segunda-feira, 17 de julho de 2017

terça-feira, 6 de maio de 2014

Lenda de Almaceda



Conta-se que nos terrenos onde hoje se situa a freguesia de Almaceda vivia, em tempos, D. Rodrigo, fidalgo rico e aventureiro, com sua irmã, D. Madalena. Os seus aborrecidos dias só eram animados pelos matinais passeios a cavalo. Quando o tédio apertava, pisgava-se para a corte. 
Num desses passeios matinais, no início da primavera, D. Rodrigo, acompanhado por D. Madalena, estacou repentinamente o seu cavalo, olhando fixamente um ponto. D. Madalena parou também e indagou, curiosa: 
- Que estás a ver? 
D. Rodrigo, com o seu sorriso malandro. 
- Ou estou a sonhar..., ou junto àquele arbusto está uma caveira! 
- Que ideia! Respondeu a irmã, meio amedrontada. 
D. Rodrigo aproveitou, para incutir mais medo. 
- Anda, vamos ver de mais perto! Vamos cumprimentá-la. 
- Devias ter mais respeito pelos mortos. 
D. Rodrigo rindo: 
- Mais respeito? Parámos para a cumprimentar e ainda pedes mais respeito? 
- Não gosto dessas brincadeiras. 
- Que medrosa, nem pareces minha irmã! Anda, é só uma caveira. 
- Como veio aqui parar? disse D. Madalena. 
D. Rodrigo, cada vez mais divertido com o receio da irmã, alvitra: 
- Devia estar aborrecida no cemitério e veio dar um passeio, tal como nós. 
- Cala-te, não suporto mais essa brincadeira. Vamos embora! 
- Havemos de ir, mas não sem antes nos despedirmos da caveira. 
- Não, vamo-nos! 
D. Rodrigo, aproveita para irritar ainda mais a irmã. 
- Antes de partirmos, vou convidá-la para o jantar. 
Cada vez mais amedrontada e com lágrimas nos olhos: 
- Que heresia, Rodrigo! 
Dito isto, partiu velozmente, deixando o irmão rindo às gargalhadas. 
Subitamente, D. Rodrigo ouve uma voz: 
- Cavaleiro, não te desapontarei. Se queres jantar comigo, esta noite lá estarei. 
D. Rodrigo, não vendo ninguém, estancou o sorriso, arrependendo-se da sua brincadeira ao mesmo tempo que se apoderava dele um certo temor. Esporeou o cavalo e partiu em direção ao mosteiro, a fim de contar aos frades o sucedido. Estes não o levaram muito a sério, deram-lhe uma cruz para o proteger do demónio e lá foi para o seu solar. 
Ao ouvir o cavalo, D. Madalena foi ao seu encontro. 
- Já estava preocupada. Demoraste tanto e eu aqui cheia de medo e de fome. 
- Não te preocupes, já trouxe uma cruz que me deram os frades e tudo correrá bem. 
-Mas... 



- Deixa, se vier alguém para jantar connosco, recebê-lo-emos bem. Já mandei preparar a mesa 
e avisei o José para não se alarmar com a estranha visita. 
- Mas tu ... achas que vem alguém jantar connosco? 
D. Rodrigo acenou afirmativamente, aumentando o medo da irmã. 
- Vai para o teu quarto, eu fico sozinho para receber a visita. 
- Não te deixo sozinho! 
Dito isto, ouvem-se pancadas fortes na porta de entrada. 
- A nossa visita chegou.... 
- Benze-te Rodrigo, para que Deus te proteja. 
Uma voz cavernosa ecoa na casa. 
- Diz ao teu amo que o convidado chegou. 
Tentando disfarçar o seu medo, o fidalgo disse: 
- Entre, estava à sua espera e está tudo preparado para o jantar.
D. Madalena quase desfaleceu, numa cadeira. 
- Queira sentar-se ... 
- Não vim para jantar, mas só para te levar comigo. 
Pálido, D. Rodrigo balbuciou: 
- Não compreendo ... 
D. Madalena, em pranto: 
- Meu Deus, protegei-nos. 
- Quero que venhas comigo à minha morada. 
- Onde mora? 
- Perto da igreja. Vem, és meu convidado, pois gostaria de falar contigo. 
A irmã tenta impedi-lo: 
- Não vás, pode ser uma alma perdida. 
- Por acaso, tens medo? Tu o aventureiro? 
D. Rodrigo, coloca a capa e saem para o frio da noite. Avançam silenciosamente. Só se ouvem as aves noturnas e os seus passos. Este silêncio levou D. Rodrigo a refletir sobre a sua vida mundana, prometendo emendar-se. 
Chegados ao portal da igreja, o fidalgo estancou e o vulto sem rosto: 
- Entra comigo na igreja, está mesma na hora. 
Ouvem-se as doze badaladas. 
- Para onde vamos? 
O vulto deu uma sonora gargalhada, empurrando o fidalgo para o interior da igreja. 
- Vem conhecer o meu palácio. Eis a lousa onde moro. Vá, desce. 
- Para quê? 
-Tens medo? 
D. Rodrigo aceita o desafio. 
- Se mora na igreja não é uma alma penada. 
- Aí é que tu e todos os outros se enganam. Pensavam que fui bom em vida, mas Deus conhecia 
os meus erros e... condenou-me. 
- Condenou-te!? 
- Sim! Agora que troçaste de mim, quero que vejas os meus aposentos. 



- Não, não me posso enterrar vivo, é contra os preceitos de Deus. 
O vulto praguejou e disse: 
- O que te vale é essa cruz ao peito, senão obrigava-te. 
- Deus me valha! 
O vulto acalmou-se e confessou: 
- Tal como tu, fui aventureiro e leviano, desrespeitando as coisas sagradas. Quando vires um corpo sem vida, reza, pois a sua alma pode precisar das tuas orações. Que a tua alma ceda à caridade e compaixão para com os mortos. Que a tua alma ceda à verdade. As orações da tua irmã te salvaram. Vai, que a tua alma ceda ao orgulho, acolhendo o amor ao próximo. A voz calou-se e D. Rodrigo, meio desorientado, correu para sua casa, mas ouvindo repetidamente a expressão: 
- Que a tua alma ceda\ Que a tua alma ceda\ 
Ao vê-lo a irmã, que tinha rezado continuamente, abraça-o, chorando. 
- Graças a Deus voltaste! 
A partir de então, era habitual ouvir D. Rodrigo dizer, sem razão aparente: Que a tua alma ceda\ Que a tua alma ceda\ . O povo da região, ao ouvir isto, começou a tratá-lo por Almaceda. 

Passado algum tempo, D. Rodrigo restabeleceu-se, organizou a vida e distribuiu terras pelos pobres que pediam junto ao seu solar. Terão sido estas pessoas vindas de outras terras que começaram a identificar o local onde se fixaram como a Terra do Almaceda, que os vindouros passaram a denominar Almaceda em homenagem ao fidalgo que os tinha ajudado. 

(Adaptado de Marques, Gentil, Lendas de Portugal, Círculo de Leitores, Lisboa, 1997)
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