.
— Querida filha, vai descansar! Arnaldo voltará aqui amanhã!
Ajudada por Arnaldo, Matilde levantou-se do caldeirão. Parecia, de facto, doente. O noivo beijou-lhe a ponta dos dedos e despediu-se para sair. Mal o jovem cavaleiro saiu a porta, a donzela caiu desmaiada.



No dia seguinte, quando Arnaldo se dispunha a montar a cavalo para ir ver a noiva, um mensageiro chegou da corte. Trazia a notícia de que el-rei desejava quebrar pazes com Castela e fazer novas incursões em território fronteiriço. Noutra ocasião qualquer, o caso não o teria incomodado; mas nesse dia, impressionado ainda com o que se passara na véspera, nem teve coragem para se despedir de Matilde. Escreveu-lhe uma longa carta, renovando-lhe todas as suas juras de amor e pedindo-lhe perdão por não se avistar com ela mais uma vez antes de cumprir as ordens de el-rei. Procurou, contudo, o pai de Matilde e fez-lhe entrega de um anel de família, dizendo:
— Senhor, lembrai a vossa filha que desejo encontrá-la bem de saúde quando voltar, o que farei dentro de alguns meses. Isto não é propriamente uma guerra: é uma pequena incursão em terras vizinhas. Ajudai-a a saber esperar e incuti-lhe confiança!
O pai de Matilde sorriu.
— Ficai descansado. Tentarei velar por minha filha o melhor que puder. Mas tende prudência, porque desde este momento começo a sentir-me impressionado com o que se passa com Matilde!
Despediram-se como bons amigos. E Arnaldo partiu a caminho da corte, onde iria juntar-se ao exército real.

A luta era dura. A sorte nem sempre se mostrava risonha aos Portugueses. Ora avançavam, ora recuavam. Mas de súbito, numa arrancada forte, levaram os Castelhanos de vencida. A alegria foi imensa. O saque livre começou. Os soldados desataram a apoderar-se de todos os objectos, valiosos ou não, existentes nas casas. Arnaldo viu-se no meio dessa gente de apetites desenfreados. Num solar abandonado, Arnaldo descobriu um valiosíssimo cálice que pertencia à capela contígua. O desejo de se apoderar desse objecto e de um quadro de maravilhoso desenho tomou-o com desespero. E não resistiu à tentação. Levou consigo o cálice e o quadro e foi enterrá-los no campo, debaixo de uma rocha, para que ninguém lhes tocasse até que ele pudesse voltar à sua terra. Porém, nesse mesmo dia, numa pequena escaramuça de prisioneiros, Arnaldo foi ferido de morte!

A Primavera chegara. O vento já não zunia e Matilde, embora triste e desassossegada, esperava confiante a volta de Arnaldo. Mas nessa noite ela já não dormira bem. Como D. Isabel — a mãe de Matilde — confiasse ao esposo a sua apreensão pela saúde da filha, este respondeu:
— Não vos aflijais por isso. Creio que vamos ter mudança de tempo, e a nossa filha é muito sensível aos temporais.
Na verdade, um vento leve começava a levantar-se. Nos caminhos as folhas dançavam e erguiam-se nuvens de pó. Pálida, inquieta, Matilde foi sentar-se perto duma janela. Bem tentou sua mãe dissuadi-la de ficar ali. Mas ela insistiu, pedindo que a deixassem meditar. Receando qualquer recaída, a mãe de Matilde ficou no salão, fingindo-se interessada pelo bordado, mas na verdade observando a filha.
Lá fora, o vento soprava cada vez mais forte. Zunia impertinente. De súbito, Matilde deu um grito e caiu desmaiada.

William Morris - The wood beyond the world - 1894

Esteve assim largo tempo, sem sentidos, a jovem Matilde. Quando acordou, parecia mais calma. Não havia lágrimas nos seus olhos, mas a sua palidez impressionava. A mãe inclinou-se sobre ela, indagando:
— Minha filha, que tens?
Ela suspirou. A sua voz era débil.
— Senhora! Acabo de perder o meu noivo… e ele quase se perde também!
— Que dizes tu?
— Arnaldo morreu. Feriram-no de morte hoje mesmo!
— Quem to disse, se não veio aqui ninguém?
— As vozes que o vento trouxe!
— Filha, não exageres! Isso pode ter sido apenas impressão tua!
— E foi apenas impressão minha, a ida de Arnaldo para esta batalha?
A mãe de Matilde calou-se. A jovem fechou os olhos. Parecia extremamente cansada. D. Isabel pediu:
— Tenta dormir, minha filha. Talvez te faça bem.
Matilde não respondeu. Parecia dormitar. De repente sentou-se na cama, olhando a porta. Era quase rouca a sua voz:
— Arnaldo! Arnaldo! Que me quereis? Estais tão ferido!
Houve um pequeno silêncio. Ela tornou:
— Em que posso eu ajudar-vos?
Calou-se, como se houvesse um diálogo do qual só se entendesse a voz de Matilde. Ela continuou:
— Quereis então que vá a essa terra?
Novo silêncio.
— Pois irei, Arnaldo, irei! Onde quereis que coloque o cálice de ouro e o quadro?
Nova pausa. E Matilde fez nova pergunta:
— Entrego-os no solar ou na igreja?
— …
— Está bem. Irei à igreja.
— …
— Bem sei. Pedirei licença para me ausentar.
— …
— Oh, Arnaldo! Faço-vos tudo isso de boa vontade, se do meu esforço resultar para vós a salvação. Mas atendei ao meu sofrimento sem a vossa companhia, e pedi a Deus que me leve também!
— …
Matilde sorriu. Deitou-se. Fechou os olhos e disse para a mãe, que estava muda de espanto:
— Preciso dormir um bocadinho. Logo já acordarei bem. Amanhã iremos à corte, e depois necessito que o pai me acompanhe numa pequena viagem.
D. Isabel nem respondeu. Para ela, a filha delirava! Matilde fechou os olhos e adormeceu calmamente.
Foi grande a dificuldade da jovem para convencer os pais a acompanharem-na a terras de Castela. Porém, quando verificaram que ela, em determinado local, desenterrara com a ajuda de dois homens um preciosíssimo cálice de ouro e um quadro antigo, deixaram de ter dúvidas: Matilde era dotada de algo de estranho que lhe permitia comunicar com o Além. A ideia de que a perderiam em breve custou-lhes muito, mas até a isso se habituaram. Matilde não nascera para a Terra. Matilde, bela e boa como poucas jovens da sua idade, fora sempre diferente.
Depois de entregar o cálice e o quadro, em nome do cavaleiro português morto depois do combate, Matilde regressou a casa. Meteu-se na cama e pediu que a deixassem dormir. Desse sono tranquilo não voltou a acordar. E o povo de Cavez, durante muitos anos ainda, apontava a casa da donzela adormecida, com um misto de piedade e receio. E quando o vento soprava com fora, ficavam atentos às vozes estranhas que também julgavam ouvir...


