quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O vento

"The Wind" foi um filme realizado por Victor Sjostrom, em 1928, e protagonizado por Lillian Gish.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Love kills

sábado, 15 de dezembro de 2012

O compadre da morte

   

     Um lavrador pobre tinha tantos filhos que não sabia a quem convidar para padrinho dos recém-nascidos. Quase todos na aldeia eram compadres dele. Nascendo-lhe mais um filho, ficou atrapalhado para saber quem levasse a criança ao baptismo. Estava a pensar no caso quando passou por ele um homem muito alto, magro, vestido de branco, que parou e o cumprimentou amavelmente. O lavrador perguntou se ele aceitava ser o padrinho do seu filho mais novo. — Sabes quem sou eu? — Não senhor! Mas parece-me ser homem honrado e bom! — Sou a Morte e aceito ser o teu compadre. Acompanhou o lavrador à igreja, ficando seu compadre. 

   Quando voltaram a casa, a Morte disse: — Escuta. Não tenho dinheiro nem fazenda para o meu afilhado, mas posso fazer o meu compadre tornar-se um homem rico. — Como será isso, meu compadre? — Presta atenção! Diz a todos que sé medico e vai atender os doentes. Quando lá chegares me verás. Se eu estiver no lado da cabeça do enfermo, dá-lhe o que quiseres e ele curar-se-á, mas se eu estiver aos pés da cama, o homem está perdido. — Pois é caso entendido, meu compadre. 

   Começou o lavrador, que era desempenado e afoito, a dizer-se curandeiro e a visitar doentes por toda a vizinhança. Quando via a Morte perto da cabeceira do doente, punha-o sadio em poucos dias. Quando via a Morte aos pés do enfermo, receitava umas águas simples, cobrava o dinheiro e ia-se embora, desenganando a todos. Ganhou fama e proveitos crescidos, ficando rico e conhecido em toda a parte. 

   Já muito velho, o curandeiro foi chamado por um homem muito poderoso e rico. Apesar de relutar, dizendo-se cansado e não mais podendo aceitar consultas, foi obrigado a pôr-se numa carruagem e ir. Lá chegando, logo que olhou para o quarto do ricaço, avistou o compadre Morte, bem sentado aos pés da cama. A família do enfermo prometia os castelos de Espanha se o chefe recobrasse a saúde. O curandeiro imaginou um plano de burlar o pacto com a Morte e ganhar mais aquela fortuna. Mandou voltar o leito, de maneira a ficar os pés onde estava a cabeça e esta onde estavam os pés. A Morte, assim que voltearam a cama, foi-se embora, sem dizer uma só palavra. O curandeiro recebeu uma gorda quantia e voltou para casa satisfeito. 

   Anos depois, a Morte veio visitá-lo e disse-lhe: — Meu compadre, de hoje a um ano virei buscá-lo porque deve ter chegado o dia de sua viagem… O Curandeiro ficou espavorido com o anúncio. Para enganar a Morte mais uma vez, quando se aproximou o dia fatal, pintou os cabelos de preto, pôs umas barbas retintas, convidou uns amigos e começou a beber e a rir, como se fosse outra pessoa. Chegou a Morte e, não o vendo, perguntou pelo seu compadre. Todos os convidados responderam que o dono da casa não estava e nem sabiam quando ele voltaria. — Ora, ora — monologou a Morte, desapontada — como não posso perder meu tempo nem a minha viagem, vou levar esse barbadão bebedor… E levou com ela o seu compadre.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A mulher teimosa


Havia em tempos uma mulher tão teimosa, que por birra, meteu-se a uma ribeira, que levava muita água, e não dava passagem. Caiu na ribeira, e morreu afogada. No dia seguinte andou o marido em procura do cadáver da mulher; em vez, porém, de seguir o leito da ribeira, acompanhando o curso da água, ele procurou o cadáver pela ribeira acima. — Procura mal o cadáver, — disse um compadre — pois é natural encontrá-lo lá em baixo. — Não, compadre, a minha mulher era muito teimosa e mesmo depois de morta é capaz de caminhar contra a maré. 

Conto Tradicional Português

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O Túmulo - um conto de H.P. Lovecraft



Ao relatar as circunstâncias que conduziram ao meu confinamento neste asilo de loucos, tenho consciência de que a minha posição atual criará dúvidas naturais acerca da autenticidade da minha narrativa.: É grande infortúnio o facto de que o grosso da humanidade seja limitado demais, em sua visão mental, para pesar com paciência e inteligência estes fenómenos isolados, vistos e sentidos apenas por uma minoria psicologicamente sensível, os quais jazem fora de toda experiência comum. Homens de intelecto mais amplo sabem que não existe nenhuma distinção precisa entre o real e o irreal; que todas as coisas aparecem como tais apenas em virtude dos delicados meios psíquicos e mentais de cada indivíduo, por meio dos quais nos tornamos conscientes delas; mas o materialismo prosaico da maioria reputa como loucura os lances de visão superior que perfuram o véu comum do empirismo óbvio.

O meu nome é Jervas Dudley, e desde a mais tenra infância que  tenho sido um sonhador e um visionário. Rico para além das necessidades de uma vida comercial, e de um temperamento inapto para os estudos formais e o recreio social daqueles com quem me relaciono, tenho lidado desde sempre em reinos que não pertencem ao mundo visível, passando a minha juventude e adolescência debruçado sobre livros antigos e pouco conhecidos e a percorrer os campos e bosques dos arredores do meu lar ancestral. Não creio que o que li nesses livros ou vi nesses campos e bosques fosse exatamente o que os outros rapazes leram e viram ali, mas sobre isso preciso falar pouco, pois que discorrer mais detalhadamente apenas confirmaria essas calúnias cruéis acerca do meu intelecto que às vezes ouço sussurrarem os atendentes furtivos que me rodeiam.

Basta-me relatar os eventos, sem analisar as causas. Disse que vivi afastado do mundo visível, mas não disse que vivi sozinho. Isso nenhuma criatura humana poderia fazer, desde que, à falta da camaradagem dos vivos, inevitavelmente se entra na companhia de coisas que não são – ou não mais estão – vivas. Próximo à minha casa existe um vale arborizado bastante singular, em cujas profundezas crepusculares eu passava grande parte de meu tempo a ler, a pensar e a sonhar. Pelas suas encostas cobertas de musgo ensaiei os meus primeiros passos de infância, e em volta de seus carvalhos grotescamente retorcidos teceram-se minhas primeiras fantasias de juventude. Conheci as dríades das árvores e não raro assisti às suas danças selvagens sob os raios vacilantes de uma lua pálida, mas acerca dessas coisas não devo falar agora.

Falarei apenas do túmulo solitário no meio do matagal mais escuro do declive – o túmulo abandonado dos Hydes, uma velha e nobre família cujo último descendente direto fora depositado nos seus negros recessos muitas décadas antes de eu nascer. O pórtico a que me refiro é feito de granito ancestral, lavado e descolorido pelas névoas e pela humidade de muitas gerações. Escavada na encosta, apenas a entrada da construção é visível. A porta – uma pesada e proibitiva laje de pedra – pende de dobradiças de metal enferrujado e, ligeiramente aberta, jaz lacrada por pesadas correntes de ferro e cadeados, de acordo com um repulsivo costume de meio século atrás. A residência do clã cujos descendentes estão enterrados aqui coroou certa vez o declive no qual está a tumba, mas há muito tombou vitimada pelas chamas que desceram do céu na forma de um relâmpago. 

Daquela tempestade que à meia-noite destruiu essa lúgubre mansão, os habitantes mais velhos da região às vezes falam entre sussurros e inquietações, aludindo ao que chamam de “ira divina” de um modo que nos últimos anos fez crescer vagamente o fascínio que eu sentia pelo sepulcro encravado na mata. Um homem apenas pereceu no fogo. Quando o último dos Hydes foi enterrado neste local de sombra e quietude, a triste urna de cinzas veio de uma terra distante, para a qual a família se mudou quando a mansão pegou fogo. Não resta ninguém para colocar flores diante do portal de granito, e muito poucos se dão ao trabalho de enfrentar as sombras depressivas que parecem guardar estranhamente as pedras lavadas pelas chuvas.



Jamais esquecerei aquele entardecer em que, pela primeira vez, me deparei com a semioculta casa da morte. Foi em pleno verão, quando a alquimia da natureza transmuda a paisagem silvestre numa única e quase homogénea massa de verde, quando os sentidos estão quase intoxicados com os mares afluentes de verdura húmida e os odores subtilmente indefiníveis do solo e da vegetação. Numa tal ambientação, a mente perde as suas perspectivas, o tempo e o espaço tornam-se triviais e irreais, e ecos de um esquecido passado pré-histórico batem insistentemente contra a consciência enlevada. Durante o dia todo eu tinha estado a perambular através dos bosques místicos do vale, a conceber pensamentos que não há que discutir e a conversar com coisas que não há que nomear. 

Com apenas dez anos, eu tinha visto e ouvido muitas maravilhas que a turba desconhecia e já era espantosamente maduro em certos aspectos. Quando, depois de abrir caminho entre duas touceiras de arbustos, subitamente deparei com a entrada da cripta, não tinha o menor conhecimento acerca do que encontrara. Os blocos negros de granito, a porta curiosamente semicerrada e os entalhes funerais sobre o arco não despertaram em mim quaisquer associações de caráter fúnebre ou terrível. Sobre sepulturas e tumbas eu sabia e devaneara bastante, mas fora poupado, devido ao meu temperamento peculiar, de qualquer contacto com adros e cemitérios. A estranha casa de pedra escondida entre o mato na encosta constituía para mim apenas uma fonte de interesse e especulação, e o seu interior frio e húmido, para dentro do qual eu espiava através da excruciante abertura, não me sugeria nada de morte ou decadência. Mas naquele instante de curiosidade nasceu o desejo loucamente irracional que me trouxe até este inferno de confinamento. Espicaçado por uma voz que deve ter vindo da alma medonha da floresta, tomei a decisão de penetrar na escuridão que me convocava, a despeito das pesadas correntes que impediam a minha passagem. 

Na luz evanescente do dia chacoalhei insistentemente os obstáculos enferrujados, na esperança de abrir a porta de pedra, e até mesmo experimentei espremer o meu corpo magro através do pouco espaço disponível, mas estas tentativas não surtiram efeito. Curioso no início, tornei-me frenético e, quando ao anoitecer retornei a casa, jurara aos cem deuses da mata que a qualquer custo um dia haveria de forçar a minha entrada nas profundezas escuras e gélidas que pareciam me chamar. O médico de barba grisalha que todos os dias vem até aos meus aposentos, certa vez, disse a um visitante que essa decisão marcou o começo de uma lamentável monomania; mas deixarei o julgamento final a cargo de meus leitores, depois que souberem de tudo. Os meses subsequentes à minha descoberta foram gastos em tentativas fúteis de forçar o complicado cadeado da cripta semicerrada, bem como em perquirições cuidadosas e vigilantes acerca da natureza e da história da construção. 

Com os ouvidos tradicionalmente receptivos de um menino, aprendi muito, embora uma discrição habitual não me permitisse contar a ninguém sobre o meu conhecimento ou minha resolução. Será talvez importante mencionar que não fiquei nem um pouco surpreso ou aterrorizado com a natureza do pórtico. As minhas ideias bastante originais acerca da vida e da morte tinha- me levado a associar, de maneira vaga, a argila fria com o corpo que respira, e senti que a grande e sinistra família da mansão incendiada estava de algum modo dentro do espaço de pedra que eu procurava explorar. Lendas murmuradas acerca de ritos exóticos e festins pagãos de épocas passadas, ocorridos dentro do vestíbulo ancestral, despertaram em mim um novo e irresistível interesse pelo túmulo, em cuja porta eu sentar-me-ia durante horas diariamente. Um dia acendi uma vela diante da entrada obstruída, mas nada pude ver a não ser um lance descendente de degraus de pedra húmida. 