MARQUES, Gentil, Lendas de Portugal ,Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 309-31

segunda-feira, 9 de abril de 2012

As Bruxas e o Vento

Fay S. Lincoln, c 1934


As bruxas é coisa má... São almas danadas, gente má que nem o diabo quis no inferno! Uma vez, isto era nos tempos antigos, quando o meu avô era moço. Havia cá um rapaz, o Lino, que dizia que não tinha medo de nada, nem das bruxas. Uma vez estava ele a guardar as cabras do senhor professor mais o meu avô, e apareceu uma... E das grandes, sim das grandes! Porque há bruxas de muitos tamanhos, aquela parecia que tinha vinte lá dentro, vinte almas a gritar e a gemer. Levantou-se uma vintania que até deitou abaixo um carvalho maior que esta casa.
O Lino levanta-se e pôs-se a chamar nomes à bruxa. Olha, ela levantou-se no céu e levou-o no meio do vento. Encontraram-no no Pico da Velha, no dia seguinte. Estava na ponta do Pico, cheiinho de medo que nem falava. Ficou tão gago que não se percebiam duas palavras direitas, e assim ficou até morrer de velhice.


Fonte: SALVADO, Maria Adelaide Neto Remoínhos, Ventos e Tempos da Beira s/l, Band, 2000 , p.46-47

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Lenda da Estranha Visita

Jerry Uelsmann

Embora não se passe em Portugal, esta lenda vive arreigada no espírito do nosso povo. A bem dizer, foi ele que a criou. De modo que tem o seu justo lugar entre as lendas de Portugal.

Lê-se no Novo Testamento, no Evangelho de N. S. Jesus Cristo, segundo São Mateus:
«Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. «Onde está o rei dos Judeus que acaba de nascer? — perguntavam. — Pois vimos a Sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.» Ao ouvir tal notícia o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, pois assim está escrito pelo profeta: “E tu Belém, terra de Judá, de nenhum modo és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que apascentará o meu povo de Israel.”»
«Então, Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exactas sobre a data em que a estrela lhes havia aparecido. E enviando-os a Belém disse-lhes: “Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do Menino e, depois de O encontrardes, vinde comunicar-mo, para que também eu vá adorá-Lo.” Após as palavras do rei, puseram-se a caminho e a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou. Ao ver a estrela sentiram grande alegria e, entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se O adoraram e, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho a não voltarem para junto de Herodes, regressaram à sua terra a por outro caminho.»

A noite caíra, serena. Céu azul-escuro, coalhado de estrelas cintilantes. Noite fria, apesar de o vento estar ausente.
Dentro do pobre casebre onde o Deus Menino nascera, estavam apenas José e Maria junto do pequeno Jesus. Os reis magos haviam saído de lá quando ainda a luz do dia beijava a pobre cabana. Agora, porém, estavam sós. Sós e cansados. As visitas haviam sido muitas. Necessitavam dormir. O Menino fechara os olhitos. Sorria levemente, como em sonhos. Iam apagar a candeia quando, de súbito, mais alguém bateu à porta. José e Maria entreolharam-se, quase assustados. Quem poderia ser a horas tão altas? As batidas repetiram-se. José levantou-se da enxerga e perguntou:
— Quem bate?
Ninguém respondeu. Apenas o Menino choramingou, o que fez Maria debruçar-se sobre Ele, acariciando-O. Mas Ele parecia inquieto. José abriu a porta. Aproximou a candeia. Então ficou perplexo. Uma velha, muito velha, como que carcomida pelo tempo, olhava José com um olhar brilhante — como se tivesse apenas vinte anos.
José perguntou:
— Que quereis?
A velha não respondeu.
José tornou:
— Vindes de muito longe e quereis descansar?
De novo ficou sem resposta. Mas a estranha visita já não reparava em José. Olhava o Menino deitado nas palhinhas. Olhava-O numa expressão de amor e angústia, ao mesmo tempo.
José perguntou ainda.
— Quem sois?
A velha entrou devagar, de joelhos em terra, quase rastejando. Aproximou-se do Menino. Tinha lágrimas nos olhos e não O desfitava.
Maria, que a observava em silêncio, perguntou então, indicando Jesus:
— Vindes vê-Lo, também?
Parecia não os escutar, a estranha visita. José insistiu.
— Estais cansada. Descansai um pouco. Talvez queirais comer alguma coisa...
Só os olhos tinham vida, naquele rosto quase mumificado. E os olhos falavam silenciosamente com o Deus Menino, que lhe sorria, complacente.
Calaram-se, também, Maria e José. Havia algo de dramático naquela muda adoração. E o Menino não dormia. Parecia até compreender aquela voz interior. Às vezes, a estranha visita curvava mais a cabeça. E as lágrimas inundavam as suas mãos gastas pelo rodar dos anos. Quando isso acontecia, o Menino deixava de sorrir. E uma expressão triste toldava o Seu infantil semblante. Depois, a estranha visita olhava-O de novo, mais calma, e o Menino voltava a sorrir.
Assim foram decorrendo as horas, pela noite sem lua. E nem uma palavra voltou a ser pronunciada dentro da cabana onde Jesus havia nascido. Porém, quando a manhã chegou, quando os primeiros raios de Sol passaram através das frestas e da porta, agora entreaberta, a velha rompeu a soluçar, dolorosamente. As lágrimas já não caíam nas suas mãos trémulas, mas nos pezinhos do Menino.
Vendo-a nesse estado de desolação, Maria apiedou-se. Aproximou-se da velha. Tocou-lhe num ombro. Ela, porém, fugiu ao seu contacto, como se fosse doente e não a quisesse contagiar. José quis ajudar Maria e perguntou:
— Mulher, porque chorais assim? Dizei-nos porquê e talvez possamos ajudar-vos.
Como resposta, a estranha visita depositou algo aos pés do Menino, e saiu de costas, rosto quase em terra, rastejando...
José foi até à porta, mas no caminho a velha sumira-se, como se o vento — que não soprava — a tivesse levado. Então, José ouviu Maria chamar por ele:
— José! Anda ver o que a estranha visita deixou ao Menino!
José olhou. Os seus olhos piscaram, como se não acreditassem no que viam. E exclamou:
— Uma maçã!
Maria anuiu:
— Sim, uma maçã! E chorava, a pobre! Chorava arrependida!... Que pensas?
José volveu a olhar Maria:
— Penso que ela era...
Não terminou a frase. Maria concordou.
— Era ela, decerto! Veio também adorar o Menino… e pedir-Lhe perdão...
Olharam ambos o berço improvisado. O Menino sorria. Sorria como a dizer-lhes que tinham identificado a estranha visita.
O Sol brincou com os caracóis do Seu cabelo. Esperneou o Menino, contente desse contacto. Sorria, feliz.
A seu lado Maria e José olhavam essa maçã que o Sol agora doirava, sem se atreverem a tocar-lhe...