O odor do lugar repelia-me e ao mesmo tempo enfeitiçava-me. Sentia como se já o tivesse conhecido num passado remoto, anterior a qualquer lembrança, anterior mesmo à habitação deste corpo que agora possuo. No ano seguinte àquele em que vi o túmulo pela primeira vez, deparei-me, no sótão cheio de livros de minha casa, com uma tradução corroída das Vidas de Plutarco. Ao ler a vida de Teseu, fiquei deveras impressionado com a passagem em que se fala da enorme pedra sob a qual o menino herói haveria de encontrar as pistas sobre o seu destino assim que se tornasse adulto o suficiente para erguer o grande peso. A lenda teve o efeito de aplacar a minha aguda impaciência em atravessar o portal, fazendo-me sentir que a hora ainda não chegara. Mais tarde – disse a mim mesmo – crescerei e adquirirei força e habilidade que me permitirão destrancar facilmente a porta que os grilhões encerram, mas até lá será melhor me conformar com o que me parece ser a vontade do destino. Com efeito, as minhas vigílias diante do portal húmido tornaram-se menos persistentes, e grande parte do meu tempo era despendida em outras atividades igualmente estranhas. 

Às vezes levantava-me em silêncio durante a noite, saindo às escondidas para andar pelos cemitérios ou locais de sepultamentos dos quais os meus pais me mantiam afastado. O que eu fazia lá não posso dizer, pois agora não estou seguro de algumas coisas, mas sei que no dia seguinte a essas rondas noturnas ,eu costumava pasmar os que me cercavam, exibindo conhecimento de assuntos quase esquecidos durante muitas gerações. Foi depois de uma noite dessas que surpreendi a comunidade com uma ideia inusitada acerca do enterro do rico e celebrado Squire Brewster, personagem da história local que fora sepultado em 1711 e cuja lousa, exibindo um crânio gravado e ossos cruzados, ia lentamente se transformando em pó. Num lance de fantasia infantil, aventei não somente que o coveiro, Goodman Simpson, teria roubado os sapatos de fivelas de prata, as calças de seda e as roupas de baixo de cetim do falecido antes do enterro, mas que o próprio Squire, não totalmente inanimado, ter-se-ia virado duas vezes no seu caixão coberto de terra no dia seguinte ao do sepultamento. 

Mas a ideia de entrar no túmulo nunca me saiu da cabeça, sendo mesmo estimulada pela inesperada descoberta genealógica de que a  minha ascendência materna mantinha um ligeiro vínculo com a supostamente extinta família dos Hydes. Último da minha raça paterna, eu era igualmente o último dessa linhagem mais antiga e mais misteriosa. Comecei a sentir que o túmulo era meu e a esperar ansiosamente pelo momento em que poderia atravessar a porta de pedra e descer na escuridão por aqueles degraus de pedra lodosa. Adquiri o hábito de ouvir com atenção através da porta semiaberta, preferindo as horas da quietude noturna para essa estranha vigília. Quando adquiri mais idade, abri uma pequena clareira no matagal que recobria a face do declive, permitindo que a vegetação circundante cercasse e envolvesse a abertura como uma espécie de cerca viva selvagem. Essa clareira tornou-se no meu templo, a porta fechada no meu santuário, e era aqui que eu me deitava sobre o solo musgoso a pensar estranhos pensamentos e a sonhar sonhos estranhos. 



A noite da primeira revelação estava bastante abafada. Devo ter adormecido de cansaço, pois foi com uma clara sensação de despertar que ouvi as vozes. Hesito em falar desses acentos e timbres, não falarei da sua qualidade, mas posso dizer que apresentavam espantosas diferenças de vocabulário, pronúncia e modos de enunciação. Cada matiz dialetal da Nova Inglaterra, desde as ásperas sílabas dos colonos puritanos até à retórica precisa de cinquenta anos atrás, parecia representado naquele colóquio sombrio, conquanto somente mais tarde eu notasse esse facto. Naquela hora, decerto, a minha atenção foi desviada desse aspecto por um outro fenómeno – um fenómeno tão fugaz que eu não poderia jurar acerca da sua realidade. Mal me dei conta de ter despertado, uma luz foi imediatamente apagada dentro do sepulcro escuro. Não creio que tenha ficado perplexo ou apavorado, mas sei que fui transformado profunda e permanentemente naquela noite. Logo que voltei a casa, dirigi-me imediatamente a uma arca carcomida no sótão, onde encontrei a chave que no dia seguinte removeu com facilidade o obstáculo contra o qual me bati em vão durante tanto tempo. 

Foi sob o brilho de um suave entardecer que entrei pela primeira vez na cripta da encosta abandonada. Como que enfeitiçado, o meu coração vibrava de um contentamento que não sei descrever. Assim que fechei a porta atrás de mim e desci os degraus encharcados, à luz de uma vela, era como se eu já soubesse o caminho, e embora a vela crepitasse na atmosfera sufocante do lugar, sentia-me singularmente em casa naquele ar mofado e sepulcral. Olhando em meu redor, avistei muitas lajes de mármore sustentando esquifes ou os restos de esquifes. Alguns estavam lacrados e intactos, mas outros tinham-se quase desfeito, deixando apenas as alças de prata e as placas isoladas no meio de alguns montículos singulares de pó. 

Numa das placas li o nome de Sir Geoffrey Hyde, o qual viera de Sussex em 1640 e morrera aqui uns poucos anos mais tarde. Numa alcova conspícua havia um caixão desocupado e bastante bem preservado, adornado apenas com um nome que me fez sorrir e estremecer. Um impulso inusitado levou-me a subir para a laje larga, a apagar a minha vela e a deitar-me dentro da caixa vazia. À luz cinzenta da aurora cambaleei para fora da cripta e tranquei a corrente da porta atrás de mim. Já não era mais um jovem, embora apenas vinte e um invernos houvessem esfriado a minha estrutura corpórea. Aldeões madrugadores que observaram a minha caminhada até casa olhavam-me de maneira estranha e espantavam-se com os sinais de obscena euforia que descobriam num homem cuja vida era conhecidamente solitária e austera. Não compareci perante os meus pais sem antes passar por um sono longo e restaurador. 

Desde então passei a ir ao sepulcro todas as noites, vendo, ouvindo e fazendo coisas que não devo jamais recordar. O meu modo de falar, sempre suscetível às influências do ambiente, foi a primeira coisa a sucumbir à mudança, e o arcaísmo de dicção que subitamente adquiri foi logo notado. Mais tarde, um atrevimento e uma audácia inesperados apareceram no meu comportamento, até que inconscientemente comecei a tomar os modos de um homem do mundo, não obstante o meu passado de reclusão. A minha língua, silenciosa por costume, deslizava com a graça fácil e volúvel de um Chesterfield ou com o cinismo ateu de um Rochester. Passei a exibir uma peculiar erudição, totalmente distinta do saber fantástico e monacal sobre o qual me esfalfara na minha juventude, bem como a cobrir as guardas dos meus livros com fáceis epigramas de improviso, os quais evocavam acentos de Gray, Prior e a engenhosidade vivaz dos augustanos. Certa manhã, durante o desjejum, cheguei à beira do desastre, ao declamar com acentos de efusão palpavelmente alcoólica de uma jovialidade setecentista, uma peça de jocosidade georgiana nunca registada em livro, que dizia mais ou menos o seguinte: 

Tragam aqui, meus rapazes, vossos canecos de cerveja.
E bebam ao dia de hoje, antes que já não mais seja.
Encham os vossos pratos de bifes, empilhando-os em montanha,
Pois só beber e comer é o que da vida se ganha.
Encham as vossas taças.
Pois a vida passa,
E depois ao rei e à amada não há quem um brinde faça.
O nariz de Anacreonte era vermelho, diz-se;
Mas o que é um nariz vermelho quando se é alegre e feliz?
Melhor ser vermelho agora – Deus me castigue! –
que estar Branco como um lírio ou morto antes de o ano acabar!
Vem, Betty, em festa,
Beije-me na testa;
Filha de estalajadeiro no inferno não há como esta!
Que o jovem Harry ainda esteja de pé causa-nos surpresa,
Logo há de perder a linha e entrar debaixo da mesa;
Mas encham bem as vossas taças, passem-nas de mão em mão,
Melhor embaixo da mesa do que debaixo do chão!
Que reine o festim,
Que bebam por mim:
Sob sete palmos de terra não se ri tão bem assim!
Que o diabo me carregue, se mal me agüento de pé e,
Com todos os demónios, se de mim ainda dou fé!
Aqui, patrão, mande Betty chamar um carro,
Que eu vou correr para casa, enquanto a minha esposa não chegou!
Alguém me sustente,
Antes que eu me sente:
Que enquanto em cima da terra estou feliz e contente.

Foi por esta época que adquiri o meu medo atual do fogo e dos temporais. Indiferente até então a tais coisas, tinha por eles agora um indizível horror e retirava-me para os recantos mais profundos da casa assim que nos céus se anunciassem quaisquer sinais de eletricidade. Um dos meus abrigos favoritos durante o dia era o porão arruinado da mansão que se incendiara, e, na imaginação, eu reconstituía a estrutura tal como teria sido nos seus primórdios. Em certa ocasião, deixei pasmado um aldeão ao conduzi-lo secretamente até um sub-porão de teto baixo, de cuja existência eu parecia saber a despeito do facto de ele ter ficado oculto e esquecido por muitas gerações. Por fim aconteceu o que eu há muito temia. Os meus pais, alarmados com a alteração de maneiras e aparência do seu único filho, começaram a exercer sobre os meus movimentos uma amável espionagem, a qual ameaçava resultar em desastre. Eu nada dissera acerca das minhas visitas ao túmulo, tendo guardado o meu propósito secreto com zelo religioso desde a infância, mas agora via-me forçado a ter cautela quando penetravan os labirintos da depressão brenhosa, não fosse estar a ser seguido às ocultas. 

Mantinha a minha chave para a cripta pendurada num cordão no pescoço, como um segredo que só eu conhecia. Nunca trouxe para fora do sepulcro qualquer das coisas que encontrei por entre aquelas paredes. Certa manhã, quando saí da tumba húmida e prendi as correntes do portal com pouca firmeza, lobriguei numa macega próxima a face horrorizada de um bisbilhoteiro. Por certo o fim estava próximo, pois o meu recanto fora descoberto e o objetivo das minhas jornadas noturnas fora revelado. O homem não me abordou, de modo que me apressei a chegar a casa, a fim de descobrir o que ele reportaria ao meu pai preocupado. Seriam as minhas incursões para além da porta trancada reveladas ao mundo? Imaginem com que espanto deleitoso ouvi o meu espião informar o meu pai, num cauteloso sussurro, que eu tinha passado a noite na clareira em frente ao sepulcro, os meus olhos baços de sono fixados na fenda da porta não de todo fechada! Que milagre ocorrera a ponto de iludir assim aquele observador? Convenci-me de que um agente sobrenatural me protegera. 



Na audácia que tal circunstância, enviada do céu, me dava, passei a ir, sem nenhuma dissimulação, à cripta, na confiança de que ninguém testemunharia a minha entrada. Durante uma semana provei à saciedade as alegrias daquele convívio sepulcral, o qual não descreverei, até que a coisa aconteceu e vi-me arrastado para este maldito lugar de tristeza e melancolia. Não devia ter-me aventurado a sair naquela noite, pois indícios de trovões relampejavam nas nuvens e uma fosforescência infernal subia do pântano ao fundo do vale. Também o chamado dos mortos estava diferente. Em vez da tumba na encosta, era o demónio que presidia o porão chamuscado no topo da elevação que me acenava com dedos invisíveis. Quando saí de um matagal intermediário para o plaino diante da ruína, descobri sob o luar nebuloso uma coisa pela qual sempre esperara vagamente. A mansão, destruída havia um século, mais uma vez se erguia no alto como uma visão arrebatadora, todas as janelas a brilhar com o esplendor de muitas velas. Pela longa estrada rodavam as carruagens da elite de Boston, enquanto a pé se aproximava um numeroso ajuntamento de janotas empoados, provenientes das mansões vizinhas. 

Misturei-me com essa multidão, conquanto estivesse certo de pertencer mais ao dos anfitriões que ao dos hóspedes. Para além do saguão havia música, gargalhadas e vinho em todas as mãos. Reconheci muitas faces, e tê-las-ia reconhecido melhor ainda se as visse ressequidas ou carcomidas pela morte e pela decomposição. No meio dessa turba selvagem e estouvada, eu era o mais selvagem e o mais debochado. Alegres blasfémias jorravam dos meus lábios, e em chocantes gracejos eu desprezava as leis de Deus ou da natureza. Súbito, o estrondo de um trovão, muito mais forte que a algazarra do imundo festim, rompeu o telhado e fez baixar um enorme silêncio sobre a companhia turbulenta. Línguas vermelhas de fogo e golfadas de calor ardente envolveram a casa, e os participantes, tomados pelo pavor de uma iminente calamidade que parecia transcender os limites da natureza desgovernada, fugiram aos gritos noite adentro. Somente eu permaneci, preso ao meu assento por um medo humilhante que nunca antes sentira. E então um segundo horror tomou conta de minha alma. Queimado vivo até às cinzas, o meu corpo disperso aos quatro ventos, eu nunca poderia jazer no túmulo dos Hydes! 

Não estava o meu caixão já preparado para mim? Não tinha eu o direito de descansar até a eternidade entre os descendentes de Sir Geoffrey Hyde? Ai! eu exigiria a minha herança de morte, mesmo que a minha alma vagasse através das eras à procura de uma nova habitação corpórea, que a representaria sobre aquela laje desocupada na alcova da cripta. Jervas Hyde não deveria jamais compartilhar do triste destino de Palinuro! Quando o fantasma da casa incendiada desapareceu, encontrei-me a gritar e a contorcer-me loucamente nos braços de dois homens, um dos quais era o espião que me seguira até ao sepulcro. A chuva caía torrencialmente, e sobre o horizonte, na direção sul, viam-se os clarões dos relâmpagos que há pouco tinham passado sobre as nossas cabeças. O meu pai, a face transtornada de pesar, estava ao lado, enquanto eu ordenava aos berros que me colocassem no túmulo, admoestando frequentemente os meus capturadores para me tratarem com a máxima consideração. 

Um círculo escuro sobre o piso do porão arruinado sugeria uma carga violenta dos céus, e era nesse local que um grupo de aldeões curiosos estava a examinar com lanternas uma caixa pequena de fabricação antiga, que a explosão do raio trouxera à luz.Cessando as minhas contorções fúteis e sem sentido, observei os espectadores enquanto olhavam o pequeno tesouro e obtive permissão para compartilhar as suas descobertas. A caixa, cujo fechose tinha partido com o golpe que a desenterrara, continha alguns papéis e objetos de valor, mas eu só tinha olhos para uma coisa. Tratava-se da miniatura em porcelana de um homem jovem usando uma peruca caprichosamente encaracolada, a qual portava as iniciais “J. H.” Quanto à face, a sua conformação era tal como se eu estivesse a olhar-me no espelho. No dia seguinte, trouxeram-me para este quarto que tem grades nas janelas, mas tenho sido informado sobre certas coisas por um homem velho, de mentalidade rude, por quem nutro simpatia desde a infância, o qual, tal como eu mesmo, também é amante de cemitérios. O que ousei relatar das minhas experiências na cripta trouxe-me apenas sorrisos de piedade. Meu pai, que me visita com frequência, assevera que em tempo algum atravessei o portal lacrado pelas correntes e jura que, quando o examinou, o cadeado enferrujado tem estado como sempre esteve ao longo de cinquenta anos. Chega mesmo a dizer que toda a comunidade sabia das minhas idas ao túmulo e que eu era muitas vezes vigiado enquanto dormia na clareira da encosta, os meus olhos semicerrados fixos na fenda que conduz ao interior. 

Contra essas afirmações não tenho nenhuma prova tangível, até porque a chave para o cadeado se perdeu na luta durante aquela noite de horrores. As coisas estranhas do passado que aprendi durante aqueles encontros noturnos com os mortos, ele as reputa como meros frutos de minha vida pregressa de omnívora perscrutação sobre volumes antigos da biblioteca da família. Não fosse pelo meu velho serviçal Hiram, eu hoje estaria convencido da minha loucura. Mas Hiram, leal até o fim, conservou a sua fé em mim e fez aquilo que me impele a trazer a público pelo menos uma parte da minha história. Há uma semana, ele quebrou o cadeado que prende a porta do túmulo na sua posição perpetuamente semicerrada e desceu com uma lanterna até às profundezas sombrias. Sobre uma laje, numa alcova, encontrou um velho mas ainda vazio caixão cuja inscrição deslustrada contém uma simples palavra: Jervas. Nesse caixão e nessa cripta é que me prometeram que serei enterrado.

H.P. Lovecraft

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O sócio do diabo



Era uma vez um lavrador muito pobre que não conseguia medrar no seu trabalho. Tanto mais se esforçava menos rendia a tarefa ao pobre homem. Vai um dia, desesperado, gritou: — Apareça quem me ajude mesmo que seja o próprio Diabo! — Aqui estou eu! respondeu o Demo. Ajustaram logo o contrato. 

O lavrador ganhou um belo terreno e o Diabo disse-lhe: — Planta o que quiseres que bem dará. Nascendo em baixo é meu e saindo em cima é teu… O homem plantou milho, trigo e centeio que nasceram como um louvar a Deus. Quando a plantação estava no pé de ser ceifada, veio o Diabo cobrar a parte. — Pode levar o que é seu… Foi ver o Diabo o que era dele e só encontrou raízes sem valor. Ficou furioso e desmanchou o pacto, propondo outro: ‘ — Vamos às avessas. O que sair por cima é meu e sendo de baixo é teu. 

O homem aceitou. Vendeu o milho, o trigo e o centeio por bom dinheiro e plantou batatas, cenouras e nabos que era um nunca acabar. No tempo da colheita voltou o diabo pela sua parte. — Leve o que está por cima que é o trato… O Diabo desta vez ficou desesperado com o logro. Desmanchou o negócio e propôs outro: — Faço-te rico como um conde e, no fim de vinte anos, ganho a tua alma. Está feito? — Está feito, com uma condição; escrevemos tudo num papel que fica no meu poder e que lhe darei ao fim dos vinte anos. Se passar um minuto depois da meia noite e você não tiver o contrato na mão, estarei livre. — Só aceito se o papel ficar na minha mão no fim do prazo! — Está feito o negócio…. 

Ficou o homem rico da noite para o dia, tratando-se do bom e do melhor, fazendo caridades. No fim dos vinte anos, dia por dia, foi falar com o padre da paróquia e  pediu-lhe uma escudela cheia de água benta. Dentro da escudela meteu o papel e esperou o Diabo. Quando este chegou, o homem disse: — O papel está ali, dentro daquela escudela, bem à vista. É só tirar. O Diabo meteu a mão para agarrar o papel e largou um uivo como se tivesse metido a pata nas brasas. Foi outra vez e gritou com a dor. Por mais que procurasse retirar o contrato, a água benta não deixava. Depois de muito esforço, o relógio bateu as doze badaladas. O homem, então, benzeu-se: — Vai-te para as areias gordas, que eu de ti estou livre! O Diabo estourou como um petardo e foi para o Inferno. O homem continuou rico e feliz, morrendo quando Deus o permitiu. 

Conto tradicional português

domingo, 23 de setembro de 2012

A Visão

John Cimon Warburg, The Incantation, 1901

Uma rapariga casada, cujo marido trabalhava bastante longe, e que por esse motivo não ia a casa, ia todas as noites buscar o irmão, ainda muito novo, para lhe fazer companhia. Uma noite ao entrar com o irmão em casa, quando abria a porta da rua, viu na cozinha um grande clarão. Chamou pelo irmão, gritando: — Tenho fogo em casa! E invocou a Virgem Maria. Apareceu-lhe um vulto de mulher, que vinha da cozinha com uma luz na mão e correu para ela. Com o susto deu um salto e foi cair na estrada, ficando bastante ferida. A luz que esse vulto trazia foi cair sobre a mulher e desapareceu em seguida. 


VASCONCELLOS, J. Leite de, Contos Populares e Lendas

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Vincent

domingo, 26 de agosto de 2012

A Casa Assombrada



sábado, 25 de agosto de 2012

Dracula

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Labirinto


"Labyrinth" (1986) ao som de MS MR

sábado, 11 de agosto de 2012

Lenda dos Sete Ais

Imogen Cunningham c. 1910-12

Destacado para ocupar o castelo de Sintra, D. Mendo de Paiva surpreendeu a princesa moura Anasir, que fugia com a sua aia Zuleima. A jovem assustada gritou um "Ai!" e quando D. Mendo mostrou intenção de não a deixar sair, outro "Ai!" lhe saiu da garganta.

Zuleima, sem lhe explicar a razão, pediu-lhe para nunca mais soltar nenhum grito do género, mas ao ver aproximar-se o exército cristão a jovem soltou o terceiro "Ai!".

D. Mendo decidiu esconder a princesa e a sua aia numa casa que tinha na região e querendo levar a jovem no seu cavalo, ameaçou-a de a separar da sua aia se ela não acedesse e Anasir deixou escapar o quarto "Ai!".

Pouco depois de se instalar na casa, a princesa moura apaixonou-se por D. Mendo de Paiva, retribuindo o amor do cavaleiro cristão que em segredo a mantinha longe de todos.

Um dia, a casa começou a ser rondada por mouros e Zuleima receava que fosse o antigo noivo de Anasir, Aben-Abed, que apesar de na fuga se ter esquecido da sua noiva, voltava agora para castigar a sua traição.

Zuleima contou a D. Mendo que uma feiticeira lhe tinha dito que a princesa morreria ao pronunciar o sétimo "Ai!".

Entretanto, Anasir curiosa pela preocupação da aia em relação aos seus "Ais", exprimiu o quinto e o sexto consecutivamente, desesperando a sua aia que continuou a não lhe revelar o segredo.

D. Mendo partiu para uma batalha e passados sete dias foi Aben-Abed que surpreendeu Anasir, que soltou o sétimo "Ai!", ao mesmo tempo que o punhal do mouro a feria no peito. Enlouquecido pela dor, D. Mendo de Paiva tornou-se no mais feroz caçador de mouros do seu tempo.

Fonte: Secreto Palácio de Sintra

domingo, 29 de julho de 2012

Lenda do Túmulo dos Dois Irmãos

APC

O Túmulo dos Dois Irmãos, localizado em Sintra, é um dos mais misteriosos monumentos medievais desta vila. 

"É conhecida esta sepultura pela denominação de Sepultura de Dois Irmãos, nome que já tinha no século XV, como consta de um instrumento daquela época.
Dizem os naturais que, o que dera origem a esta denominação fora a tradição que entre eles corre antiga de pais e filhos que passo a descrever como a ouvi a um velho de noventa anos todo inebriado da sua veracidade:
Dois irmãos traziam amores por uma donzela que por aqueles sítios habitava, ignorando ambos os amores um do outro. Acontecendo por uma triste fatalidade encontrarem-se os dois irmãos, em uma noite tenebrosa, debaixo do balcão do objecto que tão enfeitiçados os trazia, um deles, persuadido que o outro lhe disputava os favores da sua dama, corre cego e inconsiderado sobre ele, e o estende morto a seus pés, vítima de um frenético ciúme. Porém, qual é a sua desesperação, quando pela voz moribunda daquele que julga seu rival, reconhece ter sido assassino do seu próprio irmão, que muito amava e lhe expira nos braços!
Cheio de desespero, volta contra o peito o ferro fratricida, e a cai morto sobre o cadáver ensanguentado do irmão, preferindo uma morte pronta, a uma vida inconsolável, cheia de remorsos."

Lenda do Túmulo dos Dois Irmãos, Visconde de Jerumenha, Cintra Pinturesca - 1839

Fonte: Secreto Palácio de Sintra

Em 1830, por ordem de D. Miguel, o túmulo foi aberto e constatou-se a existência de um único esqueleto...