Assim se perpetuou, através dos tempos, a ideia de que a estranha visita teria sido a própria Mãe Eva, minada de remorsos — símbolo vivo das consciências atormentadas que depõem o peso e o fruto da sua culpa aos pés divinos de Jesus.


MARQUES, Gentil, Lendas de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 345-347

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O porco que se transformou numa moça


"O meu sogro era um homem que madrugava muito. Teve 24 filhos, era carpinteiro e tratava de muitas terras para poder governar a casa. Ia então ele de madrugada, a passar ao pé da barragem do Peneireiro, onde tratava de uma terra, e, chegando junto ao ribeiro, viu uma manada de recos num lameiro, pequenos e grandes. E, claro, preparou-se logo pra deitar as mãos a um. Como tinha muitos filhos, bem jeito lhe dava agarrá-lo. Só que, ao tempo que o ia agarrar, apareceu-lhe uma gaija em lugar do reco e a dizer:
— Crí’ós![cria-os]
Queria ela dizer, nat’ralmente, que, se quisesse porcos pra comer, que os criasse. E neste entretanto, os outros transformaram-se também numas poucas de moças e desapareceram a dançar. E o pobre homem ficou lá sozinho. E desconsolado. Contou isto a vida toda."


PARAFITA, Alexandre, Património Imaterial do Douro (Narrações Orais), Vol. 2, Peso da Régua, Fundação Museu do Douro, 2010 , p.245

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A eira onde as bruxas se vão esfregar

Albert Joseph Fenot

Sempre ouvi dizer aos mais antigos que na Eira do Monte, que pertence a Paradela mas fica entre dois caminhos, ali à saída de Sendim, é onde as bruxas se vão esfregar.
Uma ocasião, um homem disse assim p’ra outro, amigo dele:
— Olha que a tua mulher também é bruxa!
E ele:
— Ai não, não é! Da minha mulher não se consta isso!
Mas, pelo sim pelo não, a partir daí o homem pôs-se mais atento aos hábitos dela. E numa certa noite, ficou acordado, mas fazendo que dormia, e ouviu-a levantar-se da cama e dizer:

- Eu te benzo, belbezu,
Com as fraldas do meu cu.
Enquanto eu não vier,
Não acordes tu!

Ela então lá foi à vida dela, juntar-se com as outras e esfregar-se na tal laje. Quando veio, o homem estava à espera e viu que trazia o rabo todo queimado de tanto se esfregar.
P’ró outro dia, ao encontrar o amigo, diz-lhe então:

—Agora sim, já estou fiado,
Que ela traz o cu todo queimado.


PARAFITA, Alexandre, Património Imaterial do Douro - Narrações Orais (contos, lendas, mitos) Vol. 1, Peso da Régua, Fundação Museu do Douro, 2007 , p.157


terça-feira, 23 de agosto de 2011

A bruxa e os dois ladrões


Dois ladrões lembraram-se, certa noite, de assaltar a casa de uma mulher que vivia sozinha e que, ao que lhes constava, era pessoa de grandes teres.
Julgando-a a dormir, os ladrões subiram sorrateiramente a um janelo e entraram na casa, onde vasculharam tudo o que puderam à procura de coisa que valesse a pena roubar. A dada altura, porque o barulho que faziam já era muito e a dona da casa não dava qualquer sinal, os ladrões aperceberam-se de que, afinal, não se encontrava lá mais ninguém. Podiam, por isso, roubar à vontade.
- Onde teria ela ido a estas horas? — perguntaram um para o outro.
Nisto, um deles, ao remexer por baixo do escano, junto à chaminé, encontrou uma estranha taça, com um líquido meio amarelado, que tanto podia ser azeite como podia ser mel, ou coisa parecida. E logo desconfiaram que a mulher era uma bruxa, e que, àquela hora, teria ido embogar-se a qualquer lado. A explicação estava naquela taça que tinha o óleo com que ela se untava antes de partir.
Mas a curiosidade tentou-os. Os dois ladrões resolveram untar-se também para verem o efeito, e, mal acabaram de o fazer, voaram ambos pela chaminé, indo pousar ao cimo da torre da igreja, de onde não puderam descer. Na manhã seguinte, quando as pessoas saíam de casa para o trabalho, deram pela presença dos dois homens empoleirados no campanário e todas desataram em grandes gargalhadas.
- Tirem-nos daqui! Tirem-nos daqui! — gritavam eles.
- E como diabo é que vós fostes aí parar? — perguntavam as pessoas, ao mesmo tempo que procuravam uma escada comprida para os tirarem dali.
Eles, no entanto, não deram qualquer explicação. Se o fizessem teriam de confessar que haviam estado a roubar uma casa na aldeia. E, assim, nem eles acusaram a mulher como bruxa, nem esta os acusou a eles como ladrões.

Local: Vinhais, Bragança
PARAFITA, Alexandre, O Maravilhoso Popular - Lendas, contos, mitos, Lisboa, Plátano Editora, 2000

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

As Arcas de Montemor

Conta a lenda que no castelo de Montemor-o-Novo estão enterradas duas arcas: uma cheia de ouro, a outra cheia de peste. Há muito, muito tempo atrás, no tempo dos Mouros, era alcaide de Montemor um viúvo austero, habituado à dura vida fronteiriça, onde eram mais frequentes os tempos de luta do que os momentos de repouso e prazer. Este homem tinha uma única filha que estranhamente amava, pois preferia mantê-la oculta de toda a gente, a ponto de nem aias nem amigas ter consigo.