Para quem quiser conhecer melhor este mistério, poderá ler dois artigos muito interessantes sobre o mesmo aqui e aqui.

sábado, 28 de julho de 2012

O Nesnás



Entre os monstros d' A Tentação figura o Nesnás, que "tem só um olho, uma face, uma mão, uma perna, meio corpo e meio coração." Um comentador, Jeari-Claude Margolin, afirma que foi Flaubert quem o imaginou, mas o primeiro volume d' As Mil e Uma Noites de Lane (1839) atribui-o ao comércio dos homens com os demónios. O Nesnás - é assim que Lane escreve a palavra - é "metade do ser humano; tem meia cabeça, meio corpo, um braço e uma perna; brinca com grande agilidade" e habita nas solidões do Hadramaute e do Iémen. É capaz de uma linguagem articulada; alguns têm a cara no peito, como os Blemies, e a cauda parecida com a da ovelha; a sua carne é suave e muito procurada. Uma variedade de Nesnás com asas de morcego abunda na ilha de Raij (talvez Bornéu), nos confins da China; "mas", acrescenta o incrédulo narrador, "Alá sabe de tudo".

Jorge Luís Borges, O Livro dos Seres Imaginários 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Eu sou o anjo do desespero



























Eu sou o anjo do desespero.
Das minhas mãos distribuo a embriaguês,
a estupefacção, o esquecimento, gozo e
tormento dos corpos.
Meu discurso é o silêncio, meu canto o grito.
À sombra das minhas asas mora o terror.
Minha esperança é o último suspiro.
Minha esperança é a primeira batalha.
Eu sou a faca com que o morto arromba o seu caixão.
Eu sou aquele que será.
Meu descolar é a sublevação, meu céu o abismo de
amanhã.

Heiner Muller (traduzido por Adolfo Luxúria Canibal)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Cão da Morte - Agatha Christie (4)



Não pretendo descrever todos os pormenores da experiência. O médico pronunciou muitas palavras sem importância nem sentido. Repetiu outras várias vezes, ora obtendo a mesma resposta, ora obtendo uma resposta diferente.
Naquela noite comentámos o resultado da experiência no pequeno chalé do médico nos penhascos.
Ele pigarreou e puxou seu caderno de notas para mais perto.
- Estes resultados são interessantíssimos ... muito curiosos. Em resposta às palavras "Sexto Signo", nós obtivemos uma profusão de outras: Destruição, Roxo, Cão, Poder, depois novamente Destruição e, por fim, Poder. Mais tarde, como talvez tenha observado, inverti o método, com os seguintes resultados. Em resposta a Destruição, obtive Cão; a Roxo, Poder; a Cão, novamente Morte, e a Poder, Cão. Isso está tudo inter-relacionado, mas numa segunda repetição de Destruição, eu obtive Mar, que parece totalmente descabido. Para as palavras "Quinto Signo", eu obtive Azul, Pensamentos, Pássaro, novamente Azul e, por fim, a frase bastante sugestiva Abertura do espírito à percepção. A partir do facto de que "Quarto Signo" evoca a palavra Amarelo, e depois Luz, e que "Primeiro Signo" é respondido por Sangue, eu deduzo que cada Signo tenha uma cor própria, e possivelmente um símbolo próprio, sendo que o do Quinto seria um Pássaro e o do Sexto um Cão. Desconfio, porém que o Quinto Signo representasse o que se conhece comumente pelo nome de telepatia - a abertura do espírito à percepção. O Sexto Signo, sem dúvida, representa o Poder da Destruição.
- Qual o significado de Mar?
- Isso, confesso que não sei explicar. Eu pronunciei a palavra depois e obtive a resposta comum de Barco. Para o Sétimo Signo, houve primeiro Vida, e na segunda vez Amor. Para o Oitavo Signo, obtive a resposta Nenhum. Suponho, portanto, que Sete era a soma e o número dos signos.
- Mas o sétimo não foi atingido - exclamei, numa súbita inspiração. - Pois com o Sexto chegava a Destruição!
- Ah! O senhor acha ? Mas nós estamos levando essas ... divagações malucas muito a sério. Elas de facto, só possuem interesse sob um ponto de vista médico.
- Certamente atrairão a atenção dos investigadores de fenómenos psíquicos.
Os olhos do médico franziram-se.
- Meu caro senhor, eu não tenho a menor intenção de divulgá-las ao público.
- Então o seu interesse ...?
- É unicamente profissional. Está claro que tomarei notas sobre o caso.
- Compreendo.
Mas, pela primeira vez, percebi que não estava compreendendo nada. Levantei-me.
- Bem, desejo-lhe uma boa noite, doutor. Amanhã parto de volta para a cidade.
- Ah!
Tive impressão de que havia satisfação, talvez alívio, atrás dessa exclamação.
- Desejo-lhe boa sorte nas suas investigações continuei, despreocupadamente. - Da próxima vez que nos encontrarmos, não solte o Cão da Morte em cima de mim, hein?!
Enquanto falava, segurava-lhe as mãos e senti o susto que levou. Mas logo se recompôs. Os lábios abriram-se num sorriso, mostrando os longos dentes pontudos.
- Que poder para um homem que se embriagasse com ele! - exclamou. - Ter a vida de cada ser humano na palma da mão!
E alargou ainda mais o sorriso.
Esse foi o fim de minha ligação direta com o caso.
Mais tarde, o caderno de notas e o diário do médico chegaram às minhas mãos. Vou reproduzir aqui os seus rápidos apontamentos, embora vocês hão de compreender que eles só caíram em meu poder algum tempo depois.
5 de agosto. Descobri que a irmã M.A. entende por "Eleitos" aqueles que reproduziram a raça. Eram, pelos vistos, venerados e exaltados acima do Sacerdócio. Veja-se o contraste com os cristãos primitivos.
7 de agosto. Convenci a irmã M.A. a deixar-me hipnotizá-la. Consegui provocar-lhe o sono e o transe hipnótico, mas não estabeleci nenhuma relação.
9 de agosto. Teriam existido civilizações antigas perto das quais a nossa fosse insignificante? Por estranho que pareça, tudo indica que sim, e eu sou o único homem que possui a pista ...
12 de agosto. A irmã M.A. não se mostra nada susceptível à sugestão quando hipnotizada. No entanto, o estado de transe é facílimo de ser provocado. Não posso entender.
13 de agosto. A irmã M.A. mencionou hoje que em "estado de graça" o "portão precisa ficar fechado, para que ninguém mais domine o corpo". Interessante - mas desconcertante.
18 de agosto. Quer dizer, pois, que o Primeiro Signo não é senão ... (faltam palavras que foram apagadas) ... então quantos séculos vai levar para chegar ao Sexto? Mas se houvesse um atalho para o poder ...
20 de agosto. Providenciei tudo para que M.A. viesse para cá com a enfermeira. Disse-lhe que é indispensável manter a paciente sob a ação da morfina. Estarei louco? Ou será que sou o Super-homem, com o Poder da Morte em minhas mãos?
(Aqui terminam os apontamentos.)
Creio que foi no dia 29 de agosto que recebi a carta. Vinha endereçada a mim, aos cuidados de minha cunhada, numa letra deitada de estrangeira. Abri o envelope com certa curiosidade. Dizia o seguinte:
Cher monsieur,
Falei só duas vezes com o senhor, mas sinto que é uma pessoa em quem posso confiar. Não sei se os meus sonhos são verdadeiros ou não, mas ultimamente tornaram-se mais nítidos ... E monsieur, de uma coisa estou absolutamente certa, o Cão da morte não é nenhum sonho ... nos dias de que lhe falo ( não sei se foram reais ou não). Aquele que era o Guarda do Cristal revelou cedo demais o Sexto Signo ao Povo ... O mal apoderou-se dos seus corações. Ganharam o poder de matar à vontade - e injustamente - tomados de cólera. Embriagaram-se com o volúpia do Poder. Quando percebemos isso, nós que ainda éramos puros, logo vimos que mais uma vez não completaríamos o Círculo nem atingiríamos o Signo da Vida Eterna. E aquele que estava escalado para ser o próximo Guarda do Cristal teve que agir. Para que os velhos perecessem e os novos, depois de séculos sem fim, pudessem ressurgir, ele soltou o Cão da Morte em cima do mar ( cuidando para não fechar o círculo) e o mar levantou-se na forma de um Cão e tragou a terra por completo ...
Já me lembrei disso antes - nos degraus do altar, na Bélgica ...
O Dr. Rose pertence à Irmandade. Ele conhece o Primeiro Signo e a forma do Segundo, embora ninguém, salvo alguns eleitos, esteja a par do seu significado. Por meu intermédio ele chegaria ao Sexto. Até agora consegui resistir-lhe - mas sinto-me cada vez mais fraca, monsieur, e não convém que um homem atinja o poder antes da hora. Muitos séculos hão de se passar antes que o mundo esteja preparado para receber o poder da morte em suas mãos ... Eu lhe suplico, monsieur, o senhor que tanto preza o bem e a verdade, ajude-me ... antes que seja tarde demais.
Sua irmã em Cristo,Marie Angelique.
Deixei o papel cair no chão. A terra sob os meus pés parecia menos firme do que o costume. Depois comecei a reanimar-me. A crença da coitada, por mais autêntica que fosse, tinha quase me contagiado. Mas não havia dúvida. O Dr. Rose, com seu fanatismo para tirar as coisas a limpo, estava ultrapassando dos limites de sua condição profissional. Eu ia correr até lá e ...
De repente dei com uma carta de Kitty no meio da correspondência. Abri o envelope. Dizia:
Aconteceu uma coisa horrível. Você lembra-se do chalé do Dr. Rose, no penhasco? Pois, ontem à noite, houve um desmoronamento de terra e o doutor e aquela pobre freira, a irmã Marie Angelique, morreram. Os destroços na praia são um verdadeiro horror - tudo amontoado de uma maneira fantástica - de longe parece um enorme cão ...
A carta caiu-me das mãos.
Os outros factos talvez fossem coincidência. Um tal de Mr. Rose, que eu descobri que era um parente rico do médico, morreu repentinamente, naquela mesma noite - dizem que fulminado por um raio. Ao que me consta, não houve nenhum temporal nas imediações, mas duas pessoas declararam ter ouvido uma trovoada. E no corpo do morto apareceu uma queimadura eléctrica "de uma forma curiosa". No seu testamento deixava tudo para o sobrinho, o Dr. Rose.
Ora, suponhamos que o Dr. Rose conseguisse obter o segredo do Sexto Signo por intermédio da irmã Marie Angelique. Ele sempre me deu impressão de ser um sujeito inescrupuloso - que não hesitaria em dar cabo da vida do tio se tivesse certeza de que ficaria impune. Mas uma frase da carta da irmã Marie Angelique não me saía da cabeça:" ... cuidando para não fechar o Círculo ... " O Dr. Rose não teve esse cuidado - talvez ignorasse as medidas que devia tomar ou até nem soubesse que precisava fazer isso. E assim a Força que usou voltou-se contra ele, fechando o círculo ...
Mas claro, que disparate! A explicação é perfeitamente natural. Que o doutor acreditasse nas alucinações da irmã Marie Angelique apenas prova que o cérebro dele também estava levemente desequilibrado.
No entanto, às vezes sonho com um continente submarino onde a humanidade outrora viveu e atingiu um grau de civilização muito mais adiantado que o nosso ... Ou será que a memória da irmã Marie Angelique funcionava de trás para diante - como alguns dizem que é possível - e que a tal Cidade dos Círculos se encontra no futuro e não no passado?
Disparate - claro que foi tudo uma alucinação.

domingo, 1 de julho de 2012

O Cão da Morte - Agatha Christie (3)