A menina foi crescendo e o pai não se dava conta - ou talvez, quem sabe, preferisse não saber. Certo dia, um dos seus mail leais cavaleiros olhou-a tão moça e tão linda que se apaixonou. Mas como visse que o alcaide continuava a guardá-la menina, o jovem foi e disse-lhe:
- Senhor, vossa filha é já mulher! Breve virá alguém a levá-la!
- O quê?! Estás louco? Como podeis dizer tal coisa de uma criança?
- Olhai bem, senhor, olhai e vede onde esteve a criança...
- Cala-te!! Ninguém a levará daqui, jamais! Não tornes a dizer-me tais coisas, a menos que queiras ver a tua cabeça rolar das muralhas do castelo!
- Mas, senhor... - insistiu o cavaleiro com mil argumentos vivos.
Insistiu tanto, tanto, que o alcaide se enfureceu e o trancou nas masmorras: no dia seguinte, veria a sua própria cabeça rolar muralhas abaixo.


Foi privada, esta conversa, mas, como por vezes as paredes dos castelos têm ouvidos, toda a gente veio a saber o que se passara. Também a filha do alcaide teve conhecimento da brava discussão, que, sem querer nem saber, motivara e, condoída, decidiu interceder junto do pai. Este, porém, não se dignou a ouvi-la, nem resposta lhe deu, deixando-a especada e espantada porque nunca assim o vira.

Foi só então que se decidiu a descer às masmorras. Falaria com o condenado sem que ninguém o soubesse, nem mesmo o pai. Lá onde o sol nunca fazia visitas, o cavaleiro esperava condenado e sem medo o dia seguinte, passando a sua última noite que era a véspera da grande noite sem retorno. Pensava nas sem-razões daquela conversa com o alcaide. Afinal, a moça nunca olhara para si, nem mesmo adivinhara o grande amor que há tanto o abrasava. E contudo sorria, sorria sem pena e sem medo, dentro da noite.

Tão longe de tudo estava que quando ouviu rodar a chave na fechadura da cela se levantou para acompanhar sem receio o algoz que esperava. Atónito, porém, vislumbrara no contraluz um vulto inesperado de mulher: era ela, aquela filha do alcaide, a dos olhos abrasados de mulher.

Por segundos nem um nem outro souberam o que dizer-se. Ela acabou por dizer-lhe coitado! Ele acabou por responder-lhe desta grã coita de amor! Porque naquela hora tudo lhes era permitido e inconsequente, por ser a noite da véspera da grande noite silenciosa. Ouviram-se ambos e descobriram-se silenciados há muito. Ganhou o cavaleiro aquela batalha que já desistira de lutar, e a moça, essa, leu no seu livro próprio o que nunca soubera encontrar.

E fugiram. Fugiram com tantos cuidados que só na hora dos algozes o vieram a saber. E então foi o pânico geral: como dizer-lhe a ele, a esse alcaide irredutível, as ousadias dos amantes?! Só mesmo o carrasco que sabia cortar cabeças teve a coragem de ir-se a ele e contar-lhe.

Empalideceu o alcaide e esvaziaram-se-lhe os olhos de espanto. Pouco a pouco a fúria começou a subir-lhe o rosto, apoderou-se primeiro dos lábios, que tremeram, incharam depois as narinas, nublaram-se os olhos de ódio, chorou silencioso e agora eternamente só o seu cérebro enlouquecido. Por fim, quando tudo aquilo lhe chegou à voz, bradou:
- Vivos, quero-os vivos! Vou divertir-me finalmente! Ah, ah, ah! Vamos todos aprender a brincar! Ah, ah! Vai depressa, carrasco, vai depressa e traz-me vivos esses meninos que querem brincar comigo!

Partiu o carrasco levando consigo gargalhadas insanas rodopiando-lhe aos ouvidos. Ia com medo e com pena, e com inveja também: era bom fugir como aqueles dois que haviam fugido das suas masmorras e algemas pesadas. Mas ele, ele, como poderia fugir à sua masmorra de adaga, às suas algemas construídas de mil cabeças odiadas pelo seu senhor?! Ah, que inveja lhes tinha, a eles que se queriam inocentes até acharem culpas só de si mesmos!


Achou-os porque era fácil achá-los. Trouxe-os pela mão à presença do senhor de Montemor, que entretanto gastara todo o ódio, todo o medo amealhara no convencimento da solidão irremissível. Por isso, talvez, o terem-lhe encontrado uns olhos vazios e mortos.
- Aqui estão eles, senhor.
- Não vejo! Onde?! Sombras, sombras horríveis... Não os vejo... Só estas sombras, e tenho medo!
- Pai, pai... perdoa-me! Perdoa-me pelo que eu nunca diria! Perdoa-lhe pelo que ele sabia e te disse!
- Senhor, aqui estamos... Casámos... Dá-nos a tua bênção, que queremos viver na paz e contigo!

De repente o velho começou baixo a falar, sozinho:
- Casados?! Nunca! Pensam que eu conheço o perdão, que estou um pouco velho, um pouco louco!
E acrescentou, num tom em crescendo: - Casados? E querem-se felizes? Ah, ah, ah, amaldiçoados, isso sim! Vós e todos os vossos até ao fim dos tempos! Mas... aqui tendes a minha prenda, gozai-vos  dela. Olhai bem, olhai e escolhei porque uma destas arcas está cheia de ouro e a outra... de peste! Escolhei, escolhei... ah, ah, ah!

Assustados, fugiram ambos quando o velho louco se chegou bem perto deles com o seu hálito de insânia. Nunca mais ninguém os viu e até hoje ainda ninguém ousou abrir as duas arcas nupciais enterradas no recinto do velho castelo, uma cheia de ouro, outra cheia de peste.


Fernanda Frazão, Lendas de Portugal

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Senhor da Ribeira de Frielas


A ribeira de Sacavém, ao passar por Frielas, toma o nome desta povoação, hoje praticamente dentro da Grande Lisboa. Contudo, na época em que se passa esta lenda, Frielas era um arredor saloio da capital, no meio de hortas e descampados aqui e ali salpicados de pequenas povoações de impecável brancura.

Conta a tradição que uma tardezinha, era lusco-fusco, quase noite, vinha um homem a descer pelo caminho que ia do Casal do Monte até à igreja da Póvoa de Santo Adrião quando, ao chegar à encruzilhada, viu um cabritinho aos saltos na ribanceira. O homem parou e disse para consigo:- Olha que cabritinho tão bonito! Mas como é que o animal anda aqui sozinho a estas horas?

Foi-se chegando, devagarinho para não o assustar, e quando o teve ao alcance da mão começou a acariciá-lo; e o cabritinho a deixar, com ar manso e satisfeito. O homem decidiu então levar o animal para casa e meteu-o debaixo do braço, continuando o seu caminho.

Poucos passos adiante, já não podia com o braço, cansado com o peso do bicho. Passou-o para o outro lado e, daí a nada, a mesma coisa. Com um suspiro de desânimo, arriou o cabrito, enquanto dizia:
- O raio do cabrito sempre pesa que parece que tem chumbo! Nada, o melhor é levá-lo às costas...

Pô-lo às costas e retomou fôlego e caminho. Mas o animal cada vez pesava mais! No sítio a que se chamava Alto do Pinheiro Torto por causa de um pinheiro que lá havia e não era como os outros porque o tronco, a meia altura, quebrava para baixo e depois tornava a subir, fazendo um feitio como que de sela, nesse sítio, o homem já não se podia mexer, tal era o peso do animal. Subitamente, atravessou-lhe a mente o pensamento de que ali havia «história» - humm, um animal tão pequeno! - e atirou com o cabrito para o meio do chão:

- Vai-te embora, diabo, que és coisa ruim!. ..
O bicho abalou logo a fugir e então é que o homem viu que era, na realidade, o Diabo - que até fazia faíscas no chão!
- Ora até que enfim que achaste alguém que andasse contigo às costas, mofino! - gritou-lhe de longe o homenzinho, com um certo tom de alívio, apesar de no fundo se sentir um nadinha defraudado.

Segundo a lenda, o Diabo aparecia todas as tardes na encruzilhada dos quatro caminhos e foi para obstar às suas marotices que alguém mandou construir o nicho com o Senhor, a quem chamaram da Ribeira. Desde então o Diabo não voltou mais a aparecer na ribeira de Frielas.

Este nicho foi parcialmente destruído quando da implantação da República. Há alguns anos atrás, ainda se viam ao pé dele os restos da cruz cimeira de calcário e conservava a gradezinha de ferro a fazer de porta. Dentro estava a imagem do Senhor, alumiada com uma lâmpada, e as esmolas eram deitadas através da grade para uma covinha no fundo.


Fernanda Frazão, Lendas Portuguesas

sábado, 25 de junho de 2011

À procura das mouras encantadas...


As moiras ou mouras encantadas são espíritos, seres fantásticos com poderes sobrenaturais do folclore popular português. São seres obrigados por oculta força sobrenatural a viverem em certo estado de sítio como que entorpecidos ou adormecidos, enquanto determinada circunstância lhes não quebrar o encanto. 

Segundo antigos relatos populares, são as almas de donzelas que foram deixadas a guardar os tesouros que os mouros encantados esconderam antes de partirem para a mourama. As lendas descrevem as mouras encantadas como jovens donzelas de grande beleza ou encantadoras princesas e perigosamente sedutoras. Aparecem frequentemente cantando e penteando os seus longos cabelos, louros como o ouro ou negros como a noite, com um pente de ouro, e prometem tesouros a quem as libertar do encanto.


Podem assumir diversas formas e existe um grande número de lendas, e versões da mesma lenda, como resultado de séculos de tradição oral. Surgem como guardiãs dos locais de passagem para o interior da terra, os locais "limite", onde se acreditava que o sobrenatural podia manifestar-se. Aparecem junto de nascentes, fontes, pontes, rios, poços, cavernas, antigas construções, velhos castelos ou tesouros escondidos.

Julga-se que a lenda das mouras terá a sua origem em tempos pré-romanos. As mouras encantadas apresentam várias características presentes na Banshee das lendas irlandesas. Também na mitologia basca, os Mairu (mouros) são os gigantes que construíram dólmens e os cromeleques e na Sardenha podemos encontrar os domus das Janas (casas das fadas). Na Península Ibérica, as lendas de mouras encantadas encontram-se também na mitologia galega e asturiana. Na tradição oral portuguesa, as Janas são uma outra variante de donzelas encantadas.


Especula-se que o termo moura (moira) possa derivar da palavra grega "moira" (μοίρα), que literalmente significa "destino", e das Moiras, divindades originárias da mitologia grega. Outra corrente indica que a origem poderá vir das palavras celtas "mori", que significa mar, ou "mori-morwen", que designa sereia, provavelmente relacionando as mouras com as ondinas ou as ninfas, os espíritos sub-humanos que habitavam nos rios e nos cursos de água.

As variantes da lenda

A Princesa Moura é uma muçulmana encantada que habita um castelo e se apaixona por um cavaleiro cristão do tempo da Reconquista. A Lenda da Moura Salúquia é uma outra variante: em vez de um cristão, o amor da Princesa Moura é um mouro. Muitas destas lendas tentam explicar a origem de uma cidade e evocam personagens históricas, outras lendas apresentam um carácter religioso como acontece na lenda de Oureana.


No contexto histórico, os lugares, as pessoas e acontecimentos situam-se num mundo real, e existe uma localização temporal bem definida. No entanto, é possível que factos reais se tenham simplesmente fundido com antigas narrativas lendárias.

A Moura-fiandeira transporta pedras sobre a cabeça e fia com uma roca à cintura. A tradição popular atribui a estas mouras a construção de castros, citânias, e outros monumentos megalíticos. As moedas antigas encontradas nas citânias e castros eram chamadas de "medalha das mouras". A Pedra Formosa encontrada na Citânia de Briteiros terá sido, segundo narrativas populares, levada à cabeça para este local por uma moura que fiava uma roca.