- Acho que ela está completamente desequilibrada - respondi, devagar.
- Foi isso que lhe pareceu ?
- Não ... para dizer a verdade, ela quase me convenceu ... de uma maneira até estranha. Ouvindo o que ela dizia, tive a impressão de que, de facto, havia feito tudo aquilo que descrevia ... operando uma espécie de gigantesco milagre. A maneira como ela acredita nisso parece-me bastante autêntico. É por isso que ...
- É por isso que o senhor diz que ela está desequilibrada. Tem razão. Mas agora encare o caso sob outro aspecto. Suponhamos que ela tenha, realmente, feito aquele milagre ... suponhamos que ela, pessoalmente, tenha destruído um prédio e centenas de seres humanos.
- Pelo simples poder da vontade? - retruquei, sorrindo.
- Não diria bem isso. O senhor sabe que uma pessoa pode destruir uma multidão apertando um botão que controla um sistema de minas.
- Sim, mas isso é uma coisa mecânica.
- De facto, é uma coisa mecânica, mas é a utilização e o controle de forças naturais. As trovoadas e a usina eléctrica são, fundamentalmente, a mesma coisa.
- Sim, mas para controlar a trovoada nós temos que recorrer a processos mecânicos.
Rose sorriu.
- Vou escapar pela tangente. Existe uma substância chamada gaultéria, que aparece na natureza em forma de vegetal, mas que também pode ser obtida sintética e quimicamente no laboratório.
- E depois?
- O que eu quero dizer é que muitas vezes há duas maneiras de chegar ao mesmo resultado. A nossa é, reconhecidamente, a sintética. Mas talvez haja outra. Os incríveis resultados conseguidos pelos faquires hindus, por exemplo, não se explicam satisfatoriamente com qualquer resposta fácil. As coisas que chamamos de sobrenaturais não têm, necessariamente, nada de sobrenatural. Uma lanterna eléctrica seria sobrenatural para um selvagem. O sobrenatural é apenas o natural daquilo cujas leis ainda não entendemos.
- Que quer dizer? - perguntei, fascinado.
- Que não posso excluir por completo a possibilidade de que o ser humano talvez seja capaz de armazenar uma grande força destruidora e usá-la para atingir os seus objectivos. Os meios pelos quais ele conseguiria isso poderiam parecer-nos sobrenaturais ... mas na realidade não são.
Arregalei os olhos.
Ele riu.
- Trata-se apenas de uma especulação - disse, despreocupado ... - Diga-me uma coisa, o senhor não reparou no gesto que ela fez quando mencionou a Casa de Cristal?
- Ela passou a mão pela testa.
- Exactamente. E traçou um círculo com o dedo. Tal como um católico ao fazer o sinal da cruz. Agora vou contar-lhe uma coisa bastante curiosa, Mr. Anstruther. A palavra cristal já foi usada tantas vezes nas divagações da minha paciente, que decidi fazer uma experiência. Peguei num cristal emprestado e um dia mostrei-o inesperadamente para testar a sua reacção.
- E então?
- Bem, o resultado foi muito interessante e sugestivo. Ela endureceu o corpo todo e ficou a olhar para o cristal como se não pudesse acreditar no que estava a ver. Depois caiu de joelhos diante dele, murmurou algumas palavras ... e desmaiou.
- Que palavras é que ela disse?
- Muito estranhas. "O Cristal! Então a fé ainda vive!"
- Que coisa incrível!
- Dá para a gente pensar, não é? Agora vem a parte curiosa. Quando ela voltou a si do desmaio, tinha-se esquecido de tudo. Mostrei-lhe o cristal e perguntei se sabia o que era. Respondeu que imaginava que fosse uma dessas bolas de cristal usadas pelos adivinhos. Perguntei-lhe se nunca tinha visto uma. Ela respondeu: "Nunca, M. le docteur". Mas eu notei que estava com o olhar perplexo. "O que é que a está preocupando, irmã?", perguntei. Ela respondeu: "É que acho tão estranho. Nunca tinha visto antes um cristal e no entanto ... parece-me que já conheço tão bem. Há uma coisa ... se ao menos me pudesse lembrar ..." O esforço que fazia para recordar era evidentemente tão penoso que eu proibi que pensasse mais naquilo. Isto foi há duas semanas. Venho contemporizando de propósito. Amanhã vou fazer uma nova experiência.
- Com o cristal?
- Sim. Quero que ela olhe bem para ele. Acho que o resultado vai ser interessante.
- Que espera descobrir? - perguntei, curioso.
A pergunta era ociosa, mas o resultado foi inesperado. Rose se impertigou todo, avermelhou, e quando respondeu, o seu comportamento havia mudado sem que se desse conta. Estava mais formal, mais profissional.
- A explicação para certos desequilíbrios mentais que não se compreendem. A irmã Marie Angelique é um objecto de estudo muito interessante.
Quer dizer, então, que o interesse de Rose era unicamente profissional? - pensei.
- Não se importa que eu assista? - perguntei.
Talvez fosse imaginação minha, mas pareceu-me que ele hesitou antes de responder. Tive a súbita intuição de que não queria que eu fosse.
- Claro que não. Não faço a menor objecção.
E acrescentou:
- O senhor não pretende demorar-se muito por aqui, não é?
- Só vou ficar até depois de amanhã.
Deu-me a impressão de ter ficado contente com a resposta. Desanuviou a testa e começou a falar sobre certas experiências feitas recentemente em cobaias.
Na tarde do dia seguinte, encontrei-me com o médico na hora marcada e fomos juntos à casa da irmã Marie Angelique. Ele estava muito gentil, talvez para desfazer a impressão causada na véspera.
Não leve muito a sério o que eu disse - comentou, rindo. - Não vá pensar que me dedico a ciências ocultas. O diabo é que eu tenho uma fraqueza infernal para tirar as coisas a limpo.
- É mesmo?
- É sim, e quanto mais fantásticas, mais eu gosto.
Riu como a gente ri de uma fraqueza engraçada.
Quando chegámos ao chalé, a enfermeira local queria consultar Rose sobre não sei o quê, de modo que fiquei a sós com a irmã Marie Angelique.
Vi que ela me analisava minuciosamente. Passado pouco tempo, disse:
- A nossa querida enfermeira disse-me que o senhor é irmão daquela senhora tão educada que mora lá no casarão para onde me levaram quando vim da Bélgica.
- Sou, sim - confirmei.
- Ela foi muito boa para mim. É uma óptima pessoa.
Calou-se, como que remoendo uma ideia. Por fim, perguntou:
- M. le docteur também é uma óptima pessoa?
Fiquei meio atrapalhado.
- É sim. Quero dizer ... acho que é.
- Ah! - Fez uma pausa e depois acrescentou: - Não há que negar que ele tem sido muito bom para mim.
- Sem dúvida nenhuma.
Ela levantou bruscamente os olhos.
- Monsieur ... o senhor ... o senhor que agora está a conversar aqui comigo ... o senhor acha que estou louca?
- Ora, irmã, uma ideia dessas nunca me ...
Ela sacudiu lentamente a cabeça - interrompendo meu protesto.
- Será que estou louca? Sei lá ... as coisas que eu me lembro ... as coisas que eu esqueço ...
Suspirou, e nesse instante Rose entrou na sala.
Cumprimentou-a alegremente e explicou o que desejava que ela fizesse.
- Sabe, há certas pessoas que possuem o dom de ver coisas num cristal. Desconfio que você também possui esse dom, irmã.
Pareceu inquieta.
- Não, não, eu não posso fazer isso. Tentar adivinhar o futuro ... isso é pecado. Rose ficou surpreso. Não contava com aquela reação. Mudou logo de tática.
- Não se deve querer ver o futuro, tem toda a razão. Já o passado ... é diferente.
- O passado?
- Sim ... existem muitas coisas estranhas no passado. Que voltam como relâmpagos ... entrevistos um instante ... e depois desaparecem de novo. Não procure ver nada no cristal, já que isso não lhe é permitido. Apenas pegue-o nas mãos ... assim. Olhe para ele ... olhe bem. É ... olhe bem no fundo ... cada vez mais. Já está a lembrar-se, não é? Está sim. E também ouve a minha voz, falando consigo. Agora responda às minhas perguntas. Não está a ouvir-me?
A irmã Marie Angelique tinha pegado no cristal como ele pedia, segurando-o com estranho respeito. Depois, à medida que ia olhando bem, o seu olhar tornou-se vago, como se não estivesse a ver mais nada, e deixou pender a cabeça. Parecia estar a dormir.
O médico tirou-lhe o cristal delicadamente das mãos e colocou-o em cima da mesa. Levantou-lhe o canto da pálpebra. Depois veio sentar-se ao meu lado.
- Temos que esperar que acorde. Acho que não vai demorar muito.
Tinha razão. Ao cabo de cinco minutos, a irmã Marie Angelique mexeu-se. Abriu languidamente os olhos.
- Onde estou?
- Aqui ... em casa. Você dormiu um pouco. Sonhou, não sonhou?
Ela confirmou com a cabeça.
- Sonhei, sim.
- Foi com o Cristal?
- Foi.
- Conte-nos.
- O senhor vai achar-me louca, M. le docteur. Pois imagine, no meu sonho, o Cristal era um emblema sagrado. Cheguei, inclusive a conceber um segundo Cristo, um Mestre do Cristal, que morreu pela sua fé, cujos discípulos foram caçados ... perseguidos ... Mas a fé sobreviveu.
- Sobreviveu?
- Sim ... durante quinze mil luas cheias ... quero dizer, durante quinze mil anos.
- Quanto tempo dura uma lua cheia?
- O tempo de treze luas comuns. Sim, foi na décima - quinta milésima lua cheia ... eu, naturalmente era uma Sacerdotisa do Quinto Signo na Casa de Cristal. Foi nos primeiros dias do advento do Sexto Signo ...
Franziu as sobrancelhas e uma expressão de medo passou-lhe pelo rosto.
- Cedo demais - murmurou. - Cedo demais. Um engano ... Ah sim! Agora me lembro! O Sexto Signo!
Deu um salto, depois recostou-se de novo, passou a mão pelo rosto e murmurou:
- Mas que estou a dizer? Deliro. Essas coisas nunca aconteceram.
- Vamos, não se preocupe.
Mas ela olhava-o, perplexa, angustiada.
- M. le docteur, eu não entendo. Por que é que eu tenho esses sonhos ... essas fantasias? Eu tinha apenas dezesseis anos quando entrei para a vida religiosa. Nunca viajei. No entanto, sonho com cidades, com pessoas e costumes estranhos. Por quê?
Apertou a cabeça entre as mãos.
- Nunca foi hipnotizada, irmã? Nem entrou em estado de transe?
- Nunca fui hipnotizada, M. le docteur. Quanto ao transe, quando eu rezava na capela, meu espírito muitas vezes alienava-se do corpo e eu ficava uma porção de horas como se estivesse morta. Era, sem dúvida, um estado de bem-aventurança, um estado de graça ... como dizia a Reverenda Madre. Prendeu a respiração. - Agora me lembro. Também chamávamos isto de estado de graça.
- Gostaria de fazer uma experiência, irmã - disse Rose numa voz bem natural. - Talvez disperse essas lembranças penosas. Vou pedir-lhe que olhe mais uma vez para o cristal. Depois dir-lhe-ei uma determinada palavra. Você responderá com outra. Continuaremos assim até que se sinta cansada. Concentre seus pensamentos no cristal e não nas palavras.
Enquanto eu tornava a desembrulhar o cristal e o entregava à irmã Marie Angelique, reparei na maneira respeitosa com que ela o pegava. Pousado sobre o veludo preto, ficou entre as delgadas palmas de suas mãos. Ela fitava-o com aqueles maravilhosos olhos profundos. Houve um curto silêncio e depois o médico disse: "Cão".
A irmã Marie Angelique respondeu imediatamente: "Morte".