Quem se sentasse numa Pedra-Moura ficaria encantado, ou se alguma pedra encantada fosse levada para casa, os animais poderiam morrer. As "Pedras-moura" guardavam riquezas encantadas. Existem várias lendas em que a moura, em vez de ser uma pedra, vive dentro de uma pedra. Na tradição popular diz-se que no penedo «entra-se para dentro» e «sai-se de dentro», dizer possivelmente relacionado com as lendas das mouras. A moura é também descrita a viajar para a mourama, sentada numa pedra que pode flutuar no ar ou na água. Dentro de grutas e debaixo das pedras, muitas lendas falam que existem palácios com tesouros.

A Moura-serpente é uma moura encantada que pode tomar a forma de uma serpente. Algumas destas mouras serpentes, ou mouras-cobra, podem ter asas e podem aparecer como meio mulher meio animal, como na lenda da serpente de Noudar ou do Monte d'Assaia. A Moura-Mãe toma a forma de uma jovem encantada que está grávida, e a narrativa centra-se na busca de uma parteira que ajude no nascimento e na recompensa que lhe é dada. A Moura-Velha é uma mulher idosa; as lendas em que aparecem mouras com figura de velha não são frequentes no nosso país.

Elementos habituais da lenda

O ouro das Mouras pode aparecer em variadas formas: figos, pedras, carvões, saias, meadas, animais e instrumentos de trabalho. Existem diferentes meios de se obter o ouro: pode ser oferecido pela moura como recompensa, roubado, ou achado. Frequentemente está dentro de um vaso, escondido dentro de panelas enterradas ou outros recipientes. Habitualmente, é no dia de São João que se acredita que as mouras aparecem com os seus tesouros, quando se pode quebrar o seu encantamento.


Algumas lendas têm este dia em que a moura encantada espalha os figos num penedo, ao luar. Noutras variantes, a moura espalha os figos ou a meada de ouro ao sol em cima do penedo. Estas lendas estão possivelmente relacionadas com a tradição popular de, nalgumas regiões, apanhar-se o figo lampo no dia de São João, um figo branco que se levava de presente. Este dia marca a data do solstício de Verão, sendo a sua referência talvez a reminiscência de algum culto solar pagão.

Uma fonte é um dos locais que as mouras aparecem frequentemente, muitas vezes como serpentes. Muitas vezes eram atribuídas virtudes mágicas às suas águas, como na Fonte da Moura Encantada. Também é do costume popular dizer de quem casou em terra alheia, "bebeu da fonte" e ficou enamorado, numa alusão às lendas em que os jovens se apaixonam e ficam encantados pelas mouras.


O encantamento da moura pode ser causado pelo pai ou algum outro mouro (ou génio) que a deixou a guardar os tesouros, geralmente uma figura masculina. São geralmente os mouros que têm o poder de encantar as mouras. Nas lendas, a moura pode aparecer sozinha, acompanhada de outras mouras encantadas, ou de um mouro, podendo este ser um pai, a pessoa amada, ou um irmão.

Para se realizar o desencantamento da moura, pode ser solicitado segredo, um beijo, um bolo ou pão sem sal, leite, o pronunciamento de algumas palavras, ou a realização de alguma tarefa, como não olhar para algo velado e aguentar a curiosidade. Falhar é não desencantar a Moura e "dobrar o encanto", não obter o tesouro desejado ou perder a moura amada.


Nas lendas em que é solicitado o pão, levanta-se a hipótese de estarem relacionadas com a antiga tradição de se oferecer alimento aos defuntos. Do mesmo modo, o leite pode estar relacionado com as oferendas que se faziam às águas das fontes e às cobras. A população mais antiga contava também que as cobras gostavam muito de leite. Uma das lendas das mouras de Formigais faz referencia à preferência das mouras por leite. Quando desencantada, a moura pode tornar-se humana e casar com o seu salvador ou desaparecer.

A mourama é um local mágico onde moram os mouros encantados. Nas lendas com um contexto histórico, é o local onde os mouros muçulmanos vivem. O tempo da mouraria representa um tempo incerto no passado, a mesma referencia intemporal do "Era uma vez" ou o "Há muito muito tempo", com que começam os contos de fadas. As mouras eram associadas a vários fenómenos naturais ou elementos da natureza. Acreditava-se que o eco era a voz das mouras. Algumas lendas contam que há locais onde ainda é possível ouvir uma moura a chorar.


Os monumentos funerários são frequentemente associados às mouras. Em algumas regiões, as antas são chamadas popularmente de mouras ou Casa da Moura, e antigamente acreditava-se que as mouras viviam nestas construções. A Pedra da Moura, a Antas de Pala da Moura, e a Anta da Arquinha da Moura são exemplo dos monumentos associados às lendas. 

Outro tipo de sepultura associada às mouras são as sepulturas cavadas na rocha, como é o caso de Cama da Moura, Cova da Moura e Masseira. Segundo a narrativa popular, a sepultura chamada Masseira era o lugar onde a "moura amassava o pão".

Fonte: Portugal Místico
Ilustrações retiradas de Lendas de Portugal, de Fernanda Frazão

(dedico este post à minha amiga arKana, que partilha comigo o fascínio pelas lendas das moiras encantadas!)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Uma lenda para a noite de S.João: A moura de Algoso


Algoso é uma pequena aldeia perdida nas serranias transmontanas. Diz uma lenda que ainda hoje por lá corre que, no tempo dos Mouros, existia nos arredores um bruxo famoso, conhecedor de mezinhas milagrosas e sabedor do passado e do futuro. Vivia num casebre um pouco afastado da povoação, mas nem a pobreza da sua casa, nem o afastamento da mesmo obstavam a que ali acorressem quantos acreditavam nas suas capacidades mágicas ou videntes.

Na verdade, ricos e pobres, de longe ou de perto, todos ali acudiam em busca de cura para os seus males, pedindo filtros de amor ou indagando sobre o que lhes reservaria o futuro. Em certos dias era uma autêntica romaria. E com tudo isto o bruxo criou fama e proveito de homem rico, apesar de continuar a viver no pobre casebre tentando fazer-se passar por miserável. 

Entretanto, os cristãos iam avançando na reconquista do território ainda sobre a dependência dos Mouros e estavam a aproximar-se rapidamente de Algoso. Sabendo disto o bruxo, que não podia prever o seu próprio futuro, calculou que a ocupação cristã não viesse a ser muito demorada e decidiu esconder os seus tesouros, disposto a recuperá-los mais tarde, quando pudesse recuperar o seu oficio.