(continua)

sábado, 30 de junho de 2012

O Cão da Morte - Agatha Christie (2)



Encontrei o Dr. Rose em casa e apresentei-me. Parecia ser um rapaz simpático, mas havia qualquer coisa na sua personalidade que não me agradou muito. Era prepotente demais para deixar uma pessoa inteiramente à vontade.
Ficou bem atento quando mencionei a irmã Marie Angelique. Era evidente que estava profundamente interessado. Contei-lhe a história que tinha ouvido de Ryan.
- Ah! - exclamou, pensativo. - Isso explica uma porção de coisas.
Levantou rápido os olhos para mim e continuou.
- O caso, de facto, é incrivelmente interessante. Quando ela chegou aqui, era evidente que tinha sofrido algum choque muito grande. Encontrava-se também num estado de grave perturbação mental. Era dada a alucinações de uma natureza simplesmente desconcertante. A personalidade dela é absolutamente fora do comum. Talvez o senhor queira vir comigo para lhe fazermos uma visita. Vale a pena conversar com ela.
Concordei prontamente.
Dirigimo-nos a um pequeno chalé nos arredores da aldeia. Folbridge é um lugar muito pitoresco. Fica na foz do rio Fol, sobretudo na margem leste; a margem oeste é escarpada demais para ser povoada, o que não impede que existam algumas casas construídas temerariamente lá por aqueles penhascos. A do médico, por exemplo, estava encarrapitada bem na extremidade do penhasco do lado oeste. Dali se avistavam as grandes ondas batendo contra os rochedos negros.
O pequeno chalé para onde agora nos dirigíamos ficava afastado da costa, sem vista para o mar.
- A enfermeira local mora aqui - explicou o Dr. Rose.
- Eu providenciei para que a irmã Marie Angelique se hospedasse com ela. É melhor que permaneça sob cuidados especiais.
- Ela tem comportamento normal? - perguntei , curioso.
- Daqui a pouco o senhor verá com os seus próprios olhos - respondeu-me, sorrindo.
A enfermeira local, uma mulherzinha baixota e simpática, estava a sair de bicicleta quando chegámos.
- Boa tarde, enfermeira. Como vai a paciente? - gritou o médico.
- Como sempre, doutor. Sentada lá dentro com as mãos no colo e o espírito ausente. Muitas vezes não responde quando lhe falo, apesar de que deve levar-se em conta que ainda não entende bem o inglês.
Rose concordou com a cabeça e, enquanto a enfermeira saía a pedalar pela estrada afora, foi até à porta do chalé, bateu com força e entrou.
A irmã Marie Angelique estava reclinada numa preguiçosa perto da janela. Virou a cabeça para o nosso lado.
Tinha um rosto estranho - pálido, transparente, com olhos imensos. Pareciam conter uma infinidade de tragédias.
- Boa tarde, irmã - disse o médico, em francês.
- Boa tarde, M. le docteur.
- Permita-me apresentar-lhe um amigo, Mr. Anstruther.
Fiz uma mesura. Ela inclinou a cabeça com um leve sorriso.
- Como está hoje? - perguntou o médico, sentando-se a seu lado.
- Como sempre. - Houve uma pausa. Depois continuou. - Nada me parece real. São dias ... meses ... ou anos que passam? Eu mal sei. Só os meus sonhos me parecem reais.
- Ainda sonha muito, então?
- Sempre ... sempre ... e, o senhor compreende? ... os sonhos parecem mais reais do que a vida.
- Sonha com seu país ... com a Bélgica?
Ela sacudiu a cabeça.
- Não. Sonho com um país que nunca existiu ... nunca. Mas isso o senhor está cansado de saber, M. le docteur. Já lhe contei várias vezes. - Parou e depois disse bruscamente:
- Mas talvez este senhor também seja médico ... um especialista de doenças do cérebro?
- Não, não.
Rose quis tranquilizá-la, mas enquanto sorria, notei como os seus dentes caninos eram incrivelmente pontudos e me ocorreu que havia qualquer coisa de lobo nele.
Prosseguiu:
- Achei que talvez tivesse interesse em conversar com Mr. Anstruther. Ele conhece um pouco a Bélgica. Ultimamente recebeu notícias do seu convento.
Os olhos dela viraram-se para mim. Senti que avermelhei de leve.
- Não é nada, realmente - apressei-me a explicar. - Mas na outra noite estava a jantar com um amigo que me descreveu as paredes desmoronadas do convento.
- Quer dizer então que desmoronaram!
Era uma exclamação sufocada, dirigida mais a ela própria do que a nós mesmos.
Depois, olhando-me mais uma vez, perguntou hesitante:
- Diga-me monsieur, o seu amigo não descreveu como ... de que maneira ... desmoronaram?
- Foi devido a uma explosão - respondi, e acrescentei:
- Os camponeses têm medo de passar lá de noite.
- Por quê?
- Por causa de uma marca preta nos escombros de uma parede. São muito supersticiosos.
Ela curvou-se para a frente.
- Diga-me, monsieur ... depressa ... depressa ... diga-me! Como é esta marca?
- Tem a forma de um enorme cão de caça - respondi.
- Os camponeses puseram-lhe o nome de Cão da Morte.
- Ah! - exclamou num grito. - Então é verdade ... é verdade. Tudo o que eu me lembro é verdade. Não foi nenhum pesadelo. Isso aconteceu! Aconteceu!
- O que aconteceu irmã? - perguntou o médico em voz baixa.
Ela virou-se ansiosa, para ele.
- Eu lembrava-me. Lá nos degraus, eu lembrava-me. Lembrava-me de tudo. Usei o poder que tínhamos antigamente. Fiquei parada nos degraus do altar e pedi que não se aproximassem. Mandei que se fossem embora, em paz. Não quiseram ouvir, continuaram a vir apesar das minhas advertências. E então ... - Curvou-se para frente e fez um gesto estranho. - E então eu soltei o Cão da Morte sobre eles ...
Recostou-se de novo na cadeira, estremecendo da cabeça aos pés, os olhos fechados. O médico levantou-se, foi buscar um copo no armário, encheu de água até ao meio, verteu duas gotas de um frasquinho que tirou do bolso, e depois deu-lho.
- Beba isto - pediu, autoritário.
Ela obedeceu - maquinalmente, por assim dizer. Tinha o olhar distante, como se estivesse a contemplar uma visão que só ela podia vislumbrar.
- Mas então tudo é verdade - murmurou. - Tudo. A cidade dos círculos, as pessoas de cristal ... tudo. É tudo verdade.
- Parece que sim - concordou Rose.
Falava em voz baixa, apaziguadora, com o nítido propósito de estimular e não perturbar a associação de ideias da religiosa.
- Fale-me da cidade - pediu. - Da Cidade dos Círculos, não foi isso que você disse?
- Sim ... havia três círculos - respondeu maquinalmente, distraída. - O primeiro destinava-se aos eleitos, o segundo às sacerdotisas e o último aos sacerdotes.
- E no centro?
Ela tomou fôlego com veemência e a voz adquiriu um tom de indescritível pavor.
- A casa de Cristal ...
Ao pronunciar estas palavras, levantou a mão direita e traçou com o dedo um contorno qualquer sobre a testa.
O seu corpo pareceu mais rígido e, sempre de olhos fechados, oscilou um pouco. Depois, de repente, endireitou-se de um salto, como se tivesse acordado bruscamente.
- Que foi? - perguntou, confusa. - O que é que eu estava a falar?
- Não foi nada - respondeu Rose. - Você está cansada. Quer descansar. Nós já vamos embora.
- Então - disse Rose, já do lado de fora. - Qual foi a sua impressão?
Lançou-me um olhar penetrante enquanto caminhávamos.

(continua)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Cão da Morte - Agatha Christie (1)



Foi por intermédio de William P. Ryan, correspondente de um jornal americano, que ouvi falar pela primeira vez no caso. Jantava com ele em Londres na véspera de seu regresso a Nova York e, por acaso, mencionei que na manhã seguinte pretendia ir a Folbridge.
Ele levantou os olhos e perguntou abruptamente:
- Folbridge, na Cornualha?
Ora, é raríssima a pessoa que sabe que existe Folbridge, na Cornualha. Todos pensam que se trata de Folbridge em Hampshire. Por isso o conhecimento de Ryan despertou a minha curiosidade.
-Sim - respondi. - Já esteve lá?
Ele limitou-se a praguejar. Depois perguntou se por acaso eu não conhecia uma casa chamada Trearne, que ficava por lá.
O meu interesse aumentou.
- Claro que conheço. Por sinal, é para lá que eu vou. É a casa da minha irmã.
-Incrível! - exclamou William P. Ryan. - Só faltava mais essa!
Sugeri que parasse de fazer comentários enigmáticos e se explicasse melhor.
- Bem - disse ele. - Para isso terei que começar por uma experiência que tive no início da guerra.
Suspirei. A história que conto aconteceu em 1921. A última coisa que podia me interessar era relembrar a guerra, graças a Deus já quase esquecida... Além do mais, eu sabia que William P. Ryan tinha o costume de ser incrivelmente prolixo quando se punha a descrever as suas experiências de combate.
Mas agora não havia como impedir.
- No princípio da guerra, como acho que sabe, encontrava-me na Bélgica a serviço do jornal... andando de um lado para o outro. Pois existia um lugarejo... vamos chamá-lo de X. A aldeia mais insignificante que já se viu, mas onde há um convento bastante grande. Freiras de branco, como é mesmo que elas se chamam? ... Sei lá o nome da ordem. Enfim, não vem ao caso. Pois esta cidadezinha ficava bem no caminho da avançada alemã. Os boches chegaram ...
Agitei-me incómodo no assento. William P. Ryan levantou a mão, para me tranquilizar.
- Não se assuste - disse. - Não é uma história de atrocidades germânicas. Podia ter sido, talvez, mas não foi. Para ser franco, aconteceu exactamente o contrário. Os boches atacaram o tal convento ... e quando entraram, a coisa voou toda pelos ares.
- Com a breca! - exclamei , espantado.
- Estranho, não é? Claro que a primeira coisa que eu diria é que os boches estavam a festejar a vitória e começaram a brincar com seus próprios explosivos. Mas parece que não havia nenhuma coisa deste tipo entre os armamentos que eles carregavam. Não era uma unidade encarregada do transporte de dinamite. Pois muito bem, eu então pergunto-lhe o que é que um bando de religiosas entende de explosivos? Que freiras estranhas, hein?
- De facto, é estranho - concordei.
- Fiquei interessado em ouvir a opinião dos camponeses sobre o assunto. Para eles, a explicação não podia ser mais simples. Tratava-se de um milagre moderno, sensacional, cem por cento eficaz. Segundo eles, uma das freiras havia criado uma espécie de fama ... uma vocação de santa ... entrava em transe e tinha visões. E disseram-me que foi ela a autora da proeza. Pediu que um raio fulminasse o invasor impiedoso ... e não há que negar que fulminou mesmo ... e tudo mais que se encontrava por perto. Milagre bem eficaz!
"Nunca consegui apurar a verdade ... não deu tempo. Mas naquela época surgiam milagres por tudo quanto é canto ... anjos em Mons, e assim por diante. Escrevi o artigo, adicionei uma boa dose de pieguice, explorei bem o lado religioso, e mandei para o jornal. Causou sucesso nos Estados Unidos. Era o tipo de coisa que gostavam de ler naquele tempo.
"Mas (não sei se você vai compreender isto) ao escrever o artigo, fiquei meio interessado. Achei que gostaria de saber o que tinha realmente acontecido. No próprio local não havia nada para se ver. Ainda restavam duas paredes de pé, numa delas existia uma grande marca de pólvora preta com a forma exacta de um enorme cão de caça. Os camponeses das imediações andavam mortos de medo da tal marca. Puseram-lhe o nome de Cão da Morte e não passavam por lá depois do anoitecer.
"A superstição é sempre uma coisa interessante. Resolvi procurar a freira autora da proeza. Parecia que continuava viva. Mas tinha vindo para a Inglaterra, junto com um grupo de outros refugiados. Dei-me ao trabalho de localizá-la. Descobri que havia ido para Trearne, em Folbridge, na Cornualha."
Confirmei com a cabeça.
- A minha irmã acolheu alguns refugiados belgas no início da guerra. Uns vinte, mais ou menos.
- Pois prometi-me que, quando tivesse tempo, iria procurar a tal freira. Queria que ela me contasse a sua própria versão da tragédia. Depois, andando sempre às voltas com uma coisa e outra, não pensei mais no assunto. A Cornualha, de qualquer forma, fica meio fora de mão. Para falar a verdade, tinha-me esquecido por completo dessa história, até que você, ao mencionar Folbridge há pouco, trouxe tudo de volta à minha memória.
- Vou perguntar à minha irmã - disse eu. - Ela deve ter ouvido falar no caso. Só que os belgas, naturalmente, já foram repatriados há muito tempo.
- Lógico. Mesmo assim, se s sua irmã souber de alguma coisa, eu gostaria muito que me comunicasse.
- Pode ficar descansado - prometi.
E a coisa ficou nesse pé.
Foi no dia seguinte à minha chegada a Trearne que me lembrei da história. Minha irmã e eu estávamos a tomar chá no terraço.
- Kitty - perguntei, - não havia uma freira entre os belgas que acolheu?
- Não quer dizer a irmã Marie Angelique, não?
- É possível que sim - respondi, precavido. - Fale-me sobre ela.
- Ah, meu caro! É uma criatura simplesmente fantástica. Ainda mora aqui, sabia?
- Quê? Aqui em casa?
- Não, não, na aldeia. O Dr. Rose ... lembra-se do Dr. Rose?
Sacudi a cabeça.
- Lembro-me de um velho de seus oitenta e três anos.
- O Dr. Laird? Não, esse já morreu. Faz pouco tempo que o Dr. Rose veio para cá. É bem moço e cheio de ideias avançadas. Tomou-se de um interesse enorme pela irmã Marie Angelique. Sabe, ela sofre de alucinações e não sei mais o quê, e pelo jeito é tremendamente interessante sob o ponto de vista médico. Coitada, não tinha para onde ir ... e realmente, na minha opinião, era bem amalucada ... só que de uma maneira comovente, se é que você me entende ... pois bem, como eu ia dizendo, ela não tinha para onde ir e o Dr. Rose, muito gentilmente, conseguiu que ela ficasse na aldeia. Creio que está a escrever uma monografia ou seja lá o que for que os médicos escrevem, a respeito dela.
Fez uma pausa e depois perguntou:
- Mas o que é que você sabe dela?
- Ouvi uma história bastante curiosa.
E contei exactamente o que Ryan tinha dito. Kitty ficou interessadíssima.
- Ela parece mesmo o tipo de pessoa que seria capaz de mandar você pelos ares ... entende o que eu quero dizer, não é?
- Acho - respondi, cada vez mais curioso, - que preciso mesmo falar com essa moça.
- Pois fale. Eu gostaria de saber a sua opinião sobre ela. Mas primeiro procure o Dr. Rose. Por que não vai até à aldeia depois do chá?
Aceitei a sugestão.

(continua)

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Missa das Sombras

Andre Garban 1930

Eis o que o sacristão da igreja de Santa Eulália, em Neuville-d'Aumont, me contou debaixo da latada do Cavalo-Branco, numa bela noite de verão, bebendo uma garrafa de velho vinho, à saúde de um morto muito abastado, que ele havia enterrado honrosamente naquela manhã mesma, sob um tecido cheio de belas lágrimas de prata.

"Meu finado e pobre pai (quem fala é o sacristão) foi, em vida, coveiro. Era de humor agradável, e isso sem dúvida decorria de sua profissão, porque se tem reparado que as pessoas que trabalham nos cemitérios possuem espírito jovial. A morte não os atemoriza absolutamente; jamais se preocupam com ela. Eu, que lhe estou falando, senhor, penetro num cemitério, à noite, tão serenamente quanto no caramanchão do Cavalo-Branco. E se, por acaso, encontro um espectro, não me inquieto absolutamente com isso, porque reflito que ele pode perfeitamente ir cuidar de seus negócios, da mesma forma que eu dos meus. Conheço os hábitos dos mortos e seu caráter. Sei a tal respeito coisas que os próprios sacerdotes ignoram. E o senhor ficaria surpreso se lhe contasse tudo que tenho visto. Mas, nem todas as verdades são próprias para serem contadas, e meu pai, que, todavia, gostava de narrar histórias, não revelou a vigésima parte do que sabia. Em compensação, repetia muitas vezes as mesmas narrativas e. ao que eu saiba, relatou bem umas cem vezes a aventura de Catarina Fontaine.

Catarina Fontaine era uma velha solteirona, que ele se lembrava de ter visto em criança. Não me surpreenderia se ainda houvesse na região, até, uns três velhos que ainda se recordem de ter ouvido falar a seu respeito, porque ela era muito conhecida e considerada, embora pobre. Morava numa esquina da Rua das Freiras, na torrezinha que o senhor ainda pode ver e que depende de um velho palacete arruinado, que dá para o jardim das Ursulinas. Há. nessa torrezinha, figuras e inscrições meio apagadas. 0 falecido pároco de Santa Eulália, Levasseur, dizia aí estar escrito, em latim, que "o amor é mais forte que a morte". 0 que se refere, acrescentava, ao amor divino.

Catarina Fontaine vivia sozinha nessa pequena habitação. Fazia rendas. 0 senhor sabe que as rendas de nossa região eram, antigamente, muito afamadas. Não se conheciam parentes ou amigos seus. Dizia-se que amara, aos dezoito anos, o jovem cavaleiro d'Aumont", com quem noivara secretamente. Mas as pessoas de bem não queriam acreditar absolutamente nisso e diziam tratar-se de uma história que fora imaginada, porque Catarina Fontaine lembrava mais uma dama, que uma operária, conservava sob seus cabelos brancos os vestígios de uma grande beleza, possuía um ar triste e se lhe podia ver, na mão, um desses anéis em que o ourives colocara duas mãozinhas unidas e que era costume outrora os noivos trocarem. 0 senhor saberá, daqui a pouco, o que isso significa.

Catarina Fontaine vivia santamente. Frequentava as igrejas e, todas as manhãs, qualquer que fosse o tempo, ia ouvir a missa de seis horas, em Santa Eulália.
Ora, uma noite de Dezembro, quando ela estava deitada em seu pequeno quarto, foi despertada pelo toque dos sinos; certa de estarem eles anunciando a primeira missa, a piedosa senhora vestiu-se e desceu à rua, onde a noite era tão fechada que se não viam absolutamente as casas; claridade alguma era perceptível, no céu negro. E reinava tamanho silêncio nessas trevas - que nem penso um cão ladrava ao longe - que a pessoa se sentia completamente separada do mundo dos vivos. Mas Catarina Fontaine, que conhecia cada uma das pedras onde pisava e que podia ir à igreja de olhos fechados, alcançou, sem dificuldade, a esquina da Rua das Freiras com a Rua da Paróquia, no ponto onde se ergue a casa de madeira que exibe uma árvore de Jessé, esculpida numa volumosa trave. Tendo alcançado esse local, ela viu que as portas da igreja estavam abertas e que deixavam sair uma grande claridade de círios. Continuou a caminhar e, tendo entrado, encontrou-se numa reunião, que enchia a igreja. Ela, porém, não reconhecia nenhum dos presentes, e estava surpresa ao ver - aquelas pessoas trajadas de veludo e de brocado, plumas no chapéu e trazendo espada, à maneira dos tempos de antanho. Havia senhoras que seguravam longas bolsas de castão de ouro e damas com toucados de nadas, presos com um pente em diadema. Cavaleiros de Luís davam a mão a essas senhoras, que escondiam atrás do leque um rosto pintado, do qual só era visível um sinal no canto dos olhos! E todos iam colocar-se em seu lugar, sem o menor ruído, e não se ouvia, enquanto andavam, nem o som dos passos no lajedo, nem o roçagar dos tecidos.

As naves laterais enchiam-se de multidão de jovens artesãos, de casaco pardo, calções de fustão e meias azuis, que seguravam pela cintura raparigas lindíssimas, rosadas, que conservavam os olhos baixos. E, junto às pias de água benta, camponesas de saia vermelha e corpinho de atar, sentavam-se no chão com a tranquilidade dos animais domésticos enquanto uns mocetões, de pé atrás delas, alavam os olhos, rodando o chapéu nos dedos. E todas aquelas fisionomias silenciosas pareciam imobilizadas para sempre, no mesmo pensamento, suave e triste. Ajoelhada em seu lugar costumeiro, Catarina Fontaine viu o sacerdote caminhar para o altar, precedido por dois acólitos. Não reconheceu nem o sacerdote, nem os ajudantes. Começou a missa. Era uma silenciosa missa, na qual não se ouvia absolutamente o som dos lábios que se agitavam, nem o rumor da sineta agitada inutilmente. Catarina Fontaine sentia-se sob o olhar e sob a influência de seu misterioso vizinho e, tendo olhado, sem quase volver reconheceu o jovem cavaleiro d'Aumont-Cléry, que a havia amado e que morrera fazia quarenta e cinco anos. Reconheceu-o por um sinalzinho que ele possuía sob a orelha esquerda e, principalmente, pelo sombreado dos longos cílios negros em seu rosto. Vestia o traje de caça, com botões dourados, que ele usara no dia em que tendo-a encontrado no bosque de São Bernardo, roubara-lhe um beijo. Conservava a Sua mocidade e seu bom aspecto. Seu sorriso ainda mostrava uma dentadura de jovem lobo. Catarina disse-lhe, baixinho:

- Senhor, vós que fostes meu amigo e a quem dei outrora o que uma jovem possui de mais precioso, Deus vos tenha em sua graça! Possa ele me inspirar, finalmente, o pesar pelo pecado que cometi convosco: porque é verdade que, de cabelos brancos e próxima da morte, ainda não me arrependo de vos ter amado. Mas, finado amigo, meu belo senhor, dizei-me, quem são essas pessoas trajadas à maneira antiga, que estão assistindo aqui a esta silenciosa missa.

0 cavaleiro d'Aumont-Cléry respondeu com uma voz mais débil que um sopro e, não obstante, mais clara que o cristal:
- Catarina, esses homens e essas mulheres são almas do purgatório, que ofenderam a Deus, pecando, a nosso exemplo, pelo amor das criaturas, mas que nem por isso estão desligadas de Deus, porque seu pecado foi, a exemplo do nosso, sem maldade. Enquanto separadas daqueles que amavam sobre a terra, elas se purificam no fogo do purgatório, padecem as dores da ausência, e para elas esse sofrimento é o mais cruel. São tão infelizes que um anjo do céu se apiedou de seu martírio de amor. Com o consentimento de Deus, reúne, todos os anos, durante uma hora da noite, o amigo à amiga em sua igreja paroquial, onde lhes é permitido assistir à missa das sombras, segurando-se pela mão. Esta é a verdade. Se me foi permitido ver-te aqui antes de tua morte, Catarina, tal coisa não se realizou sem a permissão de Deus.

La Charrette Fantôme, de Julien Duvivier, 1938

E Catarina Fontaine respondeu-lhe:
- Bem desejaria morrer para voltar a ser formosa como nos dias, meu finado senhor, em que te dava de beber na floresta.
Enquanto falavam assim, baixinho, um cónego muito idoso recolhia as esmolas e apresentava uma grande salva de cobre aos presentes, que ali deixavam cair sucessivamente moedas antigas, desde muito tempo fora de circulação: escudos de seis libras, florins, ducados, nobres com a rosa, e as moedas caíam em silêncio.

Quando a salva de cobre lhe foi apresentada, o cavaleiro depositou um luís, que não fez mais ruído que as outras moedas de ouro ou de prata.
Depois, o velho cónego parou em frente de Catarina Fontaine, que procurou em seu bolso, sem nele encontrar, um real. Então, não desejando recusar sua dádiva, tirou do dedo o anel que o cavaleiro lhe dera na véspera de sua morte, e atirou-o na concha de cobre. 0 anel de ouro, ao cair, ressoou como um pesado badalo de sino e, ao ruído atroador que ele fez, o cavaleiro, o cónego, o oficiante, os agitaram, as damas, os cavaleiros, toda a assistência desapareceu; os círios se apagaram e Catarina Fontaine ficou sozinha nas Trevas.

Tendo concluído assim sua narrativa, o sacristão bebeu um grande copo de vinho, ficou um instante a meditar e depois prosseguiu, nestes termos:
"Contei-lhe esta história exactamente como a ouvi muitas vezes de meu pai e creio que é verdadeira, porque corresponde a tudo o que tenho observado das maneiras e dos costumes peculiares dos defuntos.
"Convivi com os mortos, desde minha infância, e sei que eles costumam voltar a seus amores.
- É por isso que os mortos avarentos vagam, à noite, nas proximidades dos tesouros que eles esconderam durante a vida. Montam boa guarda à volta de seu ouro; mas os cuidados que eles tomam, longe de lhes servirem, prejudicam-nos, e não é raro descobrir-se dinheiro enterrado na terra, pesquisando-se o sítio frequentado por um fantasma. Da mesma forma, os finados maridos vêm atormentar, à noite, suas mulheres, casadas em segundas núpcias, e eu poderia indicar muitos que vigiaram melhor suas esposas depois de mortos do que o haviam feito em vida...