Assim pensando, escolheu o que poderia carregar consigo, e o restante, as jóias e o ouro, meteu-o num cofre de marfim chapeado a cobre. Feito isto, e como precisava de encontrar um bom esconderijo para a sua fortuna, partiu com o cofre debaixo do braço em demanda do melhor local.

Depois de muito procurar, achou que o melhor sitio era debaixo da fonte de S. João, debaixo das raízes de um enorme e belo chorão que derramava a sua sombra as águas. Pegou numa enxadinha e cavou um buraco apropriado ao tamanho do cofre. Meteu-o lá dentro, tapou-o com terra e disfarçou a obra com folhagem e gravetos.

Terminado o trabalho, levantou-se e olhou em volta. Espantado, viu uma mourinha que, descuidada, descia uma vereda da serra cantando uma velha canção. Convencido que a moura o vira esconder o cofre e estava agora  disfarçando o caso, o bruxo encaminhou-se para ela, olhou-a com uma estranha fixidez, fez uns sinais misteriosos e, recitando certa oração antiga, lançou sobre a menina um encantamento, de tal modo que ela desapareceu no mesmo instante. 

Casquinhando, esfregou as mãos, pegou nos seus haveres e desandou rapidamente para a floresta, donde nunca mais voltou. A lenda da moura de Algoso foi passando de boca em ouvido, de geração em geração.
A fonte de S. João de resto, continuava ali, lembrando a todos a desdita da mourinha encantada pelo bruxo e desafiando a coragem de quem sonhasse desencantá-la. 

Uma noite, muito próxima da de S. João, uma rapaz de Algoso que se apaixonara pela história sonhou que via a moura na fonte. Mal acordou, decidiu que, desse lá por onde desse, havia de tentar ver na madrugada de S. João se a lenda era verdadeira. Além disso, como corria se alguém visse a moura nas suas horas felizes lhe podia fazer três pedidos, os quais seriam atendidos, o rapaz achou que, apesar do medo, era talvez vantajoso fazer aquela tentativa. 

Na véspera de S. João, encaminhou-se para a fonte ainda antes de anoitecer por completo. Procurou um local para se esconder, um local de onde visse sem ser visto, e preparou-se para esperar pela meia noite sem fazer ruído algum. O velho chorão da fonte, já centenário, continuava lançando sobre a água os seus ramos lacrimejantes. Do outro lado, havia agora um belíssimo roseiral, donde provinha um perfume intenso quando todas as rosas abriam. 

Chegou a meia noite. De repente o rapaz ouviu uma restolhada vinda das bandas do roseiral. Era uma enorme serpente que, rastejando, se dirigia para a fonte. Aí chegada, mergulhou três vezes. Qual não foi o espanto do moço quando viu aparecer sobre as águas uma menina: a moura da fonte e... mais bela do que tradição contava! 


A moura saltou com leveza da rocha para o solo e, sentando-se na borda da fonte, começou a cantar uma suave canção que o marulhar da água acompanhava, enquanto ela ia passando um pente pelos seus cabelos loiros. Subitamente, uma corça apareceu vinda da floresta e, sem mostrar qualquer receio, aproximou-se da moura, que a afagou com ternura. A corça, num gesto de agradecimento, lambeu-lhe as babuchas de damasco azul.

Era realmente um espectáculo de beleza que o rapaz jamais esperava encontrar, E, acocorado no seu canto, esqueceu os três pedidos que queria fazer, esqueceu tudo, esqueceu-se até de si mesmo, até que, bruscamente, a moura parou de se pentear, debruçou-se no tanque e desatou num pranto irreprimível. Chorava, talvez, a dor da sua solidão sem fim. 

Condoído, o rapaz fez um movimento para a consolar, esquecido do que não fosse aquela ânsia de ternura que dele se apoderara. Ao erguer-se, porém, fez estalar sob o corpo os ramos da sebe em que se escondera. A corça embrenhou-se rapidamente no mato e a moura desapareceu subitamente, evolando-se numa névoa sobre a águas da fonte de S. João de Algoso.


in Lendas Portuguesas de Fernanda Frazão

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A moira encantada

John William Waterhouse

Por manhã de San’João,
Que inda a aurora mal raiava,
E as ervas e as flores
Fino orvalho rociava,
Levantou-se o irmão mais velho
Do leito aonde velava:
Eram três todos pastores,
Cada um seu gado guardava.
Levantou-se o irmão mais velho,
Dos outros se recatava;
Foi direito à Fonte Santa,
Por ver que sorte deitava
Na manhã de San’João
Manhã de benta alvorada.

Banhando na fonte pura
Uma donzela se estava,
Seus cabelos de oiro fino
Com seu pente penteava.
Cada vez que corre o pente
Aljôfares desatava;
O seio tem descoberto,
Seio que de alvo cegava;
Cobre-lhe água o mais de corpo,
O mais que se imaginava.
Tem uma chave na mão,
Chave de oiro que brilhava.

- «Que buscais, pastor,
Que buscais nesta alvorada?»
- «Eu me vim à Fonte Santa
A ver que sorte deitava
Que a pobre vida que levo
A tenho amaldiçoada».

- «És diligente pastor,
E bom fado te fadava,
Que chegaste à Fonte Santa
Quando eu nela me banhava».
Passam dias, passam meses,
Um ano inteiro passava,
E ninguém na Fonte Santa
Não vê a Moira encantada,
Senão só nesta manhã,
Manhã de benta alvorada.

- «Sejas tu moira ou crosta,
Ou sejas demónio ou fada:
Tira-me da pobre vida
Que trago almadiçoada.»

- «Escolhe por tuas mãos
Escolhe o que mais te agrada,
Ou ser rico – ou se feliz,
Ter poder e nomeada».
- «A riqueza dá ventura,
Dá poder e nomeada:
Quero ser rico, donzela,
Que o mais depois o comprava».

Com sua chave de oiro fino
Na viva rocha tocava,
Abrira-se uma caverna,
O pastor por ela entrava.
‘Té às entradas da terra
A sua vista penetrava;
Quanta riqueza há no mundo,
Toda a riqueza ali estava.
De fina prata os rochedos,
A areia de oiro brilhava,
Os seixos puros diamantes
Que os olhos lhe cegava.
Tomou quanto pôde e quis,
Milhões e milhões tomava.
Nem mais não viu a donzela
Que na fonte se banhava,
Nem mais viu nada no mundo
Do que o oiro que levava.
Não tornou mais à cabana.
Dos irmãos não se lembrava,
Foi-se direito à cidade,
Terra e haveres comprava.

Já o sol vem arraiando
Um silvo a donzela dava,
Nas pedras da Fonte Santa
Uma cobra se enroscava.

John Strudwick

Ali dizem estar a moira,
Aquela moira encantada
Que só na manhã bendita
Se mostra pela alvorada:
Vê-la, foi vista por muitos,
Por ninguém desencantada.

Já o sol dá na choupana,
E os dois irmãos acordava,
Saíram com seus rebanhos
Que cada um deles guardava.
Passam horas, passam dias,
Viram que o outro irmão não tornava.
Dizia o irmão segundo
Ao mais novo, que chorava:
- «Fortuna achou nosso irmão
Que à choupana não voltava!».
Ele triste respondia:
- «Pobre de quem não voltava».

Passam meses, passa um ano,
Outra vez que alvorejava
A manhã de San’João
Que ervas e flores regava.
Levantou-se o irmão segundo
Apenas a alva alvejava.
Finge o mais novo que dorme
Mas não dormia, velava:
Contenta da sua sorte,
Mais sorte não cobiçava;
Por manhã de San’João.
Sua sorte não deitava.

Foi-se o outro à Fonte Santa,
A mesma donzela aí estava
Que o seu corpo delicado
Nas puras águas banhava
Mas os seus cabelos de oiro
Agora negros mostrava.
Uma coroa real
Sua cabeça coroava;
Ceptro que tinha na mão
De majestade cegava.
- «Bem-vindo sejas, pastor,
Bem-vindo nesta alvorada,
Que vieste à Fonte Santa
A ver a moira encantada:
A sorte de teu irmão
Em ti será melhorada:
Como ele podes ser rico,
Ou ter mando e nomeada,
Ou podes ser venturoso
Se a ventura mais te agrada».
- «Só uma sorte no mundo,
Uma sorte eu invejava,
Que é senhor e ter mando,
Tudo o mais por isso eu dava».

Sorriu de um triste sorriso
A donzela que o escutava:
Com o seu ceptro de oiro fino
Na viva rocha tocava,
Logo um soberbo castelo
Da rocha se alevantava
E um pendão de nobres armas
Nas ameias tremulava:
De escudeiros e vassalos
A torre se povoava,
Grande pompa de cortejo
À porta da torre estava.
- «Aí tens grandeza e mando,
Tudo o que mais cobiçava
O teu coração, pastor,
Que mais nada desejava».

Entrou na torre o pastor,
Entrou na torre fadada,
Não disse adeus à donzela,
Não se lembrou de mais nada.
Era grande, era senhor,
Aos seus vassalos mandava.
Nem voltou mais à choupana
Nem dos irmãos se lembrava.

Lá vinha o sol arraiando,
Um silvo a donzela dava,
Nas pedras da Fonte Santa
Uma cobra se enroscava:
Era a moira – a pobre moira
Cada vez mais encantada.

Já o sol dá na choupana,
O irmão móis moço espertava,
Leva o seu rebanho ao pasto
Que agora ele só guardava.
Passam dias, passam meses,
Viu que o irmão não voltava;
Triste, dizia consigo
- «Pobre do que não tornava!».

Passam meses, passa um ano,
Outra vez que alvorejava
A manhã de San’João
Que ervas e flores rociava.
Com saudades dos irmãos
O mais moço despertava:
- «Foi por tal manhã como esta
Que um e outro se ausentava.
Esta querida choupana
Que nosso pai fabricava,
Onde ao leite de seu peito
A nossa mãe (§) nos criava,
Nenhum mais cá tornava
Ambos seu fado os levava!
Que sorte seria aquela
Que o coração lhes mudava?
Vou-me eu à Fonte Santa
Vou também nesta alvorada».

John Strudwick

À fonte se foi direito
Inda a alva não alvejava,
Deu co’a formosa donzela
Que na fonte se banhava.
Tão bela como os mais anos
E ainda mais bela estava.
Nem de pedras preciosas,
Nem de pérolas se toucava,
Nem ceptro, nem chave de oiro
Na sua mão não brilhava;
Tinha uma c’roa de rosas
Alva, que de alva cegava;
As suas claras madeixas
Pelos ombros debruçava;
Com um sorriso de amor
Os alvos dentes mostrava;
No puro azul de seus olhos
Um céu aberto mostrava.

- «A que vens aqui, pastor,
A que vens nesta alvorada?
Que queres da Fonte Santa
Da sua moira encantada?».

- «Novas quero, buscar novas
De dois irmãos que eu amava,
Que há um ano e dois que se foram,
Que deles não sei mais nada.»

- «Um é rico, à sua porta
Se mede o oiro à rasada;
O outro tem poder e mando,
É senhor de capa e espada».

- «Dize-me tu, ó donzela,
Por esta benta alvorada,
E San’João te dê ventura,
Que sejas desencantada,
Dize-me se são felizes
Co’a sorte que lhes foi dada».

- «A sua sorte neste mundo
A ninguém não é deitada,
De escolher cada um por si
A liberdade lhe é dada:
Feliz o que bem escolhe,
Infeliz quem mal se fada!
Pastor, tu que és tão discreto,
A ti que sorte te agrada,
Ser rico, ou ser venturoso,
Ter poder e nomeada?».

- «Felizes são meus irmãos
Com a sorte que lhes foi dada?».
- «Um é rico, à sua porta
Se mede o oiro à rasada;
O outro tem poder e mando
É senhor de capa e espada».
- «Quer-lhe alguém bem neste mundo?».
- «Seu poder, sua riqueza
De todos é invejada».
- «Adeus formosa donzela,
Adeus moirinha encantada!
Que eu me vou ao meu rebanho,
Que já a manhã é nada».

- Pastor, toma esta capela
Que por ti foi bem ganha.
Do puro orvalho do céu
Nesta manhã foi banhada,
De frescas rosas tecida,
Por San’João abençoada.
Terás por ela a ventura,
A ventura bem fadada,
Que a moira da Fonte Santa
Há mil anos encantada
Tua será de alma e corpo,
Por ti foi desencantada».

Ventura todos a querem
Por todos é desejada:
Não a tem quem a procura,
A quem não a busca é dada.


Almeida Garrett