Esses são dignos de censura, porque, em boa justiça, os defuntos não deveriam ser ciumentos. Mas estou contando o que tenho observado. Por isso é que se deve ter cuidado quando se desposa uma viúva. Aliás, a história que lhe relatei tem sua comprovação no seguinte fato:
"Na manhã seguinte a essa noite extraordinária, Catarina Fontaine foi encontrada morta em seu quarto. E o padre de Santa Eulália encontrou, na salva de cobre que servia para o peditório, um anel de ouro, com duas mãos entrelaçadas. Aliás, não sou homem que conte histórias para fazer rir. E se pedíssemos outra garrafa de vinho?..."


Anatole France

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Run Boy Run

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Princesa Desalento

Dorothy Sebastian (1903-1957)

Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É revoltada, trágica, sombria,
Como galopes infernais de vento!

É frágil como o sonho dum momento,
Soturna como preces d'agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh'alma é a Princesa Desalento…

Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta…


Florbela Espanca, «Livro de Soror Saudade», in «Poesia Completa»

domingo, 13 de maio de 2012

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Lenda da Donzela Adormecida

Enoki Toshiyuki

Havia frio naquela noite de Inverno, no lugar de Cavez. Matilde ouvia o vento uivar lá fora e arrepiava-se, mais de medo que de frio. Nos lamentos sibilantes da tempestade em fúria, ela escutava sons como vozes humanas. Estremecia de terror. Tapava os ouvidos e encolhia-se na cadeira, deixando o bordado por continuar.
Arnaldo, o noivo de Matilde, ria-se da puerilidade da sua bem-amada:
— Querida, deixai de ser criança! De que tendes medo quando o vento sopra?
Ela estava pálida.
— Não sei! Parece-me escutar vozes do Além...
Ele riu.
— E que vos dizem essas vozes?
A jovem encolheu os ombros.
— Não as entendo. Falam todas ao mesmo tempo!
O riso tornou-se geral. O pai e a mãe de Matilde abanavam a cabeça, descontentes. Alguém insinuou, irónico:
— Cuidado, Matilde! Talvez sejam as almas do Purgatório!
A rapariga levou as mãos ao rosto. O medo tornava-a branca como cera. Então, Arnaldo deixou de rir. Chamou-a com ternura:
— Matilde, olhai para mim! Julgais-me insensato?
Ela murmurou:
— Não.
— Então, se vos digo que o vento sopra porque a tempestade é soberana nestes meses de Inverno, por que estais assim tão medrosa?
Ela murmurou, com um suspiro:
— Já sei que não vou dormir esta noite!
— E porquê? Receais que eu chegue a casa muito molhado da chuva e possa adoecer?
— Isso também me aflige. Mas...
— Mas o quê?
— Mas não é só isso. Eu oiço vozes quando o vento sopra!
Sorrindo para disfarçar a apreensão que a filha lhe causava, a mãe de Matilde aconselhou:
— Pois bem, minha filha. Tenta orar pelas almas do Purgatório quando essa obsessão te domina, e verás que tudo correrá bem!
Matilde agradeceu. O conselho da mãe ia ao encontro dos seus pensamentos. Pegou no bastidor para continuar o bordado. Porém, o vento voltou a uivar lá fora. Era um grito de alerta, que ficava repercutindo.
Matilde deixou cair o bordado. Olhou o noivo, gritando:
— Não, Arnaldo! Não saireis daqui!
Arnaldo pegou-lhe nas mãos, assustado.
— Que tendes, Matilde? Bem vedes que não poderei ficar aqui toda a noite!
Ela olhava-o aterrorizada.
— Mas não é isso! É a guerra! Prometei-me que não ireis para a guerra!
Os que assistiam a esta cena entreolharam-se. Sem dúvida, Matilde estava doente!
Tentando acalmá-la, Arnaldo provocou uma explicação:
— Querida! Porque falais em guerras, se a única que existe, lá fora, é a tempestade?
Matilde abanou a cabeça. Tinha os olhos rasos de lágrimas.
— Não, não é só a tempestade! Eu ouvi! Ouvi distintamente!
— E o que ouvistes?
— Que vós… vós ireis para a guerra... contra os Castelhanos... e... e vos perdereis...
— Eu?
Matilde chorava.
— Sim, vós! O nosso rei ganhará a batalha que vos perderá!
Arnaldo franziu as sobrancelhas, apreensivo.
— Querida! Algo vos preocupa e põe nervosa! Abri-vos comigo. Contai-me o que vos aflige, e juro que não me rirei de vós.
Matilde, olhos fixos no mosaico do chão, respirou fundo. Tinha olheiras roxas a circundar-lhe os olhos. A voz tremia-lhe:
— No vento, quando sopra forte, há vozes distantes que me falam. Umas têm frases de desespero, outras de consolação. Oiço chorar e rir. Hoje, porém, falaram-me de vós. Disseram-me que não vos deixasse partir para a guerra com Castela, porque vos perderíeis na batalha que o rei Afonso IV ganharia!
Arnaldo, sem se alterar, tomou as mãos geladas de Matilde.
— Querida! Porque acreditais nessas vozes, se não estamos agora em guerra?
Ela não respondeu. Sentia-se bem ao ouvir a voz do noivo a falar-lhe com ternura. O vento amainara. A tempestade seguia novos rumos. Então, o pai de Matilde lembrou, olhando Arnaldo:
— Creio que será prudente aproveitardes esta aberta para regressardes a casa. Matilde precisa descansar.
Ela agarrou fortemente as mãos do noivo.
— Não! Não me deixeis! Ninguém mais me compreende!
A mãe da jovem aproximou-se.
— Querida filha, vai descansar! Arnaldo voltará aqui amanhã!
Ajudada por Arnaldo, Matilde levantou-se do caldeirão. Parecia, de facto, doente. O noivo beijou-lhe a ponta dos dedos e despediu-se para sair. Mal o jovem cavaleiro saiu a porta, a donzela caiu desmaiada.



No dia seguinte, quando Arnaldo se dispunha a montar a cavalo para ir ver a noiva, um mensageiro chegou da corte. Trazia a notícia de que el-rei desejava quebrar pazes com Castela e fazer novas incursões em território fronteiriço. Noutra ocasião qualquer, o caso não o teria incomodado; mas nesse dia, impressionado ainda com o que se passara na véspera, nem teve coragem para se despedir de Matilde. Escreveu-lhe uma longa carta, renovando-lhe todas as suas juras de amor e pedindo-lhe perdão por não se avistar com ela mais uma vez antes de cumprir as ordens de el-rei. Procurou, contudo, o pai de Matilde e fez-lhe entrega de um anel de família, dizendo:
— Senhor, lembrai a vossa filha que desejo encontrá-la bem de saúde quando voltar, o que farei dentro de alguns meses. Isto não é propriamente uma guerra: é uma pequena incursão em terras vizinhas. Ajudai-a a saber esperar e incuti-lhe confiança!
O pai de Matilde sorriu.
— Ficai descansado. Tentarei velar por minha filha o melhor que puder. Mas tende prudência, porque desde este momento começo a sentir-me impressionado com o que se passa com Matilde!
Despediram-se como bons amigos. E Arnaldo partiu a caminho da corte, onde iria juntar-se ao exército real.

A luta era dura. A sorte nem sempre se mostrava risonha aos Portugueses. Ora avançavam, ora recuavam. Mas de súbito, numa arrancada forte, levaram os Castelhanos de vencida. A alegria foi imensa. O saque livre começou. Os soldados desataram a apoderar-se de todos os objectos, valiosos ou não, existentes nas casas. Arnaldo viu-se no meio dessa gente de apetites desenfreados. Num solar abandonado, Arnaldo descobriu um valiosíssimo cálice que pertencia à capela contígua. O desejo de se apoderar desse objecto e de um quadro de maravilhoso desenho tomou-o com desespero. E não resistiu à tentação. Levou consigo o cálice e o quadro e foi enterrá-los no campo, debaixo de uma rocha, para que ninguém lhes tocasse até que ele pudesse voltar à sua terra. Porém, nesse mesmo dia, numa pequena escaramuça de prisioneiros, Arnaldo foi ferido de morte!

A Primavera chegara. O vento já não zunia e Matilde, embora triste e desassossegada, esperava confiante a volta de Arnaldo. Mas nessa noite ela já não dormira bem. Como D. Isabel — a mãe de Matilde — confiasse ao esposo a sua apreensão pela saúde da filha, este respondeu:
— Não vos aflijais por isso. Creio que vamos ter mudança de tempo, e a nossa filha é muito sensível aos temporais.
Na verdade, um vento leve começava a levantar-se. Nos caminhos as folhas dançavam e erguiam-se nuvens de pó. Pálida, inquieta, Matilde foi sentar-se perto duma janela. Bem tentou sua mãe dissuadi-la de ficar ali. Mas ela insistiu, pedindo que a deixassem meditar. Receando qualquer recaída, a mãe de Matilde ficou no salão, fingindo-se interessada pelo bordado, mas na verdade observando a filha.
Lá fora, o vento soprava cada vez mais forte. Zunia impertinente. De súbito, Matilde deu um grito e caiu desmaiada.

William Morris - The wood beyond the world - 1894

Esteve assim largo tempo, sem sentidos, a jovem Matilde. Quando acordou, parecia mais calma. Não havia lágrimas nos seus olhos, mas a sua palidez impressionava. A mãe inclinou-se sobre ela, indagando:
— Minha filha, que tens?
Ela suspirou. A sua voz era débil.
— Senhora! Acabo de perder o meu noivo… e ele quase se perde também!
— Que dizes tu?
— Arnaldo morreu. Feriram-no de morte hoje mesmo!
— Quem to disse, se não veio aqui ninguém?
— As vozes que o vento trouxe!
— Filha, não exageres! Isso pode ter sido apenas impressão tua!
— E foi apenas impressão minha, a ida de Arnaldo para esta batalha?
A mãe de Matilde calou-se. A jovem fechou os olhos. Parecia extremamente cansada. D. Isabel pediu:
— Tenta dormir, minha filha. Talvez te faça bem.
Matilde não respondeu. Parecia dormitar. De repente sentou-se na cama, olhando a porta. Era quase rouca a sua voz:
— Arnaldo! Arnaldo! Que me quereis? Estais tão ferido!
Houve um pequeno silêncio. Ela tornou:
— Em que posso eu ajudar-vos?
Calou-se, como se houvesse um diálogo do qual só se entendesse a voz de Matilde. Ela continuou:
— Quereis então que vá a essa terra?
Novo silêncio.
— Pois irei, Arnaldo, irei! Onde quereis que coloque o cálice de ouro e o quadro?
Nova pausa. E Matilde fez nova pergunta:
— Entrego-os no solar ou na igreja?
— …
— Está bem. Irei à igreja.
— …
— Bem sei. Pedirei licença para me ausentar.
— …
— Oh, Arnaldo! Faço-vos tudo isso de boa vontade, se do meu esforço resultar para vós a salvação. Mas atendei ao meu sofrimento sem a vossa companhia, e pedi a Deus que me leve também!
— …
Matilde sorriu. Deitou-se. Fechou os olhos e disse para a mãe, que estava muda de espanto:
— Preciso dormir um bocadinho. Logo já acordarei bem. Amanhã iremos à corte, e depois necessito que o pai me acompanhe numa pequena viagem.
D. Isabel nem respondeu. Para ela, a filha delirava! Matilde fechou os olhos e adormeceu calmamente.
Foi grande a dificuldade da jovem para convencer os pais a acompanharem-na a terras de Castela. Porém, quando verificaram que ela, em determinado local, desenterrara com a ajuda de dois homens um preciosíssimo cálice de ouro e um quadro antigo, deixaram de ter dúvidas: Matilde era dotada de algo de estranho que lhe permitia comunicar com o Além. A ideia de que a perderiam em breve custou-lhes muito, mas até a isso se habituaram. Matilde não nascera para a Terra. Matilde, bela e boa como poucas jovens da sua idade, fora sempre diferente.
Depois de entregar o cálice e o quadro, em nome do cavaleiro português morto depois do combate, Matilde regressou a casa. Meteu-se na cama e pediu que a deixassem dormir. Desse sono tranquilo não voltou a acordar. E o povo de Cavez, durante muitos anos ainda, apontava a casa da donzela adormecida, com um misto de piedade e receio. E quando o vento soprava com fora, ficavam atentos às vozes estranhas que também julgavam ouvir...


MARQUES, Gentil, Lendas de Portugal ,Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume V, pp. 309-31
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